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Sábado, 1 de agosto de 2009, 07h40

O romancista de Hitler

Tomás Eloy Martínez
Do The New York Times

Talvez o melhor veículo para entender os delírios do poder autoritário sejam as ficções que nascem sob o amparo dos ditadores ou dos seus cúmplices letrados.

A França ocupada de Pierre Laval e do marechal Pétain teve, em Pierre Drieu la Rochelle, um predicador sincero das suas glórias racistas.

O medíocre ditador da Argentina, Gen. José Félix Uriburu (1930-1932), desdenhou o apoio espontâneo de outro grande poeta, Leopoldo Lugones.

Adolf Hitler e Joseph Goebbels confiaram a sua posteridade à arquitetura e ao cinema. O arquiteto Albert Speer e a épica cineasta Leni Riefenstahl não os desapontaram. Ambos eram arautos da beleza ariana e suas obras expõem o credo da superioridade racial.

Embora Hitler também contasse com a servidão de um músico genial, Richard Strauss, precisava um narrador que o glorificasse. Ninguém o satisfez até que leu alguns contos do escritor Hanns Heinz Ewers.

Hanns Ewers foi um escritor esquecido durante muitos anos. Ainda é, embora alguns editores europeus estejam começando a resgatá-lo, sob o amparo desse frenesi arqueológico que agora serve para desenterrar tanto os velhos servidores do fascismo quanto os criadores censurados pela paranóia de Josef Stalin ou os perdidos nas ruínas do velho império austro-húngaro.

Ewers parou de escrever há 70 anos e morreu cinco anos depois disso, no dia 12 de junho de 1943. A sua ressurreição atual não seria entendida se as ficções que compôs não ajudassem a decifrar a misteriosa entrega da Alemanha nos braços do nazismo e a fascinação que o Mal segue exercendo sobre grandes artistas, como o pintor irlandês Francis Bacon, os norte-americanos Diane Arbus, fotógrafa, e o romancista Philip Roth, já não para se confundir com ele, e sim para exorcizá-lo.

Ewers pertenceu a essa raça de idealistas doentes que acreditavam na razão dos fortes e na salvação nascida da espada. Como o escritor francês Louis-Ferdinand Céline, também foi um apátrida: chamou a si mesmo de "cidadão do mundo" e morou em quase todas as latitudes. Desde que nasceu, no dia 3 de novembro de 1871, passeou pelas três Américas, pela Ásia e pelas ilhas do Pacífico.

Entre 1903 e 1904 conseguiu conservar uma casa e uma biblioteca em Capri, onde compôs os contos de Das grauen (O horroroso). Entre 1916 e 1918 vagou, nervoso, por Iquitos e Belo Horizonte, esperando que o repatriassem. A derrota da Alemanha na Grande Guerra o surpreendeu enquanto retornava em um barco de carga. Desde então, passou a segregar um delirante orgulho patriótico que o arrastou ao nazismo.

Seus biógrafos admitem duas explicações para o fanatismo de Ewers: em 1923, o Partido Nacional-Socialista - ainda embrionário - imaginou um programa que parecia saciar todos os sonhos de reivindicação patriótica alimentados pelo escritor; logo, no fim da década, a Ordem Negra de Hitler e o renascimento do paganismo alemão expressaram perfeitamente a filosofia esotérica em que Ewers acreditava e sobre a qual, por outra parte, se baseavam as suas duas grandes obras: A Mandrágora (Alraune, 1910) e O aprendiz de feiticeiro (Der zauberlehrling, 1911).

A Mandrágora se refere a uma história que finge ser inofensiva. Acontece em uma comunidade de intelectuais burgueses, universitários, advogados e médicos que amam o vinho, as palavras e os duelos. Por debaixo do tédio, o mal assume as suas mais astuciosas formas, até as da ingenuidade. A intriga é precária, quase inexistente. O professor Bronken, cientista pesquisador que sacrifica crianças nos seus experimentos, é persuadido pelo seu sobrinho, Frank Braun, para criar uma criatura infernal. Consiste em injetar na genitália de uma "prostituta vocacional" o esperma de um condenado à morte.

Da fecundação nasce uma fêmea maligna, a Mandrágora, que já no parto despedaça as vísceras da mãe. Esse é o seu primeiro crime. Adotada pelo velho Bronken, que enriquece graças aos conselhos da sua pupila, a satânica menina vai se convertendo em uma mulher de encantos letais. Os que se apaixonam por Mandrágora sucumbem. A exceção é Frank Braun, que consegue seduzi-la e provocar a sua morte. Em uma noite de lua cheia, em um acesso de sonambulismo, Mandrágora cai de um telhado chamando por Frank.

Contar somente a intriga deste romance é traí-lo, porque revela a ingenuidade e a lerdeza do narrador, enquanto escamoteia os seus luxos verbais e a eficácia com que cristaliza a atmosfera de cada situação em uma única frase perfeita.

Quando o Hitler tomou o poder, Ewers achou que a Alemanha mitológica de Sigfrido e do Walhalla havia finalmente chegado. Embora não tenha se afiliado ao Partido Nazista, participou dos desfiles de tochas da SA (Sturmabteilung: Divisão de Assalto) e das festas pagãs do seu caudilho, Ernst Röhm.

No dia 3 de novembro de 1933 foi convidado para ir à residência oficial de Berghof, nos Alpes bávaros. Faltavam sete meses para a descontrolada matança que acabou com Röhm e com a SA, a célebre "noite das facas longas".

O arquiteto Speer escreveu que "Hitler sentia por Ewers uma sincera amizade. Os seus relatos impregnados de sangue e trevas exerciam uma atração intensa sobre o espírito atormentado do Fuhrer", apontou.

O escritor recebeu no Berghof a consigna de criar um modelo para a SA e para a juventude alemã. Nos arquivos dos jornais de Berlim descobriu Horst Wessel, um cafetão que havia organizado, em 1925, as tropas de choque nazistas e que um ano depois foi morto em um combate de rua com os comunistas.

Não era um mártir convincente, mas Ewers também não desistiu. Escreveu uma apaixonada biografia que foi publicada em 1933 e teve um sucesso clamoroso. Goebbels ordenou imediatamente uma adaptação cinematográfica. Mas quase todos os nazistas venerados nesse livro foram assassinados na cassação da SA. Quando Hitler e Goebbels assistiram a uma projeção particular de Horst Wessel disseram que as suas falsidades históricas eram "intoleráveis" e o vetaram. Desde então, o nome de Ewers converteu-se em uma peste.

A partir de 1935, todas as obras de Ewers foram proibidas no Reich, exceto Ginetes, mas, ainda assim, com venda limitada. No início de 1936 também foi impedido de sair do seu refúgio bávaro. Para um viajante como Ewers, a imobilidade equivalia à morte. Morreu de tuberculose em 1943.

Kurt Desch, seu editor, ordenou que sobre o túmulo fosse escrita a última frase de A Mandrágora, na qual cabe inteiro o destino de Ewers: "Quero entrar em mim. A minha mãe me espera".

Tomás Eloy Martínez é escritor e tem livros traduzidos em mais de 30 idiomas. É diretor do programa de Estudos Latino-Americanos na Universidade de Rutgers. Artigo distribuido pelo The New York Times Syndicate.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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Reprodução
O escritor Hanns Heinz Ewers terminou seus dias execrado pelo regime nazista

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