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Sábado, 18 de julho de 2009, 07h47

Colóquio "Convite ao Mainstream" - Parte II

Roberto de Sousa Causo
De São Paulo

Conforme prometemos na coluna passada, continuamos o debate em torno da polêmica lançada por Luiz Bras na coluna "Ruído Branco" de Rascunho: O Jornal de Literatura do Brasil. Desta vez, reunimos dois textos mais longos e aprofundados, assinados pelo fã e editor Marcello Simão Branco, e pelo acadêmico Marcos Vilela. A questão aqui é que contribuições a ficção científica poderia trazer, se fosse absorvida pela tendência dominante da literatura brasileira.

Roberto de Sousa Causo

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FCB e mainstream: De Aproximações e Indefinições
Por Marcello Simão Branco

Tenho alguns comentários pontuais sobre este debate. Começo pelo argumento final do Causo, sobre o fandom. Ele diz que não se preocupa enquanto ele existir, mas eu me pergunto de que fandom ele está falando. Tanto eu como ele atuamos nos últimos 25 anos, numa comunidade literária de ficção científica com um forte sentimento de grupo e construção de identidade. Ainda que tenha ocorrido algumas divergências sérias pelo caminho, as atividades regulares (reuniões, prêmios, convenções) e as instituições existentes (clubes e fanzines) garantiram uma história que permitiu forjar uma nova geração de talentos, com escritores, editores e críticos.

Mas justamente no momento em que o gênero vive uma nova efervescência editorial, a articulação e integração deste fandom se enfraqueceu muito - em especial com o advento da Internet, um certo cansaço das antigas lideranças e o surgimento de jovens sem vinculação com este período -, e mesmo a qualidade literária do que se escreve hoje está um pouco esmaecida em comparação com o que se fazia nos anos 90, certamente o melhor período desde os anos 60, do ponto de vista criativo.

Sintomático da decadência do fandom é que não se fala mais em um de "ficção científica", mas de "literatura fantástica". Ainda que possamos nos contentar com esta aparente maior abertura temática para gêneros semelhantes, a ficção científica em si encontra-se em um momento ao mesmo tempo de expansão editorial e de indefinição, tanto pelo lado temático, como pela continuidade da identidade criada a partir do começo dos anos 80.

Já com relação à fraqueza de estilo do gênero, isto não é novidade nem aqui, nem em qualquer parte do mundo, mesmo no centro do gênero, Estados Unidos e Reino Unido. Talvez a ênfase neste aspecto tenha de ser melhor situada, pois ela é mais sensível em nossa realidade, dado o histórico fraco de publicações de autores brasileiros, em qualquer época. No Reino Unido sempre houve uma aproximação maior entre o mainstream e a ficção científica, veja os exemplos maiores de Wells, Huxley e Orwell, e nos Estados Unidos, a partir dos anos 60 houve uma verdadeira revolução em termos de temas e estilos, com forte desenvolvimento de histórias mais humanistas, personagens mais complexos e estilos de narrativa elaborados a par do que se fazia no mainstream, com nomes como Delany, Dick, Ellison, Le Guin e Silverberg entre os maiores destaques.

Comparando a grosso modo, talvez ainda falte para a ficção científica brasileira uma new wave, como a norte-americana. Certamente isso deve passar por um maior diálogo com o mainstream, com mais publicações - uma revista de contos continua essencial -, uma competição maior entre os autores e uma crítica mais honesta e profissional. E embora o caminho tenha se mostrado promissor nos últimos anos, uma solidez nesta direção ainda é incerta. E esta incerteza passa também pela ausência de alguns bons autores dos anos 80 e 90 nesta nova fase. Nomes que deveriam ser "recrutados" novamente como, por exemplo, os de estilo mais hard como Henrique Flory e José dos Santos Fernandes, e líricos e constestadores, como Finisia Fideli e Ivan Carlos Regina, para citar só os que me vem à mente de forma rápida.

Uma maior aproximação com o mainstream, afinal, não seria uma grande novidade para o caso brasileiro, já que autores assim considerados no exterior, como, por exemplo, Kazuo Ishiguro, Cormac McCarthy, Philip Roth e Michael Chabon já possuem nos últimos anos exemplos de obras de ficção científica, digamos, mais literárias e próximas à realidade contemporânea. E o sentido inverso também é fato, com autores do gênero escrevendo histórias que flertam com o mainstream, em especial William Gibson, para ficar no nome mais conhecido. Pois mesmo aqui entre nós, de forma intermitente, existen em termos históricos alguns autores com obras de ficção científica relevantes, talvez o maior deles, o já citado Loyola Brandão.

No fundo creio que deve haver um sentido de identidade e comprometimento dos autores, algo que só os tradicionalmente ligados ao gênero têm, seja lá fora ou aqui. E é por isso que o esforço em melhorar a qualidade deve vir mais no sentido de quem produz regularmente o gênero, do que daquele que o faz de forma extemporânea. E também que este frutífero diálogo procure conservar um equilíbrio para que a ficção científica não perca o que tem de melhor, seu vigor narrativo e sua excelência especulativa em torno de grandes idéias, daquelas que imaginam cenários outros para a experiência e destino humano.

Resta saber onde estará a medida certa entre o mainstream e a ficção científica, para que se possa extrair o melhor entre a forma e o conteúdo, com um ganho geral, e em especial para a ficção científica, para assinalar um tom bem subjetivo, pois é esta a minha perspectiva.

*Marcello Simão Branco acaba de lançar, com Cesar Silva, o Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica 2008 (Tarja Editorial).

Marte no Morro dá Samba
Marcos Vilela

O diálogo e reconhecimento da fluência de linguagens talvez seja um dos entraves para o aproveitamento dessa massa "subalterna" e "escondida" dos escritores e leitores de FC no Brasil. Ao pensar em literatura apenas no sentido etimológico, desprezamos uma série de possibilidades que poderiam resultar em diálogos muito interessantes para a FC brasileira. Quando estava (e continuo...) estudando os textos de "FC" produzidos pelo Humberto de Campos no início do século XX, me deparava com essas discussões: "A FC no Brasil não é legitima, pois não existe uma tradição científica que oriente os enredos, nem leitores suficientes que consigam sustentar essa estética como um gênero literário...".

Confesso que ouvia isso, principalmente em meus "diálogos" com textos teóricos sobre ciência, sociedade e literatura brasileira. Humberto de Campos não orientou sua obra, nem um livro sequer ao gênero de "fantasia científica" (como ele se referia aos textos de Verne e Wells na época), no entanto, produziu pequenos contos e crônicas jornalísticas interessados na idéia de ciência e fantasia. A linguagem jornalística sustentava a forma objetiva e sintética, mas a temática estava muito além da simples descrição de fenômenos e acontecimentos. Certamente os textos de Campos como "Os olhos que comiam carne", "Entre o que foi e o que virá" encontraram leitores, mas não houve uma interlocução por parte da crítica que consolidasse a produção de novos exemplares que afirmassem o gênero.

Faço essa citação para lembrar o texto de Campos (acadêmico e escritor famoso em sua época, absolutamente desconhecido na atualidade), mas também para apontar que dentro do mainstream literário podemos identificar os "desvios" daquilo que antes aparentava ser tão homogêneo e disciplinado (lembro do artigo de Braulio Tavares, "As Origens da FC no Brasil", no D.O. Leitura de 1993, para exemplos como Machado de Assis, Aluísio Azevedo, o próprio Humberto de Campos e outros). Campos provou em tantos outros textos que a literatura está aberta as mais "horrendas deformações".

Porém, o cânone tratou de eliminar os desvios da amostra e acentuou a regra, estabelecendo uma Criatura com vida e comportamento específico: o mainstream. Se o Luiz Bras convocou os bárbaros e o Causo assumiu a vocação de berserker, aqui, me permitam, tomarei as vestes de Victor (aquele sujeito que de sobrenome Frankenstein) e criarei a hipótese do monster mainstream, uma criatura que não é diferente do mainstream, mas não é igual a ele.

Primeiramente, lembro de um texto do Boaventura Sousa Santos (retirado de um contexto de debates sociológicos) que eu interpreto da seguinte forma: é necessário deixar de pensar as dicotomias Norte-Sul (Santos aponta o Norte como hegemônico e o Sul, periférico - podemos pensar no ritmo artístico e debates sobre o cânone-marginal) para pensar as possibilidades do Sul, ou seja, pensar o Sul como se não houvesse Norte, embora estejamos cientes do que o Norte esteja fazendo. Em nosso contexto: é pensar a FC no Brasil como fato comprovado, identificar e incentivar os leitores e grupos de escritores, criar e divulgar uma história do gênero construída de vários ângulos e linguagens, estabelecer uma crítica mais aberta que estimule a leitura e reúna novos leitores.

Ou seja, experimentar um lugar onde a FC circule e toque experimentos artísticos já existentes em diversas linguagens, sem a necessidade de pensar e sempre discutir o marginal lutando contra o canônico. Muitos poderão dizer que esse lugar já é ocupado pelo fandom, mas acredito que ele seja uma espécie de núcleo do que seria o monster mainstream. O monster não apenas reúne as idéias de leitores e escritores, mas está disposto a criar "formalmente" sua história e estabelecer sua crítica. O pressuposto inicial para esta idéia é aceitar o gênero como margem, permitindo que ele se consolide como possibilidade real e autêntica na literatura, discutindo sobre si mesmo através de uma crítica própria e estabelecida diante do cânone como uma criatura profana: o monster mainstream.

Como Luiz Bras identificou, existem diversos interesses temáticos relacionados ao texto de FC (é só olhar o Wikipedia, lembramos). Essas possibilidades reunidas num espaço próprio de criação e difusão podem aumentar os leitores e o alcance dessas obras desprezadas pelo cânone. Quero dizer: se não se pode fazer parte do mainstream que tenhamos um mainstream próprio, não ignorando os diálogos, as encenações, os simulacros eleitos pelo cânone, mas aproveitá-los naquilo que seja mais interessante. Imagino o monster mainstream como um espaço dominante da FC. Um espaço que se encontra fora dos círculos "literários-puros", não obedecendo às normatizações do que são temáticas, imagens e estéticas. Uma "sociedade alternativa", um Outro lugar. A FC brasileira é mainstream, mas não é igual ao mainstream: é um universo paralelo que já foi um "quase-planeta desabitado".

Existe um círculo de leitores e escritores de FC (sob o qual não existe a menor dúvida), mas não é o mesmo espaço que ambos (mainstream e monster mainstream) dispõem. É um fato que a FC não possui a mesma linguagem ou temática (alcance de público, editoras interessadas) de outros textos. Talvez o meio de difusão e distribuição de textos seja o ponto máximo nessa disputa. Neste momento surgem novas hipóteses, por exemplo a Internet que por meio das lan-houses está se espalhando pelas periferias brasileiras (no sentido sociológico). O público da periferia pode se apoderar dos mundos e temas da FC somente conhecidos em outras periferias (no sentido artístico-estético): nos desenhos animados, em publicações comunitárias, fanzines, filmes da "sessão da tarde", contos breves, grafite, etc.

Esses leitores (também marginalizados pela Tradição) não podem gastar dinheiro comprando muitos livros, mas gastam 1 real em 1 hora de conexão com o mundo, por exemplo. Acredito que a Internet (em sua concepção de ligação com vários mundos e culturas) é mais uma possibilidade para o estabelecimentos de novos escritores e leitores de FC brasileira. A biblioteca, Asimov, Bradbury, Clarke, Dick (ou o ABCD identificado pelo Causo) foi negada para a maioria dos leitores brasileiros (e ainda é negada), mas é inegável a lembrança de outras linguagens nas quais a FC foi tema, através de chamadas publicitárias, desenhos animados, músicas, narrativas orais, lendas urbanas, filmes, quadrinhos, música... Várias frentes de ação e estratégias para o berserker.

Não estou advogando a "diminuição ou simplificação" da linguagem (escrita, imagética, qual for) para atender o grande público (e nessa idéia enxergo um preconceito ardiloso). Imagino que o livro (em sua imagem sacrossanta de Tradição e via única para o estabelecimento do mainstream literário) não é a peça principal nessa engrenagem, pois existem outras linguagens e veículos com as quais se podem dialogar, enriquecendo o fazer artístico e multiplicando leitores e interlocutores. Paralelamente, assumir a existência de uma crítica literária de FC (entendendo a crítica como elemento importante no reconhecimento de estéticas) que deve se estabelecer de modo mais veemente, disponibilizada em "redes abertas" de opiniões acadêmicas e não-acadêmicas sem fronteiras ou hierarquizações sobre compreensões de mundo. Em resumo: o monstermainstream é um espaço "formal" de circulação da literatura de FC em contato com outras linguagens periféricas, com uma história e uma crítica atuante.

Acho que estamos diante de uma questão de afirmação e definição de espaços de atuação. A FC precisa se afirmar enquanto não-estética-tradicional cotidianamente marginalizada pelo cânone, embora esteja presente nele (como verificados nos "desvios" logo acima). Ao mesmo tempo, devemos perceber que essa estética marginalizada é visceralmente prestigiada por um grande número de leitores e divulgada por outro número de escritores que perambulam à procura de um espaço. Acredito que a FC deve se voltar para as periferias sociais e internéticas que fervilham de idéias e leitores, voltando a atenção para a criação e incentivo de novos gostos artísticos e leituras. Nesse sentido, a difusão de textos, a escola e a crítica literária de FC seriam objeto de um novo debate.

A nave quando desceu, desceu no morro... no lirismo de Lenine e Braulio Tavares. Desta nave surgiram os super-heróis que em contato com o Morro combatem e conversam com criaturas aterrorizantes, estabelecidas em Tóquio, Recife, Salvador. Invasões registradas nas páginas emblemáticas da Guerra dos Mundos, ou no deboche cinematográfico de Marte Ataca! grafitados nos muros de grandes cidades brasileiras. Diante da visão de uma nave-monstro no morro, o universo literário vai sambar... vai sambar êo... vai sambar.

* Marcos Vilela defendeu em março de 2009 a sua dissertação de mestrado "A Protoficção Científica de Humberto de Campos" na Universidade do Estado da Bahia.

Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance A Corrida do Rinoceronte.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

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