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Quinta, 30 de julho de 2009, 08h21 Atualizada às 08h51

A música e o strip-tease

Paulo Costa Lima
De Salvador (BA)


Procurei uma expressão em português, não encontrei. O mais próximo seria 'despir e provocar', que de tão insosso não serve pra nada. Fiquemos com o anglicismo e com o desafio de esboçar uma erótica da música.

A rigor, sendo a música erótica em si mesmo, não se trata de esboçar nada, apenas denunciar as artimanhas sonoras de sedução que a constituem.

O que deseja um ouvinte? É justamente desse strip-tease que se trata. Dessa capacidade travessa de ir se desnudando no tempo. Como se soubesse o que deseja o ouvinte. E aparentemente sabe.

Beethoven, ao escolher o poema de Schiller 'An die Freude' para sua nona sinfonia faz reverberar um impressionante discurso sobre a alegria como centelha divina (Gotterfunken...), como força que move o universo.

Lá pelas tantas diz o poeta: até aos vermes foi concedido o prazer. A imagem é contundente: o prazer dos vermes, sua alegria, é a mesma nossa.

Os fios dessa cadeia vital de alegria que une vermes e estrelas passam pela nossa vida, e certamente iluminam a música. Daí, seu erotismo. Quem é o criador de música? É justamente aquele neto de Freud que jogava um carretel de linha para longe e para perto, encenando com o pequeno jogo, os sumiços e aparições da mãe: Fort / Da (sumiu / eis aí). Trata-se de um strip-tease materno, só que é a mãe inteira que aparece e desaparece por entre as artimanhas do jogo.

Muitas estratégias composicionais lidam diretamente com o pólo visível do objeto sonoro desejado, o 'eis aí'. Outras estratégias cuidam do sumiço, de tudo que vai garantir o prazer do retorno.

A tão desejada cadência harmônica está certamente no âmbito do 'eis aí'. O samba é organizado como equilíbrios e desequilíbrios rítmicos que permitem ao ouvinte gozar simultamente com sumiços e aparições do tempo forte.

Você se lembra daquela famosa canção: 'meu coração amanheceu pegando fogo...? O desenho melódico empurra pra cima, sempre pra cima. Trata-se da necessidade de caracterizar o patamar de chegada - 'fogo, fogo...' - como pico de excitação por causa da morena...

Exemplos abundam nas músicas de todos os tempos. Até mesmo na peça silenciosa de John Cage ( 4' 33'') onde nada se ouve do pianista. A peça expõe o jogo do strip-tease mostrando a fera, o verme, a estrela desejante dentro de nós.


Paulo Costa Lima é compositor. Pesquisador pelo CNPq. Professor de composição da Universidade Federal da Bahia.
www.myspace.com/paulocostalima - http://www.paulolima.ufba.br/

Fale com Paulo Costa Lima: paulocostalima@terra.com.br

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