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Sexta, 24 de julho de 2009, 08h29

Literatura*

Tony Monti
De São Paulo

Foi no tapete vermelho da sala de casa que aprendi a ler e escrever. A princípio, só em letras de forma, ensinado pela paciência do meu pai. O que ele diz é que não aguentava mais me ouvir perguntando "o que está escrito ali?". Disse que tomou alguns sustos quando me viu dizendo que ali estava escrito coca-cola e mais ali estava escrito kibon. Eu tinha decorado, claro, mas já intuía a ideia de associar uma vontade a um símbolo. Meu pai me ensinou.

Quando entrei na escola, já lia bem. A primeira lembrança, no entanto, que liga a leitura de um livro a uma vivência sentida é de um livrinho que me pediram que lesse na primeira série. Eu deitei no sofá, ao lado do tapete vermelho. Ler um livro consistia em abrir a primeira página, ler, e chegar à última. Meus pais viam televisão e eu lia. Nessa época, me concentrava em qualquer lugar. Lia e vivia o livro do mesmo jeito que brincava com os carrinhos e os joguinhos de futebol no meu tapete vermelho, e que assistia tevê deitado de bruços apoiando o queixo com as mãos. Cheguei a ter um hematoma no queixo depois de horas seguidas em frente à televisão. Literatura não dá hematomas, há que se mudar as páginas.

O livro que li no sofá chamava-se Marcos Robô - a história de um menino que tinha um robô que fazia tudo. Botão cinco ajuda no dever de matemática, botão dez comenta a programação da televisão. Mas havia um botão não etiquetado que aparecia como um enigma em quase todas as páginas do livro. Nas últimas páginas, o menino não resistiu, assim como eu não resisto a botões sem etiqueta, botões parecidos com botões muito interessantes e já etiquetados. Botão apertado, o robô desaparece. Chorei. Autodestruição. Não choro fácil com livro. Choro em cinema. Marcos Robô foi meu primeiro contato com essa literatura triste, angustiada, de mortes inevitáveis.

*Este conto é parte integrante do livro "o menino da rosa", publicado pela editora Hedra em 2007

Tony Monti é escritor, autor de eXato acidente (Hedra), o menino da rosa (Hedra) e O mentiroso (7Letras).


Fale com Tony Monti: tony.monti@terra.com.br

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