
Vera Gonçalves de Araújo
De Roma
A tentação é de ficar batendo papo a respeito do Mundial de natação, nas piscinas mussolinianas do Foro Italico, em Roma, para refrescar um pouco. Mas a leitura do New York Times de anteontem, quarta-feira 22, impõe outro assunto.
O artigo de Rachel Donadio fala da tentativa do presidente do conselho italiano, Silvio Berlusconi, de esclarecer as polêmicas sobre a sua vida sexual com uma declaração: "não sou um santo". Mas não foi isso que me afastou da natação sincronizada e dos trampolins e plataformas do Mundial. Foi a frase: "Berlusconi, que governa praticamente sem oposição, disse que os seus adversários esquerdistas o atacam por sua vida particular porque não têm bases politicas para atacar".
Praticamente sem oposição. Com o proverbial dom da síntese dos repórteres americanos, a Rachel resumiu a situação do principal partido da esquerda italiana, o Partido Democrata. Em 11 de outubro vai começar o primeiro congresso do partido - que nasceu em outubro de 2007 e que corre o risco de morrer dois anos mais tarde. O casamento entre os ex-comunistas e os ex-democratas cristãos de esquerda, que resultou no PD, não deu certo. A explicação mais original para esse fracasso foi a da humorista Sabina Guzzanti, no seu blog:
- A questão é essa: o último partido de esquerda desse país corre o perigo de desaparecer, de se dividir e depois desaparecer. Se fundiram com os católicos da Margherita como o Jeff Goldblum se fundiu com a mosca no filme do Cronenberg, com o mesmo processo: um teste feito depressa demais, com pouco cuidado, uma estranha sensação de euforia na primeira fase, de força super-humana, mas depois o corpo começa a se despedaçar. Primeiro caem as unhas e as mãos expelem um líquido pegajoso.
Parece incrível, mas um dos países mais politizados do mundo atualmente não tem oposição. Não é todo mundo berlusconiano, não. Pelo menos 65 por cento do país não é, mas não consegue superar a fase do resmungo.
O novo secretario do PD será escolhido duas semanas depois do congresso, com eleições primárias abertas a todos os eleitores do partido. Os candidatos são três: o economista ex-comunista Pierluigi Bersani, o ex-democrata cristão (e atual secretário) Dario Franceschini, e o médico Ignazio Marino, 54 anos, que pode ser a surpresa do páreo.
Assisti ontem à apresentação do programa do Marino, e - comparando suas palavras com as dos outros dois, que são politicos profissionais - achei que, quem sabe, de repente, por engano, ele consegue dar uma revirada na lagoa lamacenta do PD. O programa que apresentou numa tarde suada de Milão, diante de uma platéia com poucos vips e muitos internautas, se resume em seis pontos (e já esta síntese parece milagrosa):
1. uma nova lei eleitoral,
2. direito de cidadania para quem nasce na Itália
3. contrato único de trabalho, salário mínimo e garantia de renda mínima
4. um plano energético sustentável
5. lei sobre as uniões civis seguindo o modelo do "Civil Partnership Act" inglês
6. um plano extraordinário para relançar escola, formação e pesquisa como motores da inovação.
Ignazio Marino é um personagem pouco comum na política italiana. É considerado um dos cobras mundiais do transplante de fígado, estudou e trabalhou nos Estados Unidos, foi eleito senador pelos Democráticos de Esquerda, em 2006, e entrou no PD, onde foi um dos protagonistas da batalha parlamentar em favor do testamento biológico. Católico com uma visão extremamente laica da política, seria o pior líder da oposição para o Vaticano e para Berlusconi.
Por alguns minutos, enquanto Marino fala com sua voz sem sotaque genovês, meio monótona, acredito que alguma coisa possa mudar nesse país. Depois me lembro do Vaticano e do Berlusconi, e acho que esse congresso vai acabar mais uma vez com a filosofia do "mudar tudo para não mudar nada".
Fale com Vera G. de Araújo: veragdearaujo@terra.com.br
Terra Magazine
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Ignazio Marino: médico, ele pode dar uma "revirada na lagoa lamacenta" do PD italiano
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