
Julio Gomes de Almeida
De São Paulo
Fator que agravou o impacto da crise externa sobre a economia brasileira no trimestre final do ano passado, o crédito vem se recuperando. Trata-se de um processo ainda desigual e parcial. Um dos seus principais traços é que a melhora observada na concessão de novos financiamentos no primeiro semestre de 2009 se deu muito mais do lado do financiamento às pessoas físicas do que entre as pessoas jurídicas. O crédito nesse caso, especialmente para as empresas de menor porte, ainda encontra-se difícil e muito caro.
Uma situação ainda pior se apresentaria, caso as instituições públicas de financiamento, como Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e BNDES, não tivessem vindo em socorro da atividade produtiva. Em junho de 2009 o saldo total das operações de crédito no país atingiu R$ 1.278 bilhões ou 43,7% do PIB, representando um acréscimo em termos nominais de 4,2% sobre o saldo de dezembro de 2008. Mas o crédito para pessoas físicas foi o que obteve o maior crescimento: 10,1% no mesmo período.
O setor destacadamente prejudicado pela restrição de financiamento foi o comércio, o único setor que no primeiro semestre desse ano não mostrou sinais de melhora. O saldo de seus financiamentos caiu 3,2%. Notar que no mesmo período, porém do ano passado, o crédito para o comércio crescia 13,5%, numa indicação de que houve para esse setor de fato uma grave restrição de financiamento.
No caso do setor industrial, também ocorreu uma fortíssima reversão da evolução do crédito, mas sem que isso levasse a uma contração absoluta do crédito. Na comparação do saldo de junho de 2008 com o saldo de dezembro de 2007, o crescimento chegava a 14,5% recuando para apenas 0,9% no mesmo período desse ano.
Mesmo no caso das famílias onde a melhora foi muito mais acentuada do que no caso das empresas, o quadro de avanço não foi homogêneo. Se de um lado aumentou o crédito nas modalidades de cheque especial, cartão de crédito e, mais recentemente, no crédito pessoal, os financiamentos para a compra de automóveis e outros bens duráveis ainda não recuperaram os níveis anteriores ao período de agravamento da crise.
O crédito pessoal, liderado pelo crédito consignado, teve evolução de 13,4% na comparação de junho de 2009 com dezembro de 2008, mas o financiamento do consumo continuou em queda: -1,7% no mesmo período.
Por outro lado, as taxas de juros cobradas nos financiamentos bancários caíram ao longo dos últimos meses, após terem registrado significativa elevação desde setembro do ano passado. Contudo, nesse processo é possível observar que a redução das taxas cobradas no crédito para as pessoas jurídicas tem sido muito mais lenta e de intensidade muito menor do que no crédito para pessoas físicas.
Nesse último caso, em termos médios, a taxa de juros de junho foi de 45,6% ao ano, a menor desde dezembro de 2007, mas no caso dos financiamentos para pessoas jurídicas, a queda da taxa média de juros ao longo da primeira metade do corrente ano praticamente correspondeu à redução promovida pelo governo na taxa básica de juros. A taxa média no crédito para as empresas no mês de junho, de 27,5% ao ano, é equivalente à taxa de julho de 2008.
No caso da taxa para as pessoas físicas, embora sua queda venha se dando em magnitude maior, seu nível (45,6% ao ano) é ainda excessivamente elevado. Tal taxa implica, por exemplo, em dobrar o valor pago por um bem durável comprado a crédito por um período de dois anos.
É de se esperar como próximos desdobramentos dessa descompressão do crédito no país que no caso dos financiamentos às famílias o crescimento que já se assiste em algumas modalidades chegue ao crédito ao consumidor. Isso servirá de poderoso incentivo para a reativação da indústria. Uma evolução mais intensa do crédito para as empresas deve tardar mais um pouco, sendo esperada para os meses do último trimestre do ano.
Terra Magazine