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Sexta, 17 de julho de 2009, 08h00

O melhor filme brasileiro que você ainda não viu

Marcelo Carneiro da Cunha
De São Paulo

Estimados milhares de leitores dessa coluna. Imaginem vocês que tenham escrito um romance. Imaginem agora que esse livro que vocês escreveram tenha sido transformado em um filme, e que convidem vocês para assistirem ao filme feito sobre o livro de vocês. Que lhes parece a idéia?

Aconteceu comigo ontem, quando o pessoal da Casa de Cinema ligou, convidando para o lançamento mundial do longa-metragem que realizaram a partir do meu livro Antes que o Mundo Acabe. A Casa de Cinema, pra quem não sabe, é uma entidade muito, mas muito respeitada dentro da produção nacional de cinema e televisão. Eles também são meus amigos há muitos e muitos anos, e quando disseram que queriam adaptar o meu livro, foi um prazer enorme ceder os direitos para eles. A Casa de Cinema é uma família onde todos são cineastas e talentosos. Na verdade, três famílias, formadas por três casais que estão juntos desde sempre, tanto como casais quanto como produtores e realizadores de cinema. Eles são o Jorge Furtado, Nora Goulart, Giba Assis Brasil, Ana Luiza Azevedo, Luli Tomasi e Carlos Gerbase. Ser adaptado por eles, é um privilégio pelo qual a vasta maioria dos escritores brasileiros faria quase qualquer coisa, e eu quero dizer qualquer coisa meeesmo! Eu faria, sorte que não foi preciso. A Ana Luiza Azevedo decidiu que esse seria o seu longa de estréia na direção, Jorge Furtado, Giba e ela, além do Paulo Halm, criaram o roteiro, Luli e Nora produziram, e voilá, ontem, em pleno Festival de Cinema de Paulínia, aqui do lado de SP, acontecia a estréia do filme. Convidado, lá fui eu, rodovia dos Bandeirantes adentro, com direito a parada no Graal e no Frango Assado, afinal, rituais são rituais.

A primeira surpresa veio da estrutura física do Festival, aqueles prédios e o impressionante teatro que eles fizeram lá.. Fora a fachada, um tanto esquisita, o resto do teatro é belíssimo, e isso quer dizer que a acústica é impecável, a projeção idem, a sala toda, um deleite.

E foi nela que vi e vimos o filme, pela primeiríssima vez.

Estimados leitores. O filme é bom pra caramba.

Eu não gosto de fazer concessões quando o assunto é arte. Acho sim que um mau filme brasileiro pode ser importante para os brasileiros por ser brasileiro, mesmo sendo um mau filme. Mas fazemos bons filmes, e quando eles são bons, além de serem brasileiros, isso quer dizer que vamos poder ver a vida se apresentar diante de nós, na forma narrativa mais poderosa desde o começo do século 20. E que, por ser brasileiro, além de o filme falar da vida, ele vai falar da nossa vida, com a nossa paleta de cores, muito diferente daquela da Europa, Estados Unidos ou China. As pessoas vão ter o nosso jeito e vão ter dor na cacunda, não no lower back. Isso faz diferença, para nós, especialmente. É importante que a gente tenha uma arte feita por nós, nos tendo como referência. E é delicioso quando isso acontece e ainda por cima é bom. Ontem foi.

O meu livro se chama Antes que o Mundo Acabe e ele é complicado. Na história, um garoto adolescente, que vive com a mãe e o padrasto tem os seus problemas de adolescente de hoje em dia. A namorada é uma garota dos novos tempos, com outras prioridades que não o namoro. O melhor amigo é um rapaz um tanto encrencado. E o pai biológico ele nunca conheceu, até agora. No meio de um excesso de coisas tumultuando a sua vida de garoto, o tal pai resolve fazer contato, e o que era duro fica quase impossível. Fazer um filme com esses elementos todos, mais as fotos (o pai biológico por ter sido um mau pai, mas é um excelente fotógrafo, preocupado com o mundo que está acabando enquanto olhamos pra ele) e toda a estrutura narrativa que eu empreguei para evitar que meus leitores entrassem em coma profundo por tédio durante a leitura, não seria nada fácil e foi o que avisei a eles, quando pediram para filmar o livro.

Pois eles foram lá e encontraram belíssimas e cinematográficas soluções, e o que era livro, virou filme, ótimo em si mesmo, um filme por si, muito mais do que a adaptação de um romance.

Atores experientes se misturaram a garotos sem nenhuma experiência prévia e que, muito bem dirigidos, deram mais do que conta do recado - e a menina Carolina Guedes é um assombro, vejam todos.

Muitas pessoas me perguntam se é muito difícil para um autor ver o seu livro transformado pelo olhar e pela ação de um diretor de cinema. Eu garanto a vocês que não, não é nada difícil. Basta o resultado ser bom, ótimo, sensacional, como foi ontem e pronto, fico muito de bem com tudo. O problema é o autor ver o seu texto modificado até não sobrar nem um traço do DNA original, e o resultado ser um desastre. Isso sim, deve ser duro, mas por isso nunca passei, ao contrário. Na minha única outra experiência, um texto que fiz virou um dos curtas-metragens ¿ intitulado O Branco - mais premiados no Brasil e fora dele.

Agora isso! Acho que mais um acerto desses e fico besta em definitivo.

Por hora, preservo a modéstia, garanto a vocês, sendo sincero, que o filme está muito melhor do que o livro, que todos não perdem por esperar. Vem aí um filme ao mesmo tempo simples e muito incomum. Sem frescuras e muito sofisticado na sua narrativa. Surpreendente, sem apelar para surpresas do outro mundo ou bruxarias. Um filme que nos empurra para a frente a cada volta da trama, e nos faz sentir aquela coisa que um filme bom nos faz sentir; aquela sensação de que algo especial está acontecendo diante de nós, de que muitas outras pessoas estão vendo e sentindo o mesmo, uma obra de arte está se desenrolando diante de nós, e essa experiência está sendo compartilhada por muitas outras pessoas, ao nosso redor, ao mesmo tempo. Isso, menos a pipoca, é cinema.

Enquanto o filme não é lançado, aproveito para, de forma totalmente isenta e desinteressada, sugerir a todos que leiam o livro. Ele já está na 12º edição, 70 mil livros vendidos, e é uma prova de que tudo, mas tudo mesmo, que dizem sobre a gente, de que não gostamos de ler, que somente gostamos de facilidades, de que os mais jovens perderam o amor pelas palavras, é pura tolice. Nos dêem um livro que nos interesse e nos toque, que lemos. Nos dêem um filme como esse, que a gente vai e vê.

Ao filme então, assim que for lançado, espero que em breve. Vamos todos ali, no escurinho e diante de um bom telão, celebrar a nossa humanidade do melhor jeito que inventaram, juntos e atentos ao todo e ao detalhe, vamos todos, ver, ouvir, sentir, cinema.


Marcelo Carneiro da Cunha é escritor e jornalista. Escreveu o argumento do curta-metragem "O Branco", premiado em Berlim e outros importantes festivais. Entre outros, publicou o livro de contos "Simples" e o romance "O Nosso Juiz", pela editora Record. Acaba de escrever o romance "Depois do Sexo", que foi publicado em junho pela Record. Dois longas-metragens estão sendo produzidos a partir de seus romances "Insônia" e "Antes que o Mundo Acabe".

Fale com Marcelo Carneiro da Cunha: marceloccunha@terra.com.br

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Não foi nada difícil ver meu livro sendo transformado em filme, diz Marcelo Carneiro

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