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Quinta, 23 de julho de 2009, 08h08

A Bandeira Inglesa, de Imre Kertész

Vinicius Jatobá
Do Rio de Janeiro


No breve e tenso livro de relatos A Bandeira Inglesa, o húngaro Imre Kertész encena três dolorosas poéticas da reconstrução de tempos perdidos pela voragem irracional da paixão política. São três formas muito distintas de reavaliar a dor, de recobrar pela arte o momento do látigo; retóricas retorcidas diante de momentos críticos em que é essa figura algo abstrata chamada Estado se materializa de punhos cerrados. Cada um dos belos contos - "A Bandeira Inglesa", "O Buscador de Pistas" e "Depoimento" - pode ser entendido como respostas rancorosas à ambicionada esterilidade da ação vertical da violência política no coração do indivíduo acossado: pequenos gritos convulsos no quarto cerrado sitiado pela opressão e pela censura a correr nas ruas. São respostas às distintas "orgias de sofrimento" que a Hungria padeceu tanto sob o nazismo quanto ao quase meio século de regime socialista.

A imagem de uma bandeira organiza toda consciência do narrador do primeiro relato, o melhor do livro, em redor da intenção de proteger seu individualismo diante da incessante massificação da propaganda socialista. A única defesa, diante de uma ditadura, é proteger o espaço privado, e o homem sensível em um momento político crítico torna-se cindido entre o desejo de ter uma vida interior intensa e a impossibilidade de tornar os desejos desse mundo confinado em práticas cotidianas. A leitura passa a ser, segundo o narrador, o alimento dessa batalha à falta de fecundidade do mundo, esvaziado de cor e sentido, construído pela violência diária da política e seu desprezo ao direito de expressão individual. Os outros dois contos enfrentam questões capitais na obra de Kertész - a memória do Holocausto e a frieza da burocracia, por exemplo -; no entanto, são como protonarrativas de suas obras mais ambiciosas que encenam, com intensa violência e verticalidade, esses mesmos conflitos.

A leitura desse pequeno livro não construirá a medida exata do exímio talento de Kertész, nem tornará claras as qualidades que o tornaram Prêmio Nobel recentemente. A Bandeira Inglesa é uma curiosidade dentro da bibliografia de Kertész. É apenas lendo em seqüência Sem Destino, Fiasco e o extraordinário Kadish por uma criança não nascida que fica evidenciado o destacado lugar que ocupa na arte do romance. Junto de Peter Nadas (A Book of Memories, Love e Fire and Knowledge, editados pela Vintage internacional) e de Peter Esterházy (Armonía Celestial e Versíon Corregida, encontráveis em belíssimas edições pela Galáxia Gutemberg), desaforadamente ainda não editados no Brasil, Kertész forma uma tríade sublime de grafias da dor que devassa as relações entre trauma e rememoração em todas suas diversas complexidades, penetrando a subjetividade das zonas sinistras e obscuras criadas e alimentadas pelo poder totalitário.

Vinicius Jatobá é jornalista cultural e mestre em Estudos de Literatura pela PUC-Rio. Colaborou em vários suplementos e revistas, e atualmente escreve sobre livros em jornais.

Fale com Vinicius Jatobá: vinicius_jatoba@terra.com.br

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