Terra Magazine

 

Terça, 4 de agosto de 2009, 09h12 Atualizada às 10h39

Perdendo o progresso de vista

Christopher Hitchens
Do The New York Times

É muito raro ter um pensamento completamente novo a respeito de um assunto conhecido, mais difícil ainda é chegar a uma conclusão original a respeito de um assunto altamente contestado. Então, quando eu tive um raro momento de insight há algumas noites, meu primeiro instinto foi justamente não confiar no meu primeiro instinto.

Para resumir a história, eu estava assistindo à incrível série de TV "Planet Earth" (com cenas da natureza tão impressionantes que redefiniram esse tipo de programa) quando me deparei com o segmento sobre a vida subterrânea. As cavernas e rios subterrâneos do mundo são algumas das nossas fronteiras ainda inexploradas e algumas descobertas feitas no México e na Indonésia são suficientes para impressionar.

Foram encontradas várias criaturas vivendo longe da luz e, pelo que eu pude ver quando a câmera se aproximou, percebi que algumas salamandras em especial tinham rostos típicos. Em outras palavras, elas tinham boca, focinhos e olhos dispostos da mesma forma que os animais em geral.

No lugar dos olhos, no entanto, havia apenas pequenas cavidades. Enquanto eu pensava a respeito das possíveis implicações da ausência de olhos, a voz do narrador, Sir David Attenborough, informava quantos milhões de anos foram necessários para que essas criaturas do submundo perdessem os olhos.

Se você acompanha a eterna discussão entre os seguidores da teoria da seleção natural de Darwin e os partidários do criacionismo, ou "design inteligente", já deve saber aonde esta discussão vai levar. Os criacionistas (vou chamá-los assim, que é seu nome de direito, para não usar o termo irritante "inteligente") normalmente falam dos olhos de forma um tanto oblíqua. Eles perguntam: como poderia um órgão tão sofisticado chegar à magnificência e versatilidade que tem hoje apenas passando pelos estágios obtusos da evolução?

O problema foi formulado de forma mais clara pelo próprio Darwin no seu ensaio "Órgãos de Perfeição e Complicação Extremas": "Eu admito que supor que o olho, com todas as suas formas inimitáveis de ajuste de foco para distâncias diferentes, sua tolerância a distintas quantidades de luz, sua correção esférica e aberração cromática, seja resultado da seleção natural pode parecer um absurdo impensável".

Seus defensores, como Michael Shermer em seu excelente livro "Why Darwin Matters" (Por que Darwin Importa?), falaram sobre os avanços da ciência pós-darwinianos. Eles não se baseiam no que se pode chamar de fatalidade cega: "A evolução também sugere que os organismos modernos devam apresentar uma variedade de estruturas, desde as mais simples às mais complexas, refletindo sua história evolucionária e não uma criação instantânea. O olho humano, por exemplo, é resultado de um histórico longo e complexo que levou centenas de milhões de anos. Inicialmente, um simples ponto ocular com algumas células sensíveis à luz fornecia informações ao organismo sobre uma importante fonte de luz...".

Espere um pouco, diz Ann Coulter, em seu livro ridículo intitulado "Godless: The Church of Liberalism" (Sem Deus: A Igreja do Liberalismo). "A pergunta que interessa não é: Como um olho primitivo se torna um olho complexo? A questão que importa é: Como foi que"as células sensíveis à luz" vieram a existir?

As salamandras da série "Planet Earth" acabaram fornecendo a este leigo que vos escreve a resposta para essa pergunta. Os humanos são praticamente programados para pensar em termos de progresso e em curvas graduais e crescentes, mesmo quando confrontados com provas de que no passado muita coisa "involuiu" nas espécies, da mesma forma que evoluiu. Portanto, mesmo Shermer não se priva de falar sobre um "caminho" que implicitamente segue para frente.

Mas como ficam as criaturas que tomaram a direção oposta, de complexas a primitivas no sentido da visão, e acabaram perdendo os olhos que já tinham?

Se alguém se beneficiaria com esta pergunta, certamente não seria Coulter ou seus colegas do centro criacionista Discovery Institute. O máximo que eles podem dizer é "Deus dá e Deus tira". A plausibilidade da cegueira das salamandras subterrâneas ser outro aspecto da seleção natural perece, quando paramos para pensar, praticamente incontestável.

Eu escrevi para o professor Richard Dawkins para perguntar se a minha constatação se aproxima da verdade e ele respondeu: "Os olhos vestigiais, por exemplo, são provas claras de que essas salamandras da caverna devem ter tido ancestrais diferentes delas - que tinham olhos. Isso é evolução. Por que é que Deus criaria salamandras com apenas vestígios de olhos? Se ele quisesse de fato criar salamandras cegas, porque não apenas criá-las sem olhos nem cavidades? Por que dar a elas olhos de mentira que não funcionam e que aparentam um passado genético diferente? Talvez sua conclusão seja um pouco diferente, nesse caso, acho que nunca havia lido algo parecido".

Eu recomendo a leitura do capítulo sobre os olhos e suas diferentes formações no livro "Climbing Mount Improbable" (Escalando o Monte Improvável) de Dawkins; além de "The Blind Cave Fish's Tale" (o Conto do Peixe Cego das Cavernas) em sua coleção "The Ancestor's Tale" (O Conto do Ancestral).

Eu não tenho capacidade de complementar com informações a respeito da formação das células de luz, pontos oculares e lentes, mas acho que há uma utilidade dialética em abordar os argumentos convencionais também de forma oposta. Por exemplo, a velha pergunta existencial "Por que há algo em vez de nada?" pode ser contraposta agora com as descobertas do professor Laurence Krauss e outros, sobre a descoberta da morte térmica do universo, a entropia máxima, que mostra que a taxa de expansão explosiva do universo está aumentando, e a colisão da nossa galáxia com Andrômeda já pode ser percebida no céu estrelado.

Então, a pergunta pode e deve ser refeita: "Por que o nosso breve "algo" será substituído por nada?" É apenas quando conseguimos questionar nossa crença na progressão linear e aceitar a existência de várias recessões pelas quais todos passamos e iremos passar que podemos então entender a estupidez de quem coloca sua fé na divina providência e na criação de Deus.

Christopher Hitchens é jornalista, escritor e colunista de Vanity Fair e Slate Magazine. É autor do livro "Deus não é Grande: como a religião envenena tudo". Artigo distribuído pelo The New York Times Syndicate.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 
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Hitchens: "salamandras cegas revelam estupidez do criacionismo"

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