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Sexta, 31 de julho de 2009, 08h28

A arte de dizer adeus

Marcelo Carneiro da Cunha
De São Paulo

Um amigo meu comprou um relógio caríssimo, desses que valem muito mais do que o pulso da gente, comprou em várias prestações porque era um apaixonado sem muita liquidez. Ele era também um apaixonado meio desatento, porque a namorada disse que não gostava mais dele antes do segundo pagamento, deixando meu amigo na tristeza combinada de um coração desidratado e um carnê feito para lembrar dela ao menos uma vez por mês, por muitos e muitos meses.

Outro amigo meu era um assassino serial - liquidava com tantos namoros e numa freqüência tão elevada que nós, os amigos, criamos um formulário impresso onde bastava colocar o nome da ex-amada, e pimba, ali estava a mensagem de amor e tchau, começando com um "não é com você, como poderia ser? É comigo mesmo, que, aliás, nem sei quem sou, mas não mereço você". Acho que terminava com aquele clássico "você vai encontrar alguém melhor do que eu e ser feliz, eu sei". Havia ainda a variação mais tenebrosa que eu conheço - "Espero que a gente siga ao menos sendo amigos". Eu pessoalmente cortei o desprezível "te considero pra caramba, porque posso ser amigo, mas tenho alguma vergonha na cara".

Dar adeus é coisa séria demais para amadores, que vão tentar suavizar a coisa falando ou escrevendo belezuras sem fim sobre a pessoa maravilhosa, que, nesse instante exato, descobre que está sendo abandonada. Esqueça. Não tem jeito e não vale a pena. Não existe maneira sobre ou sob a Terra de tornar esse momento melhor do que o horror que ele é, por definição.

Dizer adeus ao outro é um ato de ruindade que não tem como ser adoçada, portanto, não tente. Assuma o que tem que ser feito, agüente no osso a choradeira e o sofrimento, sinta-se feliz por estar na posição dolorosa de quem encerra o relacionamento, e não na posição insuportável de quem é demitido do cargo amoroso que ocupava até segundos atrás. Siga em frente, não olhe pra trás, não faça besteiras adicionais na tentativa de suavizar a sua culpa. Diga o mínimo e o necessário; não se desculpe nem modifique o teor da mensagem, sabendo que a essência sempre vai seguir sendo a mesma. Compre lenços de papel para ambos e vá em frente, se possível até o SESC-Pompéia, para sentar diante da fantástica exposição Cuide de Você, da artista francesa Sophie Calle.

Pois mesmo artistas e francesas levam pé na bunda, e da maneira mais prosaica e desagradável possível: nesse caso, um texto de adeus escrito pelo ex da Sophie, o senhor X.

Sophie Calle é uma artista ousada e não leva desaforo pro atelier, e, assim, resolveu dar uma cópia do texto a 107 mulheres de diferentes profissões, para que elas demonstrassem seu apreço pelo senhor X, pelo seu estilo literário e seu caráter duvidoso. O senhor X cometeu a besteira de terminar o namoro por e-mail, e assim, o individual virou público e mundial, na exposição em cartaz no SESC e que convido todos a ir visitar e admirar.

Admirar a cara de pau do sr. X, com seu e-mail pomposo e narcísico. Admirar a idéia sensacional de Sophie, de transformar o sofrimento sem solução em uma bela solução para uma ação artística. Admirar as respostas das 107 mulheres ao desaforo vivido por Sophie. O humor sensacional com que a maioria delas reduz o sr. X a um babão inconseqüente e de estilo questionável.

Leiam a resposta da atiradora olímpica, da delegada de polícia, da tradutora, da latinista, da revisora, da psicanalista lacaniana, e melhor de todas, talvez, da cacatua chamada Brenda, que sabe, melhor do que os humanos, lidar com esses momentos.

Todos e todas vão sair de lá com a certeza de que, se não receberam uma aula de como superar a dor, ao menos tiveram um show de como reduzir o sofrimento ao que ele é, na essência. Algo intenso, duro, transformador, e inútil.

E já que não há o que fazer, que tal perceber o que há, que é a arte. Sofrer é uma experiência intensa, que nos leva a novos lugares dentro de nós mesmos. A arte é assim, também. Mas, diferentemente da rejeição de um ex - algo sem solução, - a arte nos regenera em nossa capacidade infinita (mais ou menos infinita) de reinvenção.

Se não há como preservar a relação amorosa na hora em que o outro desiste dela, há a escolha pela retomada da nossa relação conosco, e a orientação de nossa energia para a construção da próxima e definitiva sedução.

O riso, é simplesmente a melhor maneira de lidar com o deserto. Passear por entre os pequenos risos das amigas de Sophie nos traz de volta ao que importa, ao espírito, ao nós em nós mesmos, que é o que nos sobra ao final da choradeira e partilha dos bens.

Sophie Calle nos lembra que a tragédia é trágica, mas olhar para ela a deixa menos infinita e mais humana, que rir dela nos aproxima do que existe de superior em nós mesmos. Ela nos lembra de que o que precisamos nessas horas é da amizade e apoio dos que nos amam incondicionalmente, que não devemos jamais chorar e pedir penico a quem nos deixou, mas irmos atrás de nós mesmos, do que sempre somos, do que sempre seremos, independentemente de quem, por um momento que pode durar minutos ou uma vida, descubra a maravilha que somos, e viva disso, assim como nós vivemos, na nuvem confusa e por vezes feliz que costumamos chamar de amor.


Marcelo Carneiro da Cunha é escritor e jornalista. Escreveu o argumento do curta-metragem "O Branco", premiado em Berlim e outros importantes festivais. Entre outros, publicou o livro de contos "Simples" e o romance "O Nosso Juiz", pela editora Record. Acaba de escrever o romance "Depois do Sexo", que foi publicado em junho pela Record. Dois longas-metragens estão sendo produzidos a partir de seus romances "Insônia" e "Antes que o Mundo Acabe".

Fale com Marcelo Carneiro da Cunha: marceloccunha@terra.com.br

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Rui Ornelas/Flickr/Reprodução
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