
Roberto de Sousa Causo
De São Paulo
Esta é a segunda coluna em que damos procedimento ao debate sobre a questão levantada pelo escritor Luiz Brás em sua coluna "Ruído Branco", no Rascunho: O Jornal de Literatura do Brasil (http://rascunho.rpc.com.br/index.php?ras=secao.php&modelo=2&secao=3&lista=1&subsecao=58&ordem=2959>). A questão foi retomada por Roberto Causo na mesma publicação (http://rascunho.rpc.com.br/index.php?ras=secao.php&modelo=2&secao=3&lista=1&subsecao=58&ordem=3002). Em sua coluna, Brás propõe que a ficção científica, em seu momento de efervescência atual, seria um meio de renovar a ficção literária brasileira, que padeceria de um cansaço e esgotamento de suas fórmulas e estruturas. Clique aqui para se inteirar do "Colóquio 'Convite ao mainstream' Parte II".
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Por Elton Furlanetto
Uma série de questões se colocam ao leitor que acompanha a polêmica instaurada por Luiz Bras em "Convite ao mainstream" e por Roberto Causo em seu "Um Bárbaro que se Preze Não Vem para o Chá das Cinco". A primeira delas, talvez a menos importante, parece jazer na própria questão do cânone e suas conseqüências. A segunda, mais relevante ao debate, está na maneira que as formas vão se repetindo, não apenas como modos de representação, mas como conteúdos que já não refletem a experiência dos leitores de hoje. O terceiro ponto, vital para os que desejam e acreditam numa mudança (de qualquer natureza), levantado pelos dois autores, e ao qual devemos atentar, é a renovação como possibilidade coletiva e não-pacífica. Não sendo questões paralelas, elas se interconectam. Olhemos para cada uma delas mais atentamente.
A problemática acerca do cânone nos remete uma das discussões mais comuns na academia hoje: vide a quantidade impressionante de páginas que já foram escritas (e ainda são) sobre o assunto. Palavras como gênero, subgênero, classificações infindáveis, confundem leitores e estudiosos, prendem-nos em redes e desfocam nossas mentes das perguntas certas. Tanto Bras quanto Causo, felizmente, não abordam esse tema diretamente, já que ambos partem do pressuposto que o mainstream e a ficção científica são duas entidades distintas e pouco integradas. O que fica claro, com a metáfora do Império e dos bárbaros, é que não apenas entidades literárias, baseada em características da forma (como tempo, espaço, etc.), essa divisão é basicamente política.
O que podemos concluir disso? Um grupo de pessoas, que formam um corpo de controle da produção e leitura, estabelece hierarquias e valores, e seleciona através de um recorte que será disseminado por meio, principalmente, do ensino. A academia e os editores, principalmente, servem como fonte de julgamentos que afetam todas as outras instâncias da educação. Vejamos um exemplo interessante: muitas pessoas, graduadas em literatura em uma das melhores instituições do país só tiveram acesso à literatura (anglófona, diga-se de passagem) de ficção cientifica porque um professor simpatizante do gênero seleciona alguns romances e alguma teoria e os apresenta. Porém, noutro semestre, outro professor assume a matéria, e escolhe outro enfoque, desconhecendo (ou desdenhando) as potencialidades do gênero. Não há uma sistematização do estudo.
Como resultado, Causo nos chama a atenção para o fato que a incapacidade de acesso é um dos grandes problemas daqueles que produzem, estudam e lêem FC: cita "nomes ocultos pelo manto da invisibilidade da FC". Conclui que "Cabe redescobri-los. Ou descobri-los de fato". Mas redescobrir por quê? Não queremos uma renovação? Não devemos, então, esmagar o passado e criar a partir de nossa experiência algo que faça os escritores da geração anterior parecerem dinossauros? Não devemos evitar a todo custo a repetição vazia que nos lembra Luiz Bras? Não. A arqueologia não nos faz entender apenas o passado e o que foi, mas é a luz que nos apresenta o que se tentou apagar com o tempo, com uma visão unilateral da história, e com qualquer outro aparato de controle social.
O que percebemos na repetição de fórmulas e formas, de narradores à lá algum gênio, esvaziados do conteúdo de agora é que nos é vedado exatamente aquela cola, aquela pulsão que amalgama nossa experiência com sua representação. Aqui, impossível deixar de citar Walter Benjamin, que em suas teses "Sobre o Conceito de História" faz uma analogia interessante para a argumentação de Bras e Causo: para o pensador, "a história é o objeto de uma construção, cujo lugar não é formado pelo tempo homogêneo e vazio, mas por aquele saturado pelo tempo-de-agora".
Para exemplificar essa relação e troná-la mais clara, ele ilustra com a moda: ela mantém as últimas tendências ao passo que traz de volta aquilo que já foi utilizado no passado. Porém, para ele, a moda é uma falsa mudança, posto que é a maneira que a classe dominante de repetir o mesmo e ocultar seu horror a mudanças mais profundas.
Seguindo essa linha de raciocínio, como os autores invocaram os bárbaros, assim que eles chegarem a estas praias, o que parece ser necessário fazer é que montem uma constelação com os fatos do passado e o do presente, dando o que Benjamin chama de "o salto do tigre em direção ao passado", ao "se apropriar de um momento explosivo do passado, carregado de tempo-de-agora". O mundo está vivendo momentos decisivos, a sociedade sofre mudanças e marcas diariamente, e algo que não se pode nomear parece espreitar todos os lares, todas as relações. A ficção científica não pode ficar fora dessa regra e dever, pois possui as características para tal: estar na linha de frente explorando as mudanças e reforçando sempre a possibilidade de um mundo menos feio, menos malvado, mais justo e mais humano.
Mas vale a ressalva - tanto Causo quanto Benjamin tocam num aspecto fundamental dessas possibilidades de mudança: uma andorinha não faz verão. Perdoem-me pelo uso do clichê, ele parece ser o modo mais simples de ilustrar que tais mudanças estruturais dependem de uma organização coletiva de esforços, não apenas dos que aqui estão mas também daqueles que já foram. Finalmente, o que Benjamin lembra é que os que não concordam com a mudança de paradigmas, pois ela desafia sua estrutura de poder, não vão abrir mão dela tão facilmente. Exige-se a luta. Por isso, nada mais certo que o movimento de Causo de tirar o machado da parede e esperar, sem deixar de agir, buscando formar constelações, o momento que, ainda grávido de esperança, logo virá à luz.
* Elton Furlanetto faz pós-graduação em Letras na Universidade de São Paulo, com a ficção científica como assunto.
Terra Magazine