Terra Magazine

 

Sábado, 18 de julho de 2009, 07h45

Castro Alves, carnaval e a máquina mercante

Emiliano José
De Salvador (BA)

Está nos jornais que a prefeitura de Salvador vai modificar o carnaval, eliminando o trecho da rua Carlos Gomes e instalando camarotes na praça Castro Alves. Ora, a praça dita do povo era o último reduto do povo pobre e do folião-pipoca no carnaval de Salvador, e vai ser privatizada. Segundo Gerônimo, cantor e rei Momo do carnaval 2009 isso irá "esculhambar mais o carnaval de Salvador".

A praça Castro Alves, cantada em prosa e verso, mote de canções inesquecíveis, agora, na versão da atual administração, deverá ser recuperada para o mercado. Não há planos para que ela ganhe novamente dinamismo e volte a ser do povo, que era o que deveria ser feito. A praça Castro Alves é do povo como o céu é do avião...

Será triste que isso aconteça, que a Praça Castro Alves torne-se cenário apropriado pelos empresários camaroteiros, palco para usufruto exclusivo da elite, que usa e abusa do espaço público nos muitos dias de carnaval. Nesses dias de folia, nos últimos anos, há o desenho de um apartheid no carnaval de Salvador: de um lado, a elite que se deleita nos camarotes ou no espaço recortado pelas cordas dos blocos; de outro, a população negra e pobre, sem espaço, espremida no exíguo espaço que lhe sobra fora das cordas, sem nem calçadas para se movimentar. Todo mundo na praça, manda a gente sem graça pro salão...

Esse cenário de apartheid só é relativamente compensado pela presença dos blocos organizados pelas comunidades negras do centro e da periferia de Salvador, que se notabilizaram pela afirmação étnico-cultural, e política, e por uma impressionante capacidade criativa no plano musical. O ponto alto de manifestação dessas entidades acontece no carnaval e por isso mesmo é impossível ignorá-las. O governo Wagner, no carnaval de 2008, plenamente consciente da importância desses blocos, onde se agrupam milhares de foliões, investiu, aproximadamente R$ 4,5 milhões no chamado carnaval Ouro Negro, que agrupou 117 entidades, incluindo-se, nessa verba, também, outro programa - o de Apoio aos Artistas Independentes. Mete o cotovelo e vai abrindo caminho...

Esse apartheid, no entanto, não pode ser desconhecido ou minimizado. Vamos trabalhar com alguns números para dar uma dimensão do carnaval de Salvador. Em primeiro lugar, desmistifiquemos aquelas milhões de pessoas que participariam diariamente do carnaval de Salvador. Em 2008, segundo dados do Suplemento Carnaval da Pesquisa de Emprego e Desemprego na Região Metropolitana de Salvador (PED/RMS), do governo do Estado, o número de foliões da Região Metropolitana de Salvador presentes na festa foi de 424 mil. Ponto. Destes, vamos à demonstração do apartheid, 60% são foliões-pipoca - os que não podem pagar qualquer bloco para brincar, a patuléia, aqueles que não têm renda ou dispõem de pouquíssima renda. O restante: 12% brincam nos camarotes e 28% nos blocos. Este o desenho do carnaval dos que moram em Salvador e na Região Metropolitana. Pega no meu cabelo pra não se perder e terminar sozinho...

Se quisermos mais uma demonstração do apartheid, nos apeguemos aos gastos de um e de outro - dos que têm dinheiro e dos que têm pouco ou muito pouco, segundo a pesquisa a que nos referimos. Vamos primeiro nos lembrar do seguinte: apenas 5% da população da RMS tinham rendimento per capita acima de R$ 1.890,00 no trimestre dezembro de 2007, janeiro e fevereiro de 2008. Pois bem, essa faixa e acima dela, pôde ter acesso às regalias oferecidas pela iniciativa privada e gastou, em média, R$ 142 por dia, e isso representou um gasto de R$ 93 milhões durante os seis dias da festa. Os do andar de baixo, os foliões-pipoca, estes gastaram R$ 26/dia, representando um gasto de R$ 22 milhões. O tempo passa, mas na raça eu chego lá...

É evidente, como a pesquisa revelou, para continuar com a demonstração do apartheid, que nos blocos e camarotes (excluídos naturalmente os componentes do carnaval Ouro Negro), predominam pessoas brancas com escolaridade elevada. Entre os foliões-pipoca, estão negros com baixa escolaridade. É aqui nesta praça que tudo vai ter de pintar...

Falamos em 424 mil foliões da Região Metropolitana de Salvador. No entanto, devemos esclarecer que o total de envolvidos com a festa, incluídos aqui os que trabalharam, deve ter chegado a aproximadamente 500 mil pessoas. Não se perca de mim...

O surpreendente, no entanto, da pesquisa, a revelação mais estonteante é que quase 2 milhões dos residentes na Região Metropolitana preferiram ficar em casa e outros 400 mil viajar. Estamos falando de uma população de 10 municípios, incluído Salvador, cujo número chega a pouco mais de 3 milhões. Para detalhar, 14% brincaram, 15% viajaram, 4% trabalharam e 66% ficaram no recesso do lar. Em casa. Para uma maioria significativa, portanto, o carnaval é uma festa da tela, midiática, vista da poltrona. Aqui é importante dizer que muitos dos que ficam em casa o fazem porque não tem qualquer renda para enfrentar a folia. Há aqueles, e constituem um número maior dos que brincam, que fogem, que já não encontram no carnaval que se pratica em Salvador um motivo para permanecer na capital baiana. Viajam. E aí chegamos a um número superior a 80% dos que não participam diretamente do carnaval. Não se esqueça de mim...

Tudo isso, em princípio, deveria levar a Prefeitura a pensar caminhos de modernização do carnaval de Salvador, modernização aqui entendida com ampliação da participação tanto do folião-pipoca quanto da maioria que fica em casa ou viaja. Mas ela, em sua sanha privatista parece que está disposta a radicalizar de modo definitivo no sentido da apropriação do espaço público pelo mercado durante o carnaval. Não desapareça...

Pode-se dizer, sem ranço saudosista, que até algum tempo atrás, coisa de 30 anos ou menos, o carnaval de Salvador era uma festa do povo. Todas as pessoas que quisessem, fantasiadas ou não, podiam "brincar, pular, dançar" nas ruas da cidade. Era uma festa impressionantemente democrática, o que não eliminava as distâncias ou diferenças sociais. Foi esse carnaval que encantou pessoas do mundo todo, que transmitiam boca a boca a beleza alegre, pacífica do carnaval baiano. A chuva ta caindo...

Nos últimos 30 anos o setor explorador do divertimento, junto com os prefeitos ligados ao capital, privatizaram o carnaval baiano, possibilitando a apropriação irrestrita do espaço público, através da criação dos enormes trios elétricos ensurdecedores; dos blocos de brancos ocupando as ruas com suas cordas, foliões e cordeiros dando porrada no povo espremido; e dos camarotes de luxo, ocupando as calçadas e praças, com suas pantagruélicas festas privadas. Ao povo só restou assistir ao "seu" carnaval pela televisão, na verdade a um carnaval que não é mais seu. E quando a chuva começa...

Desde o meu mandato de vereador por Salvador, que participo desse debate e da luta para a democratização do carnaval da Bahia. O mundo mudou e o carnaval também, claro. É uma primeira e óbvia constatação. A festa não ficaria imune à evolução do capitalismo brasileiro, às mudanças na própria estrutura econômica de Salvador, às mudanças na produção da cultura. Dito de uma maneira bem ampla, o carnaval está subordinado à lógica da mercadoria, à força avassaladora do mercado em meio às singularidades de nossa vida baiana. Eu acabo de perder a cabeça...

O carnaval baiano transformou-se num vultoso negócio. E é a maior festa urbana do Brasil. Esse novo modelo firmou-se a partir especialmente da década de 90, conferindo às empresas um papel fundamental. O que resta saber é se uma política cultural do Estado, lato senso, que necessariamente deve levar em conta o carnaval como uma das históricas e legítimas manifestações culturais do povo baiano, deve ater-se apenas a essa quase catastrófica constatação. Não saia do meu lado...

Digo catastrófica porque, na minha avaliação, esse modelo, ao privilegiar o negócio, ao fundar-se quase que exclusivamente no valor-de-troca, necessariamente desenvolve uma lógica elitista, que marginaliza a maior parte da população, que se torna expectadora de uma festa.Segure o meu pierrô molhado...

Ainda para prosseguir com o apartheid, cabe lembrar que o racismo no carnaval é antigo. Mesmo após a abolição da escravatura, ele persistiu, e muita vezes de modo radical. Entre 1905-1914 proibiram-se manifestações carnavalescas dos afro-brasileiros. Esse modelo atual - do carnaval-negócio - reproduz o racismo, de maneira às vezes grosseira. Os brancos vão dentro das cordas, protegidos pelos cordeiros negros. Triste tenhamos que usar o termo cordeiros para definir os que são pagos precariamente para proteger os brancos, muito deles turistas que sequer consomem em Salvador. E vamos ladeira abaixo...

Houve avanços recentes. Houve intervenção de autoridades e as condições de trabalho dos que seguram as cordas melhoraram um pouco. Mas, ainda nessa esteira, a maioria da população, que é negra em Salvador, transformou-se de criadora do carnaval em público de um espetáculo. Do carnaval-participação passamos ao carnaval-show, embora, insista-se, ao pipoca reste pouco espaço até mesmo para a fruição da festa teatralizada. Acho...

O que me parece essencial é mudar esse modelo. Encontrar os caminhos para a convivência desse carnaval-negócio com a fundamental participação popular, participação que conferiu ao carnaval de Salvador uma natureza única no Brasil, e que está se perdendo devido à lógica fria do mercado. Até mesmo para o negócio, só para argumentar, é fundamental manter a participação popular, conferir espaços efetivos aos foliões que não podem bancar o dinheiro cobrado pelos blocos empresariais com suas cordas. Que a chuva ajuda a gente se ver...

Quem sabe, não seria possível, e creio que é, fazer muitos carnavais nos bairros, trazer os que não brincam para a brincadeira, ampliar o espaço para o folião-pipoca. Eu fico pensando, quem sabe utopicamente, no dia em que o prefeito anunciar o fim das cordas no carnaval baiano. Que festa, não? As ruas são do povo como o céu é do avião. Isso não eliminaria o mercado, mas implicaria numa redemocratização do carnaval da Bahia. Infelizmente, ao contrário disso, estamos vendo o prefeito de Salvador insistir em ampliar o espaço privado em detrimento do público, como, aliás, tem sido prática ampla de sua administração. Agora, com a Praça Castro Alves.Venha, veja, deixa...

Há uma discussão, entre tantas, que, nesse quadro do carnaval-negócio, se impõe: o papel do poder público no financiamento da festa. Feitas as contas, o dinheiro gasto pelos governos estadual e municipal não é pequeno. Em 2008, o Estado investiu R$ 38,1 milhões, a Prefeitura, R$ 20 milhões, isso para uma festa que movimentou coisa de R$ 700 milhões, considerando-se apenas o carnaval de Salvador. Se incorporamos as muitas micaretas que se realizam por muitas cidades do interior da Bahia, a movimentação deve chegar a coisa de R$ 2 bilhões.Beija, seja...

Se a festa se tornou um território de acumulação privada, com tanta força, é fundamental que se discuta de que modo ela deve ser garantida ou, no mínimo, quais as contrapartidas que o Estado, lato senso, deve exigir para colocar tanto dinheiro. O que Deus quiser...

Penso, assim, que o eixo de toda a discussão deve concentrar-se na democratização da folia, na apropriação do carnaval pelo povo da Bahia, genuíno criador dessa extraordinária manifestação cultural. A gente se embala, se embora...

O que, quem, quais são os tais blocos de carnaval, qual é a lógica do funcionamento neste mercado? Quem domina, quem faz dinheiro, e como? Quem domina o mercado, desde a produção até a mídia, com os pés e mãos na indústria de entretenimento, não são mais que dez indivíduos ou empresas conforme lembrava Bob Fernandes, na matéria Um carnaval de cordeiros, e cujo subtítulo era Como poucos usam Salvador para montar sua festa particular.(CartaCapital, fevereiro de 2002) Nada mais próprio e atual. Isso só se agravou. Se embola, só pára na porta da igreja...

E o poder público municipal, diante desse quadro, desse paroxismo do mercado, deveria procurar intervir no carnaval de Salvador para redemocratizá-lo, para entregar novamente as praças e ruas para o povo da cidade, colocar freios à privatização, diminuir o ímpeto privatista, regular as forças da "festa particular". No entanto, como tudo na atual administração, o caminho é o de reverenciar o bezerro de ouro, o de render-se às forças não tão cegas do mercado. A gente se olha, se beija, se molha de chuva, suor e cerveja.


Emiliano José é jornalista, escritor e deputado federal (PT-BA). Site: www.emilianojose.com.br.

Fale com Emiliano José: dep.emilianojose@camara.gov.br

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Reprodução
O poeta Castro Alves, que dá nome à praça em Salvador

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