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Quarta, 5 de agosto de 2009, 07h39

Filme Mudo (Variação Nº 9)

Reprodução
O escritor Amilcar Bettega, em novo capítulo de Filme Mudo, desenvolve a cena entre Sophie e Martín em um café de Buenos Aires
O escritor Amilcar Bettega, em novo capítulo de "Filme Mudo", desenvolve a cena entre Sophie e Martín em um café de Buenos Aires

Amilcar Bettega
De Paris

Sophie e Martín, um café, uma cidade - Buenos Aires -, e a tentativa de pôr em palavras algo que segura, impede o avanço das coisas.

Um estado de suspensão, de espera nervosa, porque nada indica que o curso da vida será retomado sem esse peso que não se sabe bem como nem porque se abateu sobre os dois.

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Sobre Sophie primeiro, porque Martín está ali como uma vítima do mal de Sophie. Mas a verdade é que não há como medir - e muito menos comparar - a angústia de um e de outro. São dois seres à espera, colocados à parte, extraídos do resto - e isto é mais um resumo impreciso, o esforço (quase inútil) para se aproximar do que, nos momentos de maior desânimo, parece inalcançável.

*

Sophie pode ter o olhar perdido no vazio e acender um cigarro atrás do outro. Martín talvez estará quase reclinado na cadeira, as pernas cruzadas ao lado da mesa, o cotovelo esquerdo apoiado sobre o tampo de mármore, a mão apoiando a cabeça que mantém uma leve inclinação em relação ao tronco. E todo o corpo formando uma linha contínua que desce até o pé que balança num ritmo constante junto à cadeira de Sophie, quase roçando a sua coxa.

Talvez.

Talvez será por este movimento insistente (e que num primeiro momento a irrita), que Sophie vai despertar dessa espécie de transe em que está mergulhada.

Talvez será por este contato (inexistente, porque foi dito que ele quase roça a ponta do pé na sua coxa) que os dois se descobrirão um frente ao outro, e isolados do resto do café como numa bolha de silêncio.

Talvez será neste momento que Sophie vai sentir alguma coisa mover-se dentro do seu corpo, uma vibração que vai repercutir exteriormente através de um ligeiro movimento dos ombros.

Talvez será aí que ela vai trazer o tronco para mais perto da mesa e, sentindo a boca extremamente seca, vai dizer: Martín...

Talvez ela terá a voz difícil, presa, quase indaudível, e repetirá: Martín...

Talvez.

Amilcar Bettega é escritor, autor de O vôo da trapezista, Deixe o quarto como está e Os lados do círculo(livro vencedor do Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira em 2005). Vive em Paris.

Fale com Amilcar Bettega: amilcar.bettega@terra.com.br

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