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Reprodução
Carneiro "vai que os bichos também adoram o Caminho das Índias?"
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Marcelo Carneiro da Cunha
De São Paulo
Estimados e resfriados leitores da coluna. Espero que vocês estejam em melhor estado físico do que o meu, vítima de um ar polar que subiu aqui até minha luxuosa laje de Pinheiros e transformou o meu pulmão em geléia de fruta não identificada.
E isso que eu me vacino, desde uma viagem que fiz com uma moça até a Argentina anos atrás, na qual eu consegui ficar gripado durante o voo, o que, digamos, deixou a viagem bem mais expectorada do que romântica.
Adianta nada. A gente prepara a casa contra temporais e toda uma família de vírus que acaba de sair do forno genético, vem uma mutação e arrebenta com a nossa disposição para os esportes de inverno (aqui, na Mansão Carneiro da Cunha, eles são os já famosos arremesso de vinho merlot, corrida de revezamento na direção do controle remoto, esgrima com garfinho de fondue, formas de bolo assimétricas, e - firme na preferência do público, um tipo de luta greco-romana que os mais maldosos até acham parecido com sexo).
E, disse a médica que me ascultou todo hoje, gripe pra valer é sempre a próxima. A tal suína, segundo a doutora, não mata mais do que as outras, mas derruba. "Algo parecido com a dengue", disse a médica, com um certo tom de desprezo. Wait! Lá em casa, dengue ainda está listada, como a literatura do Paulo Coelho e show do Roberto Carlos, na categoria "Horror"! Dengue rima com febre amarela, beri beri, malária! Desde quando dengue é coisa normal?
A pessoa doer mais do que a minha cervical durante a criação de mais um romance, tremer, ter febre, ficar com a visão parecendo a tevê da minha avó com aquele bombril na antena - isso pode ser considerado normal? Nunca. Só porque todo mundo tem, quase ninguém morre e vem de novo a cada ano, tipo a Libertadores, isso não torna uma gripe algo normal. Torna simplesmente algo comum. E, quando eu paro pra pensar, quantas coisas comuns nos produzem tanto sofrimento inútil, além de um bom pé na bunda proporcionado pela namorada - como a gripe do momento - mais recente e intensa?
O livro a ler se chama "Armas, Germes e Aço", do ótimo Jared Diamond, que mereceu um Pulitzer, algo quase tão importante quanto o Grande Prêmio Carneiro da Cunha de Não-Ficção, que o livro, por coincidência, também levou.
Ali está tudo explicado, direitinho e claro. Gente reunida, cidades, agricultura (que sustentou um monte de gente reunida em torno de uma cidade) e animais domésticos de algum porte. Dessa receita, sabem o que surgia (e segue surgindo)? Vírus. Eles começavam, como seguem começando, pelos animais, mutando sabe-se lá porque, além do fato de essa parece ser a função numero uno dos vírus - além de fazer a gente tossir e ver dobrado - e atacando os humanos.
Sabem o que esse sistema produzia? Humanos resistentes. Assim, no vasto continente formado pela Europa+ Ásia, onde havia agricultura, cidades, animais domesticados e frio, surgiram as gripes. E eles tossiram, mas venceram, mesmo depois de pestes como a chamada Negra, na verdade bubônica, que eliminou algo como 30% de todos os europeus vivos antes dela, no terrível século 14.
E se tornaram resistentes a vírus mortais para os demais seres humanos. Cada europeu que chegou até a América era uma bomba bacteriológica, minha gente. Canhões, espadas, lanças, produtos de aço foram apenas acessórios na hora de acabar com a resistência inútil dos povos que por aqui andavam. Não havia como enfrentar essa guerra microbiológica, quando nem se tinha inventado a biologia.
Leiam. Como no caso de outros grandes livros, tudo, mas tudo mesmo, faz sentido. E se quiserem ficar realmente preocupados com o futuro, leiam o outro livro dele, Colapso. Mas aí não digam que eu recomendei. Eu avisei, é diferente.
Hoje temos biologia, temos cafiaspirina, seguimos tendo os curandeiros de sempre, na forma das chamadas medicinas alternativas, que certamente são alternativas, apenas péssimas. Temos medicina avançada e vacinas pra pior doença> de ontem, mas parece que os vírus sempre acham um jeito de provocar a gente, como aquele sujeito baixinho e invocado sempre a fim de nos chamar pra briga.
Tomando-se em conta que os vírus sempre são mutagênicos e sempre vindos dos animais que afinal nós criamos, quem sabe, e essa fica como a proposta dessa coluna, a gente não propõe uma negociação? Tipo, vocês seguem presos e virando comida pra gente, mas ganham tevê na cela? Isso pode ser pouco, mas vai que os bichos também adoram o Caminho das Índias? Nunca se sabe. Se uma novela absurda como essa mantém milhões de humanos diante da tela, quem sabe isso não aquieta os suínos, caprinos e eqüinos?
Um grande acordo onde a gente oferece algo que eles nem sabem que desejam e eles param de tentar querer matar a todos nós. Um acordo que faça eles não se darem conta de que esse (acabar com a gente) é um grande negócio, o melhor de todos.Um acordo rápido, bem rápido, antes que esses experimentos todos que deixam os chipanzés letrados dêem a eles uma melhor compreensão das regras do jogo. Algo urgente, antes que os porcos leiam A Revolução dos Bichos, em vez de simplesmente comer o livro, como fazem ainda, dizem.
Humanos, tossintes, uni-vos em torno dessa proposta. Pensem nisso antes que um pequeno mamífero em algum lugar remoto invente um vírus que começa por diluir o nosso cérebro, antes de atingir áreas realmente importantes do corpo. Façamos algo enquanto ainda há tempo e temos alguma capacidade de convencimento.
Daqui a pouquinho pode ser, simplesmente, tarde de mais. Afinal, o mundo é só um, e sempre há, sempre houve, um montão de organismos interessados nele. Até agora, o que tivemos, foi ela, a boa e velha sorte, a que nos salvou dos dinossauros, mas pode se virar casaca a qualquer instante, por um ou outro motivo, num estalar de dedos, assim!
Terra Magazine