Terra Magazine

› Terra Magazine › Colunistas › Amílcar Bettega

Quarta, 22 de julho de 2009, 08h08 Atualizada às 09h45

A casa do editor e dos escritores

Amilcar Bettega/Terra Magazine
Chateau de Lavigny, do editor Heinrich Maria Ledig-Rowohlt, respira literatura, conta Amilcar Bettega
Chateau de Lavigny, do editor Heinrich Maria Ledig-Rowohlt, "respira literatura", conta Amilcar Bettega

Amilcar Bettega
De Lavigny (Suiça)

Heinrich Maria Ledig-Rowohlt foi um destes editores quase tão célebres quanto os autores que publicava. E isto que seus autores eram tipos como Hemingway, Faulkner, Svevo, Musil, Nabokov, entre outros.

Dono de um grande carisma, aliando sensibilidade literária e um tino comercial apurado, apaixonado pelos livros e pela arte de bem-viver, acabou congregando em torno de si uma quantidade apreciável de escritores, intelectuais e artistas de todos os gêneros que se tornaram seus amigos e viam nele um par, além do homem de negócios e, muitas vezes, provedor.

A biografia de Ledig-Rowohlt, nascido em Leipzig em 1908, já vale um romance: sua mãe, Maria Ledig, era uma atriz de teatro muito em voga na época e uma espécie de modelo de mulher independente. Não quis se casar e o pequeno Heinrich cresceu sem pai entre artistas e gente do meio teatral. Boa parte de sua infância foi vivida na casa da família de um iluminador do teatro onde a mãe trabalhava. Quando veio a idade dos estudos ele foi parar num internato na periferia de Berlim.

Já mordido pela paixão dos livros, deixou o internato para ser aprendiz de um livreiro berlinense. Em 1930, com 22 anos portanto, e ele próprio dono de uma pequena livraria em Colônia, recebe a visita de Maria Ledig que lhe revela a identidade do pai: Ernst Rowohlt, à epoca já um editor reconhecido na Alemanha. Por intermédio deste pai recém-achado, ele é recebido em Londres por William Foyle, o fundador da célebre livraria Foyles, na Charing Cross Road, onde trabalha durante um ano. Em 1932 volta ao seu país e é admitido como assistente na editora do pai, sem que os laços entre os dois sejam revelados (apenas no iníco dos anos 50 ele vai incorporar o nome do pai). Trabalha essencialmente com os autores americanos. Faulkner é o primeiro que traz para a editora. Henry Miller, Irving Wallace, John Dos Passos e outros vieram depois. Torna-se amigo de vários deles, entre os quais Thomas Wolfe, que acaba criando em um dos seus romances um personagem inspirado em Heinrich Maria.

Vêm os tempos obscuros da guerra e a editora é obrigada a suspender as atividades. Em novembro de 1945 ele está com a família em uma pequena aldeia da Baviera quando descobre que oficiais americanos de passagem por Stuttgart, a uns cem quilômetros dali, poderiam conceder-lhe a autorização necessária para reabrir a editora no território ocupado pelos aliados. Os transportes ainda não funcionam, tudo é precariedade. Mas Heinrich não pensa duas vezes: apanha uma mochila com provisões e alguns livros da editora e vai a pé a Stuttgart. Os americanos o recebem na véspera de partirem e um deles, um oficial amante de literatura e fã de Thomas Wolfe, reconhece em Heinrich Maria Ledig-Rowolht os traços do personagem Franz Heilig, um ferrenho opositor do nazismo criado por Wolfe em You can't go home again. A autorização é assinada na hora.

A matéria-prima, seja no domínio que for, é artigo raro na Europa do pós-guerra. Ledig resolve imprimir seus livros em papel-jornal e em formato de jornal, servindo-se das rotativas usadas pelos jornais. São os "Rowohlt Rotations Romane". É daí a origem do selo Rororo, os livros baratos, de grande tiragem e que trazem a literatura estrangeira de volta à Alemanha após a varredura dos nazistas. Um sucesso fenomenal, que rapidamente faz da editora uma referência na Europa.

Nos anos que seguem a editora persiste na sua linha de abertura para o mundo, bem ao perfil do seu chefe. No fim dos 60, Heinrich Maria Ledig-Rowohlt instala-se com a mulher, Jane Scatcherd, em Lavigny, uma aldeiazinha tranquila da Suíça romanda, não longe de Lausanne e Genève, cujo famoso chafariz mandando água a 140 metros de altura ele enxerga, nos dias de boa visibilidade, desde a janela do seu quarto, no primeiro andar da casa que ele e Jane batizaram de Château de Lavigny.

Exatamente aqui onde escrevo estas linhas. Exatamente neste quarto, de frente para esta janela que oferece uma bela panorâmica do Lac Léman e os Alpes ao fundo. É um desses dias de céu limpo e claro, em pleno verão suíço.

Graças ao desejo de Heinrich Maria Ledig-Rowohlt manifestado ainda em vida e, sobretudo, à decisão de sua mulher de acrescentar de próprio punho no testamento do casal, após a morte do marido, essa determinação de transformar a antiga residência do editor em residência para escritores, a cada verão vários destes escritores, vindos do mundo inteiro, são recebidos no Château de Lavigny para passarem algumas semanas trabalhando em condições que se aproximam das ideais: em um lugar calmo, aprazível, livre das pressões ordinárias do cotidiano e inteiramente donos do seu tempo.

A casa respira literatura. Manuscritos das cartas dos escritores a Ledig-Rowolht, fotos, livros e outros documentos estão por toda parte. Basta algumas horas para percebemos a energia especial que circula por aqui. Desde quando o casal se muda para a casa até 1992, ano da morte de Heinrich, não foram poucos os escritores que por aqui passaram, às vezes por longos períodos.

Como Nabokov, amigo íntimo e "vizinho" de Ledig-Rowohlt (desde 1959 o escritor morava num hotel em Montreux, na outra ponta do lago), que, ao sentir-se cansado da vista que tinha de sua suite no Montreux Palace, mudava-se para o Château de Lavigny para ver o Lac Léman de outro ângulo.

*A maioria dos dados biográficos de Heinrich Maria Ledig-Rowohlt presentes neste texto foram extraídos de uma breve biografia do editor escrita por Michael Kellner e impresso pela Fondation Ledig-Rowohlt

Amilcar Bettega é escritor, autor de O vôo da trapezista, Deixe o quarto como está e Os lados do círculo(livro vencedor do Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira em 2005). Vive em Paris.

Fale com Amilcar Bettega: amilcar.bettega@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

Terra Magazine

 

Exibir mapa ampliado

Tags

O que Amilcar Bettega vê na Web

Favoritos

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol

Argentina Chile Colômbia Equador Estados Unidos México Peru Venezuela