
Francisco Viana
De São Paulo
Na avalanche de denúncias que vem soterrando a biografia do senador José Sarney, em meio aos escombros a que estão sendo reduzidas a imagem e reputação do Senado, falta um triste registro de natureza histórica. O senador simboliza a anti-utopia brasileira. E, mais do que isso, ele é a encarnação viva da corrente liberal de direita que, desse lado do equador, dedicou a vida a assassinar a utopia.
Por utopia, vamos entender o pensamento que se adensa entre os séculos XVI e XIX em torno das críticas às forças de produção, às contradições inerentes ao capitalismo materializada na acumulação desenfreada de riquezas, à coerção do Estado e que, pelas ações práticas e pelo caráter realista foram primordiais para impulsionar o movimento socialista. Na essência, utopias e utopistas simbolizam não a conquista do impossível, mas a evolução da sociedade, a superação dos seus antagonismos. São sinônimos do apelo à ação transformadora.
Pois bem, os liberais de direita dedicaram a vida a banir de cena a utopia. No nascimento da república, há 120 anos, a primeira providência após a queda do império capitaneado por Dom Pedro II, um liberal ao seu estilo (ficou 49 anos no poder, empurrando com a barriga, jogando o jogo da "conciliação" entre liberais e conservadores, fechando os olhos para a escravidão), foi deixar o povo à margem. Em 1937, manobraram com o Golpe do Estado Novo para eliminar a esquerda do processo político. É um período pouco estudado da história brasileira, mas que prima pela tortura e a manipulação em torno de um fantasma que nunca ameaçou, de fato, o Brasil. O comunismo. Antes, a esquerda primou pela falta de habilidade de primar com os liberais clássicos, se é que estes algum dia existiram verdadeiramente no Brasil como corrente expressiva. E, depois, vem o golpe de 1964. Dele Sarney é o último símbolo com presença no cenário político. Dos militares conseguiu separar-se na transição graças ao falso brilho da sua aura de liberal.
Há uma utopia à direita e uma utopia a esquerda. A utopia a direita nasceu com a ascensão da burguesia na Revolução Francesa. Consolidou-se no século XIX com amplo movimento conservador para estigmatizar a utopia como algo impossível, algo que estava para aquela época, no âmbito social, como a heresia se encontrava para a Idade Média. Utópico era aquele que desestabiliza a ordem, aquele que exigia a participação do povo no poder. Já na Revolução Francesa, na sua fase final, quando os jacobinos foram aniquilados e Robespierre morto, a burguesia revolucionária batia em retirada e o povo viu-se, por não ter lideranças nem projeto político, apeado da participação. A igualdade transformou-se numa retórica magnética, mas uma retórica. E o que se conquistou de mudança foi graças a uma esquerda atuante e não afeita a ilusões.
Foi essa cirurgia que a geração de Sarney levou ao extremo. Coube a essa geração restringir os espaços de liberdades públicas ainda mais que os seus antecessores.
O que está acontecendo agora é que com a ampliação dos espaços públicos de liberdade a utopia volta a renascer. A utopia está tendo a sua revanche. Quando o senador culpa a mídia estar manipulando o noticiário, usa o mesmo recurso do passado - o ilusionismo -, só que com nova roupagem. Como não pode mais recorrer ao fantasma do comunismo, há muito exorcizado, culpa a mídia. Mais o que é a liberdade da mídia denunciar senão a liberdade da sociedade? Não existe liberdade de imprensa. Existe a liberdade da sociedade. Não existe uma única sociedade autoritária onde a mídia tenha liberdade. Por tanto quando Sarney lança a culpa a mídia pelos seus problemas - e não consegue apresentar fatos que o inocentem - ele está, na realidade, dizendo que culpa é da sociedade.
Sob a ótica do liberalismo de direita a sociedade é o inimigo. E por que? É a sociedade que percebe , na carne, os efeitos maléficos da dissonância entre o que os liberais prometem e o que eles fazem. O utopismo brota da revolução francesa, na sua vertente social, justamente por força do fracasso do liberalismo. E , pela mesma razão, conquista a Europa nos séculos XIX e XX. O tribunal público que hoje julga Sarney é originário desse mesmo fracasso liberal. O mesmo fracasso que ampliou continuamente as desigualdades no País, sempre posicionando-se contra a modernização social.
O liberalismo de direita não pensa no Estado, não pensa na sociedade. Pensa em interesses de grupos e pessoais. Na família, na política paroquial. Público e privado, privado e público, são para os liberais de direita uma mesma coisa, uma espécie de caixa único para ser usado sem qualquer cerimônia. Para eles, republica e republicanismo são palavras ocas, meros slogans sem ressonância prática. Nas últimas semanas, é o que tem , por exemplo, revelado os jornais. Vejamos algumas manchetes da Folha dos últimos dias:
Eletrobrás beneficiou ONG de filho de Sarney;
Diálogos indicam tráfico de influência de filho de Sarney;
Sarney recorreu ao Senado em defesa de fundação no MA;
Presidente do Senado omite da Justiça Eleitoral posse de imóvel;
Sob pressão, Sarney revê atos secretos...
Cito a Folha, poderia citar qualquer veículo de comunicação. Com a Internet, as notícias tornaram-se ubíquas. Estão por toda parte. Culpa da imprensa, como afirmou Sarney em discurso, ontem, dia 18 no senado?
Não. Trata-se da limalha de um modelo ideológico perverso. O culto ao interesse individual sobre o interesse coletivo é que produziu a crise do senado e das instituições republicanas no Brasil. É um processo cumulativo. Que nasce da democracia sem povo e da atual democracia sem participação intensa da sociedade. Esse é o ponto frágil ( fragilíssimo seria a palavra correta) da vida política brasileira: nossa fundação como república foi feita pelo liberalismo de direita. E sob sua sombra se fez o percurso dos últimos 120 anos. Houve momentos em que a esquerda e o liberalismo clássico se aproximaram, como em 1937 e 1964, mas não deu certo. Hoje, a guinada é rumo ao que há sempre existiu de pobre no processo, os liberais de direita.
É isso que está em jogo no julgamento público de Sarney e não apenas os chamados desvios de conduta - eufemismo bem de acordo com as máscaras que camuflam a realidade - dele ou de quem quer que seja. A esquerda brasileira, que é crassa pela anemia de conhecimento teórico e da nossa própria história, precisa acordar. Rever alianças. Livrar-se da limalha do liberalismo de direita. Costuma-se sempre culpar, e com reta razão, os militares pelos golpes de Estado e quebra dos compromissos constitucionais, mas normalmente esquece-se que os liberais de direita são personagens constantes por trás da ponta das baionetas.
São personagens lúgubres que não podem ficar de fora do banco dos réus. No julgamento do presente e no julgamento da história. O caso do Senador Sarney demonstra, por outro lado, que a história é escrita pela Verdade e pelo Bem. É como a fênix, renasce sempre e revela ao sol o rosto carcomido que os que manipulam a Verdade imaginam poder camuflar por trás da imagem ilusória das aparências.
Fale com Francisco Viana: francisco_viana@terra.com.br
Terra Magazine