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Sábado, 18 de julho de 2009, 07h47

Quadrinhos: Jornada nas Estrelas: O Ano Perdido

Roberto de Sousa Causo
De São Paulo

Star Trek: Ano Quatro (Star Trek: Year Four), texto de David Tischman, arte de Leonard O'Grady, Steve Conley, Gordon Purcell, e Joe & Rob Sharp. São Paulo: Devir livraria, maio de 2009, 152 páginas. Capa de Joe Corroney.

Star Trek, o filme que resenhamos aqui em 23 de maio de 2009, revitalizou a franquia iniciada por Gene Roddenberry em fins de 1966. No Brasil, a Devir saiu na frente lançando as narrativas paralelas à Série Clássica reunidas no livro de quadrinhos Jornada ns Estrelas: Klingons: Herança de Sangue - resenhado aqui em 22 de novembro de 2008.

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Agora a editora paulistana lança este volume curioso, contendo seis histórias em quadrinhos que pretendem fornecer um vislumbre das direções que a Série Clássica poderia ter tomado, se tivesse tido um quarto ano (ela foi cancelada no seu terceiro ano, em 3 de junho de 1969).

"O Coletivo", o primeiro episódio dessa "temporada", apresenta a nave estelar Enterprise às voltas com um conjunto de planetas interligados por estruturas gigantescas - um coletivo. Nesse intrigante big dumb object, como a crítica especializada trata esse tipo de recurso que nos espanta basicamente pelo tamanho, Kirk e companhia encontram o Dr. Othelo Beck, que realiza ali, amparado por uma tecnologia alienígena abandonada, avançados experimentos médicos. Beck é na verdade uma espécie de Dr. Moreau (do romance de Wells, de 1896, A Ilha do Dr. Moreau), e o episódio trai a influência do clássico filme de ficção científica de 1956, Planeta Proibido (Forbidden Planet), com a sua trágica sugestão da falibilidade do idealismo humano.

Já "Primeira Diretriz" leva os tripulantes da Enterprise a um dos temas centrais da série, o contato comercial e estratégico com civilizações tecnologicamente inferiores, neste caso com os habitantes de Aarak 3, um mundo rico no minério crucial para a Frota Estelar, o cristal dilítio. A sociedade de Aarak 3 está dividida entre os que aceitaram a tecnologia da Federação - e que os tirou de uma era glacial - e os que desejam o retorno à organização social anterior. Os oficiais da Frota Estelar lutam para manter a Primeira Diretriz, que afirma a neutralidade, enquanto as duas facções se esforçam para colocá-los no centro de suas disputas.

"Forma de Vida" também revisita o enredo clássico do primeiro contato com uma inteligência não-corpórea, tão típico dessa série de TV que sempre sofreu dificuldades orçamentárias na representação de formas alienígenas de vida. Desta vez, o episódio abre com um gancho e se desenvolve como um flashback, mostrando como, depois do contato com uma colônia em que os habitantes se destruíram mutuamente depois de atingidos por um vírus que leva à paranóia, a tripulação da Enterprise também começa a cair na paranóia total. A inversão do caráter dos tripulantes é outro recurso característico da série.

Falando em típico, não poderia faltar um episódio em que se aproveita algum cenário antigo ou contemporâneo dando sopa nos estúdios. Em "Reality Show", o escritor David Tischman foi particularmente feliz: ao fazerem um contato cultural em um mundo em que os realities shows abundam e mantêm a população subjugada, Kirk e os outros intervêm impetuosamente numa situação, e são cooptados à força para realizarem o seu próprio reality show. É uma comédia que brinca com os clichês da série e tem Kirk, a certa altura, fazendo testes de vaudeville com a tripulação, para produzir o pior programa possível. Mais tarde, Kirk afirma: "Ninguém ameaça a minha nave! Nem mesmo o presidente de uma rede de TV". Tischman embutiu no episódio um comentário inteligente e irônico sobre o próprio cancelamento da Série Clássica.

"Alerta em Gêmini" mostra um super-experimento científico que dá errado e deixa um dos tripulantes ameaçado e a mercê da engenhosidade dos seus colegas da Enterprise. Neste caso, é Spock que está preso em uma estação espacial à deriva, envolta por uma singularidade que reproduz os primeiros momentos da criação do universo. A trama é também oportunidade para explorar a personalidade "excêntrica" de Spock.

Enfim, "Preciosa Mercadoria" faz os homens e mulheres da Enterprise procurarem os sobreviventes de uma outra nave estelar, o USS Pasteur, na superfície de um planeta onde Kirk e companhia encontram Avatar, um enorme "robô feminino". É uma enfermeira de maternidade com os músculos de Shaquille O'Neil - uma nota de ambigüidade sexual que parece posterior à Série Clássica -, lutando, com os costumeiros excessos de programação, para manter a variedade genética de uma raça quase extinta.

As capas das revistas originais, feitas por Joe Corroney com base em fotos da série de TV, são muito boas e aparecem como frontispício de cada episódio. Já os desenhos das histórias em si não são de alta qualidade, e a quadrinização é básica. Mesmo assim Tischman conseguiu fazer muito com pouco - como a própria série costumava fazer. Os personagens são bem rascunhados, coadjuvantes recebem as suas oportunidades, e o fã da série sente que de fato está em contato com um material que poderia ter resultado em episódios de uma quarta temporada. O que importa, em termos do desenho, é ser fiel às fisionomias e aos maquinários, e nisso todos os envolvidos foram tiraram de letra.

Um prato cheio para os trekkers.

Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance A Corrida do Rinoceronte.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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Imagem da HQ Star Trek: Ano Quatro

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