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Quinta, 23 de julho de 2009, 08h08

Morfema

Sírio Possenti
De Campinas (SP)

Na coluna passada, comentei a confissão de Cony. Dizia ele que nunca ouvira falar de morfema, e que acabou sabendo do que se trata em conversa com Evanildo Bechara.

Pensei comigo: talvez seja o caso de comentar o conceito. Começo como Cony: vou a um dicionário, o Houaiss. Antes, uma retificação: disse na coluna passada que considerava suspeita a definição de Houaiss. Mas não é verdade: ela é ótima. Na verdade, Cony citara a do Aurélio, que é bem ruim, pouco clara, talvez errada. A do Houaiss é corretíssima, e eu a transcrevo:

(Morfema é) a menor unidade lingüística que possui significado, abarcando raízes e afixos, formas livres (p.ex.: mar) e formas presas (p.ex.: sapat-, -o-, -s) e vocábulos gramaticais (preposições, conjunções) Para o estruturalismo norte-americano, pode ter ainda outras manifestações, como a ordem das palavras na frase, indicando as funções sintáticas dos constituintes, ou a entonação sozinha, que pode mudar o sentido de um enunciado: Você vai. Você vai?

A definição mais resumida é "menor unidade significativa", ou seja, uma unidade "material" com sentido. Por exemplo, um radical (com-, de comer, sapat- de sapato) é um morfema; um prefixo (in-, des-, re-) é um morfema; um sufixo (-eiro, -mente, -ão) é um morfema. Também são morfemas "desinências" (-s final de estás) e flexões (-s final de sapatos). Claro, também são morfemas palavras como "mas", "também", "menos" etc. De tudo isso a definição dá conta. Ou seja, Cony deve ter entendido logo que Bechara desvelou o segredo.

Mesmo assim, vale a pena esticar a conversa. Sei, por experiência, que alunos reagem bem quando se explicitam fatos que, no fundo, são banais - mas que a escola tratou um pouco confusamente. Por exemplo, que o que parece ser uma unidade pode não ser ou pode ser mais de uma. Por exemplo, "s" é apenas um fonema em palavras (ou "contextos") como sapato, sala, salame, assado, nascido, vamos etc., mas é um morfema de um certo tipo em estás, comes, lavas (significa segunda pessoa do singular) e é morfema completamente diferente em sapatos, meias, mesas, livros (significa mais de um). Mais: em desfazer, dês é um morfema, um prefixo, que significa "voltar ao estágio anterior" (!!)), mas em desmanchar, dês não é um prefixo (desfazer não está para fazer assim como desmanchar está para manchar).

Os alunos mais sacadores logo descobrem porque Saussure, por exemplo, disse que uma língua é um sistema em que não importa a substância, mas apenas a forma. Isto é, não importa o que "é" um "s", mas em quais relações ele entra no sistema da língua: se no final de uma forma verbal ou nominal específica, oposta a outras formas verbais (estás / está, estamos, estão) ou a outras formas nominais (sapatos / sapato / sapateiro). Em cada caso, está em um paradigma diferente, num subsistema diverso. A dupla sapato / sapatos, aliás, fornece um bom exemplo de morfema ZERO, isto é, do FATO lingüístico de que um sentido (o de singular) não é marcado (em português). Ou seja, nós sabemos que um nome está no singular (isto é, que se refere a uma unidade) apenas porque ela não tem marca de plural. Ou seja, que a marca de singular é ZERO, que o singular não é marcado em português.

Evidentemente, para quem gosta de estudar, os casos mais interessantes não são os evidentes, ou os tornados evidentes. Os melhores são aqueles que obrigam a teoria a ranger, ou aqueles cuja explicação põe a teoria (ou alguns fatos que pareciam claros) em questão.

Por exemplo: "demais" é uma palavra (um morfema) ou são dois (de + mais)? Estamos acostumados a escrever "tudo junto",o que pode fazer com que pensemos que se trata de uma palavra (simples). Mas, se olharmos de perto seu funcionamento em termos de ordem dos advérbios de intensidade, surge um problema. Vejamos. Advérbios de intensidade têm uma ordem mais ou menos fixa. Vêm antes de adjetivos (muito bom. *bom muito), antes de advérbios (muito bem, *bem muito) e depois de verbos (come muito, *muito come).

Mas as locuções que têm o mesmo valor sempre vêm depois da palavra a que "modificam": é bom pra burro (*pra burro bom), joga bem pra burro (*joga pra burro bem), come pra burro (*pra burro come).

Ora, demais se comporta como as locuções: bom demais (*demais bom), bem demais (*demais bem), come demais (*demais come). Se tudo o mais for igual, demais deveria ser uma locução... Ou seja, duas palavras. Veja o que dizem os dicionários... E tente ver como se comporta paca e qual é sua derivação...


Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso e Questões para analistas de discurso.

Fale com Sírio Possenti: siriopossenti@terra.com.br

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Alunos reagem bem quando se explicitam fatos ,no fundo banais, mas que a escola tratou confusamente, diz Possenti

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