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Quinta, 30 de julho de 2009, 09h04 Atualizada às 09h18

Cujo

Sírio Possenti
de Campinas (SP)

Chegado de longa viagem, peguei logo meus jornais, que não lia há uma semana. Em um do dia (Folha de S. Paulo, 26/07/2009), fui aos colunistas (gosto de debates, mesmo que só implícitos, e não confio muito nesse jornal como noticioso). Estava lendo o Clóvis Rossi e, na cabeça de um parágrafo, vi que lá estava: "Outro dia, alguém que acabei não anotando o nome sugeriu que as Nações Unidas...". Assim mesmo, sem a vírgula também esperada.

Faz alguns anos que não consigo ler sem prestar especial atenção a certos fatos, dos quais saem minhas modestas colunas. Tropeçar nesta frase, à qual falta notoriamente um "cujo", sendo ela de Clóvis Rossi e não de um caipira (em cujo (!) dialeto Amadeu Amaral anotou que os pronomes relativos se reduzem ao "que"), assim de cara, me fez decidir que escreveria de novo sobre esta morte já mais do que constatada. Foi bom o tropeço nesse dado, já que não posso escrever sobre a falta de assunto, como os cronistas de verdade.

Disse que à frase falta um "cujo". A maioria dos falantes a diria assim mesmo (muitos nem escrevem, e muitos dos que são mais jovens ou menos experientes nem se dariam conta de que "cujo" cabe aqui, não o reconhecem mais, ou nem sabem dele). Talvez até dissessem "alguém que acabei não anotando o nome dele..." (ver os tipos de relativas em Tarallo, "A pesquisa sociolingüística", Ática).

Mas as variedades lingüísticas estão associadas tanto a tipos de falantes quanto a contextos e a modalidades. Pessoas menos cultas provavelmente nunca empregam "cujo". Pessoas mais cultas (e mais velhas), escrevendo formalmente, ainda o empregam bastante (eu incluído). Ou quereriam empregar. Mas, às vezes, por mais que o queiram, por mais que se apliquem ou que telefonem ao professor Pasquale para dirimir suas dúvidas, nem se dão conta que é o caso de ter uma, e produzem sua frase sem "cujo", com um "que" nu, como se fossem jovens e estivessem numa conversa de bar.

A frase de Clóvis Rossi teria tudo para ser "Outro dia, alguém cujo nome acabei não anotando, sugeriu que as Nações Unidas...". Aposto que, se tivesse percebido, faria uma nota ao final de sua coluna seguinte, talvez se desculpando (até porque, dias antes, dissera que Lula não sabe falar, embora o contexto fosse um pouco diferente). Repito: acho que Clóvis Rossi, se percebesse, pediria desculpas.

Talvez eu lhe escrevesse, como faço às vezes (em geral, ele se lixa, às vezes me manda pastar), para dizer-lhe que ele não estaria errado, que, no fundo, é mais moderno do que gostaria de ser, que ainda vai ser citado por estudiosos do português por ter produzido um excelente dado sintomático de mudança do sistema pronominal. Que só poderia achar que está errado se pensasse que a língua portuguesa é só a que está no manual de redação do seu jornal, o que é ruim para qualquer pessoa, mas é bem pior para um jornalista (eles não gostam dos fatos?).

Pois é. Queira-se ou não, o cujo morreu. O fato de que foi muito usado, de que ainda surge muitas vezes, e do fato óbvio de que seu funcionamento e seu sentido precisam ser explicitados nos textos em que aparece não significa que ainda está vivo. Nas línguas, elementos mortos continuam funcionando. Até porque, muitas vezes, lemos textos cuja gramática não se usa mais. Ou porque muitos acham que a língua viva é coisa de ignorante, e por isso a evitam.

Aos que acham que dizer isso é a mesma coisa que propor que o pronome "cujo" não precisa mais ser "ensinado" na escola não entende(ra)m nada de língua, nem de ensino.

Para provocar, segue uma notinha de M. Said Ali sobre o tal "cujo", ou sobre um de seus empregos arcaicos: "Tem esse pronome quem a forma possessiva cujo, dando-se-lhe gênero e número da cousa possuída:

Cujas são estas coroas tã esplandeçentes? (S. Josafate 47) - Cuja he esta barca que preste? (Gil Vicente 1, 232) - Cuja he esta imagem? (Vieira, Serm. 5, 334) - E as despesas deste injusto intertenimento ... por cuja conta correm? (Ib., 2, 92) - E todos esses bens que juntaste a que chamas bens, cujos serão? (Ib., 5, 456)".

Já escrevi nesta coluna, acho que comentando nota do prof. Pasquale exatamente sobre esta questão, que um dos problemas que surgem quando se defende, sem explicitar metodologias, que se deve ensinar "cujo", mais-que-perfeito e mesóclise, entre outras coisas, é decidir o limite do que faz parte do programa escolar e do que fica fora dele. Por exemplo: devemos ensinar (e exigir) o uso de casos de "cujo" como os acima citados? Ou é o caso de decifrá-los quando ocorrem e de dizer que são arcaísmos - o que não impede de aprendê-los?

E devemos escrever gramáticas nas quais se diz que "cujo concorda em gênero e número" ou devemos continuar escrevendo, como Said Ali, que "se dá a ele gênero e número"? E por que não ensinar também "he","intertenimento", "tã", "cousa" etc." Por que?

E o que fazer com os arcaísmos que ainda não foram declarados como tais, como o "cujo" que Clóvis Rossi deixou de usar, certamente sem querer, que é quando a regra vale mesmo?


Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso e Questões para analistas de discurso.

Fale com Sírio Possenti: siriopossenti@terra.com.br

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