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Terça, 28 de julho de 2009, 08h15

Acentos godardianos

André Setaro

A coluna de hoje, excetuando-se este primeiro parágrafo, não é escrita pelo colunista, mas por Jean-Luc Godard, que, antes de se tornar realizador, era um excelente exegeta da arte do filme, com "tiradas" originais e espirituosas. Publicou artigos e ensaios em diversas revistas francesas, mas, e principalmente, na "Cahiers du Cinema", onde também pontificavam os seus colegas que depois viriam a constituir a Nouvelle Vague, a exemplo de François Truffaut, Claude Chabrol, Eric Rohmer, Jacques Rivette, etc. Em Salvador, a maior atração do V Seminário de Cinema e Audiovisual (V Semcine), que está a acontecer nesta semana, é a grande mostra de Godard, acompanhada de discussões em mesas redondas com especialistas na sua obra.

"Acho que o cinema europeu se diferencia do americano no sentido de que os americanos têm o cinema no sangue, enquanto os europeus o têm na cabeça - o que é uma diferença: seriam necessárias as duas coisas. Foi o cinema americano que nos fez conhecer o cinema, que nos fez amar... Pessoalmente, conheci e apreciei Otto Preminger, Howard Hawks, enfim, quase todos os americanos, antes de conhecer os europeus. Foram eles que me fizeram compreender o que é o cinema".

"Tenho grande respeito por determinadas obras de Vincente Minnelli e, menos, por outras. Mais pelas fitas puramente "musicais" e creio que a comédia musical (quando comecei "Uma mulher é uma mulher"/"Une femme est une femme", queria fazer uma comédia musical no sentido clássico do termo, com as cenas dialogadas interrompidas, de repente, pelas cenas de canções - por exemplo quando Ana e Belmondo reencontram-se na rua, após a cena do cabaré, pensei em realizar uma cena puramente musical, onde as pessoas cantariam na rua, como em "Um dia em Nova York"/"On the town", mas depois percebi que isso seria uma referência excessiva) é algo que os americanos descobriram, que levaram a um grau de perfeição e, apesar de gostar muito delas, é inútil refazê-las e, em paralelo, não tinha ideias suficientes novas sobre a comédia musical. Meu filme é sobre a nostalgia da comédia musical, ou melhor, o que diz Ana - "ah! eu queria estar numa comédia musical" - era mais neste tom. Pensei então, depois fiz o diálogo e, após, com Legrand, fez uma música que dava a impressão de as pessoas cantarem muitas vezes. Quero dizer que ela está situada no mesmo tempo e sob as palavras, a fim de conferir um tom de ópera. Mas não se trata de comédia musical e, também, não é o mero filme falado. Trata-se de um lamento contra o fato de a vida não ser musicada."
Entrevista - Cinema 63, número 94, em 3/65

"Havia o teatro (Griffith), a poesia (Murnau), a pintura (Rossellini), a dança (Eisenstein) e a música (Renoir). Mas, doravante, há o cinema. E o cinema é Nicholas Ray."

Essa classificação pode parecer arbitrária e, sobretudo, paradoxal. Não é nada disso. Griffith era inimigo declarado do teatro, mas do teatro de sua época. A estética de O nascimento de uma nação ("The birth of a nation") ou de "The exciting night" ("Uma noite de terror") é idêntica àquela de "Ricardo III" ou de "As you like it". Se Griffith inventou o cinema, ele o fez com as mesmas idéias com que Shakespeare inventou o teatro. Ele inventou o "suspense" com as mesmas idéias com que Corneille inventou a !suspension".

De modo igual, dizer que Renoir está próximo da música e, Rossellini, da pintura, quando é sabido que o primeiro adora quadros e, o segundo, os detesta, corresponde a dizer simplesmente que o autor de "The river" ("O rio sagrado") liga-se a Mozart, e o de "Europa 51" a Velasquez. Simplificando a grosso modo, um procura pintar os estados da alma, o outro, os tipos humanos."
"Au-delas des étoiles" - crítica de "Bitter victory", de Nicholas Ray - Cahiers número 79, em 1/58 - trecho.

"Talvez não existam mais do que três espécies de western, do mesmo modo que Balzac, um dia, assinalou que existiam três modalidades de romance: de imagem, de idéias ou de imagens e ideias, ou seja, Walter Scott, Sthendal e, enfim, ele, Balzac. No tocante ao western, o primeiro gênero se corresponde a "Rastros de ódio" ("The seachers"), de John Ford; o segundo, a "O diabo feito mulher" ("Rancho Notorius"), de Fritz Lang,; e, enfim, o terceiro, a O homem do Oeste" ("The man of the west"), de Anthony Mann. Não quero dizer com isso que o filme de John Ford é apenas uma sequência de belas imagens; nem que o de Fritz Lang está totalmente desprovido de qualquer beleza plástica ou decorativa; quero dizer, sim, que, em John Ford, é, antes, a imagem que remete à idéia, enquanto que, em Fritz Lang, ocorre principalmente o contrário e, enfim, que, em Anthony Mann, passa-se da ideia à imagem a fim de - como desejava Eisenstein -retornar-se à imagem.
"Super Mann" - crítica de "Man of the west", de Anthony Mann - Cahiers número 92, em 2/59.

"Ele está acima de qualquer elogio porque é o maior de todos. Pois, que mais dizer? De qualquer forma, é o único cineasta que pode suportar, sem mal-entendido, o qualificativo, tão deturpado, de humano. Da invenção do plano-sequência, em "Campeão de boxe" ("The champion"), àquela do cinema-verdade, no discurso final de "O grande ditador" ("The great dictador", Charles Spencer Chaplin, permanecendo inteiramente à margem de todo o cinema, preencheu finalmente essa margem com mais coisas (que outras palavras empregar: ideias, gags, inteligência, honra, beleza, gestos) do que todos os outros cineastas juntos. Diz-se, hoje, Chaplin, como se diz Da Vinci, ou, antes, Carlitos, como Leonardo."
Verbete sobre Chaplin em "Directed By" (dicionário de cineastas norte-americanos).

"Todos nós nos considerávamos, no Cahiers du Cinema, como futuros cineastas. Freqüentar os cine-clubes e a Cinemateca, já era pensar cinematograficamente e pensar no cinema. Escrever já era fazer cinema, pois, entre escrever e filmar, há uma diferença quantitativa e, não, qualitativa. O único crítico que o foi completamente era André Bazin. Os outros - Sadoul, Balázs ou Pasinetti são historiadores ou sociólogos, mas não críticos.

(...) "Acossado" ("A bout de souffle") era o gênero de filme onde tudo era permitido, pois estava em sua natureza. Qualquer coisa que fizessem as pessoas poderia ser integrada na fita. Eu próprio parti disso. Dizia a mim mesmo: já houve Bresson e acaba de haver "Hiroshima, mon amour", um determinado cinema encerra-se, pode estar acabando, façamos, então, o ponto final, mostremos que tudo é permitido. O que eu queria era partir de uma história convencional e refazer, mas de modo inteiramente diverso, todo o cinema já feito. Queria também dar a impressão de que se acabava de se descobrir o cinema e experimentar o processo do cinema pela primeira vez."
Depoimento. Cahiers número 138, em 12;62

"Indubitavelmente, ainda não se sabe "ouvir" e "ver" um filme. E, nisso, reside a nossa tarefa principal de hoje. Por exemplo, as pessoas de formação política, raramente possuem a formação cinematográfica, e vice-versa. É, geralmente, uma ou outra. De minha parte, é ao cinema que devo a minha formação política."
Entrevista a Cahiers número 194, em 10/67.


André Setaro é crítico de cinema e professor de comunicação da Universidade Federal da Bahia (Ufba).

Fale com André Setaro: andre.setaro@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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Godard é homenageado no V Seminário de Cinema e Audiovisual (V Semcine), em Salvador

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