
Atualizada às 08h57 Deolinda Vilhena
De Santos (SP)

O elenco da Valsa Nº 6
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Minha vida é andar por esse país / Pra ver se um dia descanso feliz / Guardando as recordações / Das terras onde passei/ Andando pelos sertões / E dos amigos que lá deixei...
Os versos de Luíz Gonzaga - já lá se vão 20 anos da morte do Rei do Baião - fazem parte da minha história desde que fiz a opção pelo mambembe ora como produtora, ora como assessora de imprensa, ora como administradora, ora como secretária teatral, ou simplesmente "babá de artista" como fazia questão de me lembrar meu pai, o Cacique Tembé mais abusado que conheço.
Nesse momento vivo outro tipo de turnê. Comecei julho em Feira de Santana, graças a um convite do Departamento de Letras e Artes, da Universidade Estadual de Feira de Santana, através do setor de Língua Francesa, para que apresentasse uma palestra sobre o modelo de produção de teatro na França com um capítulo especial dedicado a mítica companhia de Ariane Mnouchkine, no âmbito da Semana da França. Foi uma das mais belas experiências da minha vida, conhecer a porta de entrada do sertão da Bahia e falar para um público que desconhecia a existência dessa companhia, e ao sair deixar 120 pessoas apaixonadas pelo trabalho de Mnouchkine. Soube que no dia seguinte eles assistiram ao documentário Un Soleil à Kaboul...ou plutôt deux consagrado à viagem do Théâtre du Soleil ao Afeganistão numa missão de arte e muitos tinham os olhos rasos d'água. Chamo a isso de missão cumprida.

Fátima Mendonça, Primeira dama da Bahia e essa colunista
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Passei uns dias em Salvador, a tempo de festejar no chiquérrimo Porto Gourmet de Izabel e Laurent Canovas, os 220 Anos da Queda da Bastilha. Um 14 de julho comemorado como comme il faut pelo Cônsul honorário da França, Pierre Sabaté e por Iréne Kirsch, Adida cultural da França nas terras de São Salvador. Tive até direito a foto com a primeira dama da Bahia, Fátima Mendonça. Juro que se tivesse eleição para Primeira Dama eu não só votaria nela como faria campanha nacional... Fátima Mendonça, além de bela, é dona de uma mistura de charme, alegria e simpatia em doses inimagináveis, capaz de transformar velório em festa de aniversário. Tive tempo também para jantar - made in France - com Cristina Castro e Márcio Meirelles, duas pessoas que cada vez ocupam mais espaço na minha vida e no meu coração.
Aliás e inclusive, mesmo se aqui falamos de teatro, quero registrar que um dos projetos mais sérios da SECULT da Bahia, na gestão do Márcio Meirelles, é o NEOJIBÁ - Núcleo Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia. A Orquestra Sinfônica Juvenil 2 de Julho (J2J), primeiro grupo formado pelo projeto realizará em agosto - de 3 a 14 - uma turnê por sete capitais do Nordeste, sob a regência do pianista Ricardo Castro, coordenador do projeto. Com um repertório inteiramente dedicado à música de concerto, os 80 integrantes da orquestra vão se apresentar em Aracaju, Maceió, Recife, João Pessoa, Natal, Fortaleza e, no encerramento, Salvador, com um concerto de gala no TCA. Graças ao apoio da Secretaria de Cultura, da Fundação Cultural do Estado, do Teatro Castro Alves e do patrocínio do Bradesco, os ingressos para as apresentações custam R$ 1,00. Não sei se eles trabalham com a Lei Rouanet mas isso sim é dinheiro público bem investido. Chapeau Márcio, chapeau Ricardo...
Agora, escrevo essa coluna em Santos, que deveria ser meu porto seguro, mas já estou a caminho de Belo Horizonte onde - honradíssima pelo convite de meu amigo e mestre Armindo Bião - apresentarei uma palestra intitulada Ariane Mnouchkine e o Théâtre du Soleil: notas de uma trajetória entre palco e tela.
Antes farei escala em Sampa, para assistir ao segundo espetáculo da Trupe Sinhá Zózima do qual falaremos mais abaixo, e no Rio de Janeiro para matar as saudades da minha Bi - Bibi Ferreira para vocês - e do repertório da Piaf, aliás, como previ aqui há um mês, a temporada dela no Maison de France teve ingressos esgotados o que gerou novo convite e Bibi entrará 2010 cantando e contando Piaf no Maison. Bravo!

Sinhá Zózima, entre nesse ônibus
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Apesar do gentil convite enviado para a estreia de Valsa nº 6 no dia 3 de julho, e da imensa vontade de reencontrar a Trupe Sinhá Zózima depois da magnífica experiência do Cordel do Amor sem fim, só no próximo final de semana vou poder conferir o monólogo de Nelson Rodrigues, escolha da Trupe para segundo trabalho e continuidade de sua pesquisa teatral no espaço do ônibus urbano.
Se no espetáculo anterior o ônibus se transformava na casa das três irmãs e dava suporte a poética cênica e ao contraste entre a metrópole e o universo sertanejo, em Valsa nº. 6 este mesmo ônibus, diz o material distribuído à imprensa, é a mente conturbada de Sônia, interpretada pelos atores da Trupe.
A pesquisa não se restringe somente ao espaço cênico, o próprio monólogo é apresentado de maneira desconstruída e fragmentada apresentando ao público a personagem condutora do monólogo pelo olhar de cinco intérpretes da Trupe que convida seus passageiros para uma deliciosa e ensandecida viagem na leitura contemporânea de Valsa nº 6.
Para quem ainda não teve a felicidade de embarcar no "busão" da Trupe Sinhá Zózima e desconhecem o instrumento que essa trupe toca, lembro que eles formam um grupo de atores que pesquisa o espaço do ônibus urbano enquanto forma de expressão teatral.
Oriundos do curso de Habilitação Profissional de Técnico em Ator (HPTA) da Fundação das Artes de São Caetano do Sul (FASCS), eles fizeram da escola o ponto de partida para a formação da Trupe em dezembro de 2006, logo após a formatura.
O foco da pesquisa do grupo é a apropriação deste espaço e a relação que se estabelece com o público dentro e fora do ônibus. Um símbolo forte e popular de qualquer cidade - o ônibus urbano, também é o meio pelo qual a Trupe entende ser possível popularizar o teatro. Eles acreditam que os espectadores da trupe são na realidade um público passageiro, que é envolvido nesta viagem das mais diversas maneiras; existe um vagar entre interpretação, atuação e representação complementada de uma abordagem sensorial muito intensa.
A estreia de Valsa nº. 6 reafirma a continuidade desta pesquisa além de propor novas descobertas e questionamentos tais como: "é possível fazer qualquer texto dentro do ônibus?", "existe uma limitação de linguagem teatral?". Na esperança de responder estas e outras tantas perguntas a Trupe aposta encontrar essas respostas junto ao seu público em deliciosas viagens mundo afora. Vale conferir!
Serviço Valsa nº 6
Texto: Nelson Rodrigues
Produção e realização: Trupe Sinhá Zózima
Direção: Anderson Mauricio
Elenco: Anderson Mauricio, Leonardo Cônego, Priscila Reis, Tatiane Lustoza e Vanessa Cabral
Temporada: de 03 de Julho a 02 de Agosto - de sexta a domingo, sempre às 21h.
Saídas: Na frente da Unidade Provisória do SESC Avenida Paulista.
Ingressos: R$ 20,00 (inteira), R$ 10,00 (usuário matriculado no SESC e dependentes, acima de 60 anos, estudantes e professores da rede pública de ensino), R$ 5,00 (trabalhador no comércio de bens e serviços matriculado no SESC e dependentes)
Duração: 60 minutos
Capacidade: 32 passageiros
Desaconselhável para menores de 14 anos
Maiores informações: www.sinhazozima.com

Jean-Marie Pradier e Armindo Bião: os pais da etnocenologia
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Entre 2 e 5 de agosto Belo Horizonte acolhe o VI Colóquio Internacional de Etnocenologia intitulado A voz do corpo, o corpo da voz: artes e ciências do espetáculo, realizado pela Escola de Belas Artes e pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerias, em parceria com os Programas de Pós Graduação em Letras: Estudos Literários, Programa de Pós-Graduação em Artes, Núcleo Transdisciplinar de Pesquisa em Artes Cênicas da Federal de Minas Gerais e o Grupo Interdisciplinar de Pesquisa e Extensão em Contemporaneidade, Imaginário e Teatralidade da Federal da Bahia.
A etnocenologia surge no final do século XX, tomando como modelo a etnomusicologia. A iniciativa coube a um grupo de pesquisadores (Jean Duvignaud, Jean-Marie Pradier e André Marcel D'Ans) e de gestores da cultura (Chérif Khaznadar e Françoise Gründ), na França, com a participação de colegas de muitos outros países, entre os quais, o Brasil.
Essa nova etnociência, dedicada às artes do espetáculo e aos comportamentos e práticas espetaculares humanos organizados, em 1995, foi motivo de um primeiro colóquio internacional, na sede da UNESCO e na Maison des Cultures du Monde, em Paris, França. Após dois outros colóquios internacionais, realizados com periodicidade anual, um em Cuernavaca, Morelos, México, em 1996, e outro em Salvador, Bahia, Brasil, em 1997, a etnocenologia motivou publicações, especialmente no Brasil e na França, e seminários, também principalmente nesses dois países, nas universidades de Paris VIII, em Saint Denis, e Federal da Bahia, em Salvador. Desse modo, essas instituições se transformaram em seus principais centros de pesquisa. Após sete anos de interrupção da realização regular de colóquios internacionais, em 2005, teve início nova série de colóquios internacionais, agora com a periodicidade bienal e a ampliação da participação de outros grupos de pesquisa e universidades, sobretudo franceses e brasileiros.
A realização do VI Colóquio Internacional de Etnocenologia, no contexto do Ano da França no Brasil, em 2009, retoma a nova série de eventos acadêmicos internacionais bienais, iniciada no contexto do Ano do Brasil na França, em 2005, quando se realizou o IV Colóquio. Por outro lado, esse fato reafirma a importância do diálogo França/ Brasil, bem como a tradição intelectual francesa no campo do interesse pela diversidade humana e pelas artes o espetáculo e a mais recente qualidade brasileira nesse mesmo âmbito, que tem, no Brasil, um de seus mais importantes laboratórios.
Com Coordenação geral assinada por Armindo Bião (UFBA), Fernando Mencarelli e Leda Martins (UFMG) e Comissão científica composta por Armindo Bião, Fernando Mencarelli, Idelette Muzart-Fonseca dos Santos (Université de Paris Ouest Nanterre La Défense - Paris X), Jean-Marie Pradier (Université de Paris Nord Villetaneuse Saint Denis - Paris VIII), Leda Martins e Sérgio Farias o evento recebe o apoio do Serviço de Cooperação e Ação Cultural da Embaixada francesa em Minas Gerais na figura da Adida cultural Sylvie Debs.
As discussões foram distribuídas em três painéis: o primeiro tem como tema as Relações da etnocenologia com outros campos do saber e como questão básica: como suas pesquisas podem se beneficiar das proposições da etnocenologia (e vice versa)? O segundo questiona O audiovisual e as artes do espetáculo buscando compreender como os meios audiovisuais podem enriquecer as artes do espetáculo (e vice versa)? O terceiro, e último painel, chama-se Diálogos: Etnocenologia, Etnomusicologia, Neurociências e quer saber o que as artes do espetáculo e outras áreas de conhecimento podem realizar juntas.
Unindo teoria e prática o programa prevê uma apresentação das Guardas de Congo e de Moçambique da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário do Jatobá (Instituição tombada como Patrimônio Imaterial Cultural do Município de Belo Horizonte), uma performance de Sérgio Pererê e Rui Moreira, intitulada Um outro kivoa..., uma aula-espetáculo com o Teatro Diadokai, com apresentação de Ricardo Gomes e Priscilla Duarte; uma Suíte para os Orixás, de autoria de Mauro Rodrigues e Esdra Neném Ferreira além do Mosaico Rosa dos Ventos com o grupo do mesmo nome.
Além das palestras, das comunicações, dos encontros, dos espetáculos, festas etc...um colóquio só é completo se há lançamentos de livros dos pesquisadores envolvidos. E nesse capítulo o destaque é para o duplo lançamento de Armindo Bião, verdadeiro brinde ao sucesso das pesquisas em artes do espetáculo com os livros Teatro de cordel e formação para a cena: textos reunidos e Etnocenologia e a cena baiana: textos reunidos ambos têm como traço comum o fato de agregarem artigos, em sua maioria já publicados, de maneira dispersa, e outros inéditos sobre os estudos e as experiências do autor-pesquisador.
PS - Os que ainda não me conhecem bem podem achar que eu vivo me achando, os que me conhecem melhor tem certeza disso, por isso, sendo fiel a mim mesma, divido com vocês o email do meu amigo José Luiz Ribeiro, diretor e fundador do Grupo Divulgação de Juiz de Fora que me honrou com seu convite para participar do XXIV seminário Caminhos do Teatro, em abril passado, quando apresentei ao público de Juiz de Fora uma palestra sobre o Théâtre du Soleil e outra sobre as políticas públicas - ou a ausência delas - na área da cultura:
"Caríssima Deo, estamos encerrando nosso semestre e uma notícia boa. Imagine que do total de alunos que fizeram o seminário, 75% elegeram a sua palestra como a mais instigante e fizeram a resenha regulamentar sobre a exposição desta ilustre figura. Cuidado com o ego que vai estourar.
Um grande abraço,
Zé Luiz Ribeiro
As palavras do Zé e o resultado da pesquisa confirmam a minha certeza de que não errei ao mudar toda a minha vida e fazer o percurso que fiz, poderia até hoje estar produzindo Bibi Ferreira e ter muito orgulho disso, entretanto, hoje eu posso, se quiser, produzir a Bibi Ferreira, e muito mais...Afinal, há muito entendi que produzir um artista é realizar o sonho de alguém, dividir o muito que aprendi com o mundo, além de não ter preço, é realizar o meu próprio sonho e incentivar o sonho alheio...
Fale com Deolinda Vilhena: deolindavilhena@terra.com.br
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