
Julio Gomes de Almeida
De São Pulo
A atividade do comércio interno não vem evoluindo em linha com a indústria. Isso ocorre desde o agravamento da crise em setembro do ano passado. O comércio manteve nesse período um ritmo que, diante da gravidade da crise, pode ser considerado satisfatório. O setor vinha de um crescimento intenso. Por exemplo, a taxa com que suas vendas aumentavam em termos reais em 2008 no período anterior à crise chegava a 10,4%. Os problemas da economia não levaram a uma retração em termos absolutos do movimento do varejo, mas seu crescimento desde outubro do ano passado até maio desse ano ficou restrito a um percentual muito menor: 1,1%. Portanto, houve uma forte perda de ritmo do setor, mas não a ponto de gerar uma diminuição de seu nível de atividade, o que teria conseqüências muito mais graves sobre uma variável chave da economia que é o emprego.
Na indústria tudo se passou de forma diferente. Como no comércio, o setor vinha também batendo recordes seguidos de crescimento, com evolução mais baixa do que no comércio, mas, mesmo assim, muito expressiva. Em 2008, no período imediatamente anterior à crise o acréscimo da produção industrial era de 6,4%. A reviravolta na economia mundial castigou duramente a indústria brasileira que desde outubro até maio acumulou uma retração de nada menos do que 14%. Ou seja, o que estamos comparando são desempenhos no período pós-crise diametralmente opostos: de um lado, o comércio que ainda logrou uma pequena majoração de 1,1%; de outro, a indústria com vertiginoso encolhimento que quase chegou a 15%.
Como explicar tamanha diferença de trajetórias? Dois fatores tiveram efeitos relevantes sobre a indústria, sem afetar o comércio varejista brasileiro. Primeiramente, a indústria foi abatida porque as exportações de produtos industriais verdadeiramente desabaram com o colapso dos mercados internacionais. As vendas externas de produtos brasileiros como um todo sofreram com isso, mas a colocação de produtos manufaturados sofreu muito mais do que a de produtos básicos.
Automóveis, aço, motores, calçados, todos eles exemplos de manufaturados em que o Brasil tem competitividade, vem declinando suas exportações nesse ano entre 40% e 60%. Isso explica uma proporção da queda da produção da indústria que uma estimativa recente do BNDES avalia em 50% do total. Retirar impostos que ainda oneram as exportações brasileiras de maior valor agregado e cuidar para que nesse momento de dificuldades dos mercados externos o Real não se valorize - algo que o Banco Central pode assegurar sem maiores dificuldades - são medidas que poderiam suavizar o impacto da queda das exportações na dinâmica do setor.
O segundo fator vem afetando a indústria em uma escala cada vez maior. Como a crise mundial criou uma enorme capacidade excedente de produção a nível global e o mercado interno consumidor brasileiro teve uma relativa preservação por meio das políticas de renda (aumento do salário-mínimo e Bolsa Família) e redução de impostos (automóveis, produtos da linha branca e material de construção), uma parte da produção não vendida ao exterior, especialmente por países asiáticos, vem forçando sua penetração no Brasil.
Nessa investida nem sempre as melhores práticas comerciais são seguidas, como aliás costuma acontecer em processos de conquistas de mercados externos em condições semelhantes às que estamos presenciando. Têm sido comuns o subfaturamento e o "dumping" (preços artificialmente baixos), tendo em vista reduzir impostos e permitir a prática de preços menores para vencer a concorrência. Certos países, como a China, também vêm aumentando a "devolução de impostos" aos seus exportadores e reduzindo impostos de exportação, o que na prática significa ampliar a capacidade de seus produtos ganharem colocação em mercados externos. Isso vem restringindo a possibilidade da indústria nacional se beneficiar da manutenção do nível da atividade comercial interna. Os processos de avaliação e bloqueio de práticas como essas são difíceis em muitos casos e demasiadamente lentos. Maior agilidade e pronta ação de defesa comercial são aqui imprescindíveis.
Em suma, se de um lado a atividade comercial vem sendo mantida como resultado da defesa do mercado interno obtida por intermédio de políticas adequadas e de um esforço por parte das empresas do setor em manter o crédito à clientela e atrair consumidores por meio de promoções, por outro, a indústria apenas parcialmente acompanha esse processo por conta de enormes desvantagens na concorrência com a produção externa. Somente uma política industrial e tecnológica mais forte e medidas de rápida ação para reduzir custos de infra-estrutura, custos tributários, financeiros e previdenciários, poderão reverter esse quadro.
Terra Magazine
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Almeida: Uma política industrial e tecnológica mais forte podem reverter mal desempenho da indústria
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