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Sábado, 18 de julho de 2009, 09h51 Atualizada às 21h46

Macaco Simão: censura de Juliana Paes é "medieval"

Arte: Fotos: Daniel Deak (José Simão) e TV Globo (Juliana Paes)/Divulgação
O esculhambador-geral da República, José Simão, está proibido de falar da atriz Juliana Paes, a Maya da novela Caminho das Índias. Atriz se ofendeu ...
O esculhambador-geral da República, José Simão, está proibido de falar da atriz Juliana Paes, a "Maya" da novela "Caminho das Índias". Atriz se ofendeu com piada

Claudio Leal

Nem duas gotas de um colírio alucinógeno ajudariam o humorista José Simão a enxergar os motivos da zanga da atriz Juliana Paes com suas colunas no jornal Folha de S. Paulo. Incomodada com as referências a sua personagem na novela "Caminho das Índias", da Rede Globo, Juliana moveu dois pedidos de indenização, um contra o colunista, outro contra o jornal.

Por decisão do juiz João Paulo Capanema de Souza, do 24º Juizado Especial Cível do Rio de Janeiro, "Macaco" Simão está proibido de se referir a Juliana Paes, misturando-a com a personagem "indiana" Maya, sob pena de desembolsar R$ 10 mil.

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- Eu acho medieval. Mas, sinceramente, processo é o direito de qualquer pessoa (...) Agora, essa medida cautelar é censura. É diferente. Eu tenho o processo, mas tenho essa medida cautelar em cima. Isso é censura - protesta Simão.

O juiz Capanema deferiu "a antecipação dos efeitos da tutela para que o Réu se abstenha de fazer publicar nos meios de comunicação escritos e falados em que atua e vier a atuar (Jornais, revistas, rádio, portais de internet, sites, blogs, twitter, Orkut, etc.), referências feitas sobre a casta e castidade da Atriz e Autora Juliana e sobre seu casamento com uma bananeira, incluída principalmente a referência sobre ela descascar a banana do convidado e, transando com uma bananeira, ser a definição do termo banalidade".

Ele determina que o humorista "se abstenha de se referir diretamente à Atriz Juliana Paes, confundindo-a com sua personagem Maya".

A referência ao ato de "descascar banana", num sentido bem mais dilatado do que tirar literalmente a casca com a mão fechada, se deve a uma coluna de 6 de fevereiro do "esculhambador-geral da República", como Simão se define. Abre travessão:

- Par romântico, Juliana Paes e Márcio Garcia. Amor impossível: Juliana Paes é de uma casta, e Márcio Garcia, de casta inferior. Porque veio da Record. Rarará! (...) E é complicado, tudo por castas. A Juliana Paes é da casta das gostosas. Aliás, a Juliana Paes não é nada casta! A Juliana Paes é da casta das nada castas! E sabe o que um amigo meu vai gritar no casamento com a bananeira? Juliana Paes, quero descascar a minha banana!

Para a atriz, esse jogo casta/castidade repercutiu "sobre a honra e moral da mulher e sua família". Sentiu-se uma preocupação pouco menor em setembro de 2006, numa Feira da Beleza no ExpoCenter Norte, em São Paulo. Juliana Paes compareceu sem calcinha ao evento. Foi surpreendida pelo fotojornalista do Portal Terra, Marcelo Pereira (leia aqui).


Juliana Paes sem calcinha, flagrada pelo
fotojornalista Marcelo Pereira (Terra) em 2006

"Macaco" Simão, da casta dos anarquistas, lamenta o aborrecimento da intérprete de "Maya": "Casta, na minha cabeça, é uma pessoa pudica, séria, carrancuda... O que não é a imagem que ela passa pro Brasil". Um dos tradutores do livro Memórias de um amante desastrado, do humorista americano Groucho Marx, ele complementa:

- É a mesma coisa que a Doris Day processar o Groucho Marx! Essa situação surreal...

Numa de suas boutades, Groucho atacou a "inocência" sexual da atriz e cantora Doris Day no cinema. "Conheci Doris Day quando ela ainda não era virgem", alvejou o nada casto irmão Marx.

Confira o papo com José Simão. Sem tucanês.

Terra Magazine - Você pode falar o nome dela numa entrevista?
José Simão - (gargalhadas) Escrever é dez mil! Falar, acho que é 15.

Então diga "Are Baba!" no lugar do nome.
É! Mas pensar deve ser cinco mil...

Como você avalia a decisão do juiz?
A primeira coisa que eu estranhei é que fiquei sabendo pela coluna do Ancelmo Gois (no jornal "O Globo"). Entendeu? Não recebi nenhuma notificação oficial. A Folha pode ter recebido nesta sexta. Eu não sabia de nada. Essa é a primeira coisa que me causou estranheza. Segundo, o que acho estranho é a Juliana Paes ter se ofendido. Na hora, eu falei assim: "Mas que boba!". Porque minha coluna é carnavalesca, de humor. E o que eu estava escrevendo é que a Juliana Paes era da casta das gostosas, e que, enfim, não era nada casta... Mas eu achei que tava elogiando!

E se dissesse que ela era feia, broaca?
E não é. Ela é considerada a gostosa número 1 do Brasil, e ponto. Se você perguntar: quem é gostosa no Brasil? As pessoas vão dizer: a Juliana Paes. Achei uma bobagem. Como uma pessoa pode se ofender com essa palavra "casta"? Ninguém é mais casto no mundo de hoje. Casta, na minha cabeça, é uma pessoa pudica, séria, carrancuda... O que não é a imagem que ela passa pro Brasil.

Nem de sua coluna na Folha.
Não tem nada a ver com minha coluna. Se alguém me chamar de casto, eu bato! (risos) Falo que ela é da casta das gostosas porque é essa imagem que ela passa pro Brasil. Fez ensaios eróticos, tem aquele comercial da Antárctica dizendo que ela é a boa, que todos os homens ficam babando por ela... Não falei nada além disso. Achei que ela não iria se ofender, achei que iria até gostar.

No país em que todo mundo estava discutindo de quem era a bunda olhada por Obama e Sarkozy, na reunião do G-8, não é uma decisão judicial um pouco hipócrita?
Eu acho medieval. Mas, sinceramente, processo é o direito de qualquer pessoa. Tudo bem, ela se ofendeu, ela tem todo o direito de mover o processo, por mais bobo que seja, por mais tolo que pareça. Agora, essa medida cautelar é censura. É diferente. Eu tenho o processo, mas tenho essa medida cautelar em cima. Isso é censura.

Tem precedente com sua coluna?
Não, tive dois processos anteriores. Pra 20 anos de coluna, processos normais.

De quem?
Do Enéas.

Enéas? (risos)
(gargalhada) Quando eu falo isso, todo mundo dá risada! É uma piada mesmo. Porque eu falei que ele era maluco por defender a bomba atômica. Só eu que falei, né? O resto do Brasil, não, né? Nesse eu ganhei. Depois a Yara Baumgart (socialite), porque eu pus o nome dela numa lista de peruas. Ela se ofendeu, dizendo que não era perua, era empresária. Não sei... Não gostou. Abriu um processo, que eu perdi. A juíza deu razão pra ela, mas, ao mesmo tempo, eles queriam uma indenização muito alta da Folha. A juíza deu uma bobagem, que não dá nem pra comprar uma bolsa. E agora tem esse. O perigo é a medida cautelar, que é uma censura. Porque ela determina quando e o que você vai falar dela.

Contra o humor é ainda mais grave?
Exatamente. E aí vem contra o Casseta & Planeta, Pânico, CQC...

Groucho Marx tem uma frase muito boa: "Conheci Doris Day quando ela ainda não era virgem". Houve processo de Doris Day contra Groucho?
(risos) É a mesma coisa que a Doris Day processar o Groucho Marx! Essa situação surreal... Achei surreal o processo da Juliana. Em última instância - tô criando uma imagem -, escrevo uma coluna, falo dela e vou ter que mandar pra casa dela pra aprovar o texto? Gostou? Posso? Não é por aí. Eu acho essa coisa perigosa.

Isso não é isolado, há mais processos contra opiniões de jornalistas. O Brasil tá mais careta?
Tá uma onda, tá uma onda, tá um movimento perigoso. Já conversei com vários amigos jornalistas. Isso é uma onda que deu. Eles acharam essa brecha, inclusive políticos estão usando isso. Até pode falar de tal político, mas não pode associar a palavra "corrupção" (risos).

Isso já está prejudicando sua coluna?
Não. Pessoalmente, não fui prejudicado, não tem porquê, não tenho mais interesse em falar nela. Tive interesse porque era o começo da novela. Mas eu fico preocupado pela classe jornalística inteira. Eu não tenho mais interesse em falar dela. Mas estou sendo censurado.

O humorista recebe um salvo-conduto do leitor? Por mais que fale coisas sérias, por trás do humor não há esse salvo-conduto?
É claro. Porque o humor é uma forma de amor. Quer dizer, não tenho interesse em falar nela, mas, ao mesmo tempo, sei que fui cerceado.

Agora só vai ser possível falar da mulher de Kaká, pregando a virgindade? A mulher não-casta está proibida?
Pois é! Ninguém é mais casto. Eu vi o vídeo da mulher do Kaká, pregando a virgindade (gargalhadas). O que eu quero dizer é que, na hora em que escrevi, não dei conotação sexual, mas apenas um estilo de vida.

O juiz achou que o termo "poupança" não foi pejorativo. Isso contradiz a decisão final?
Não posso nem comentar. Enquanto houver essa medida, tenho que cumprir, porque é a Justiça. O departamento jurídico da Folha está cuidando desse caso.

Isso atinge sua crônica no rádio?
Sim, sim. Não posso falar dela no rádio, na internet, no Orkut, no Twitter, telepatia, nada! (risos)

Pra uma atriz que faz sua imagem com sensualidade... Teve o episódio de ficar sem calcinha.
É por isso que eu pensei que ela não fosse se ofender jamais! Quando eu falei que ela era da casta das nada castas, era no estilo de vida dela. Não tem conotação sexual. É um estilo de vida que eu admiro. Por isso que me irritou um pouco. Porque eu gosto dela! (gargalhada)

Uma coisa que você achava que era um estilo de vida aberto, se revelou o contrário?
Você tem toda razão. É exatamente isso.

O mundo de celebridades é falsamente liberal? Porque a gente vê todo mundo trocando com todo mundo, a namorada de um tá com outro no final do dia, depois destroca...
Nem eles sabem mais com quem estão namorando! Tem que ligar pra Caras! (risos) "Com quem eu estou namorando hoje mesmo?". Ao mesmo tempo eles querem transparecer que têm uma vida bem caretinha, bem normalzinha, bem bobinha... Isso é a Hollywood tupiniquim, que é diferente da Hollywood-Hollywood, onde os astros e as estrelas aprontam mesmo! (gargalhadas)

O humor teve uma regressão no Brasil? Há pouco espaço para humor nos jornais. Você acabou ficando sozinho...
De jornal, sim. Porque as pessoas não entendem muito. O humor é ambíguo. As pessoas não entendem muito ambiguidade. Só entendem assim: se você não disser que a pessoa é maravilhosa, está ofendendo. Se não for explícito no elogio, é ofensa. Não entende essa ambiguidade. Mas não é muito difícil, não! Sou um dos mais lidos da Folha, um dos mais ouvidos da Band FM, não é tão difícil entender. Há pessoas que não entendem ambiguidade.

No tempo do Barão de Itararé era mais fácil: mandavam prender...
É! As pessoas na Globo vivem um mundo à parte, mais fechado. De repente eles têm um pouco de dificuldade de entender o mundo real.

 

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