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Quinta, 6 de agosto de 2009, 08h05

Livros de William Faulkner - Parte I

Vinicius Jatobá
Do Rio de Janeiro

Na instável crônica da leitura no último século, que foi matizada por reviravoltas constantes nas posições de estratégias de recepção do livro - psicanalítica, marxista, vanguardista, religiosa, formalista, etc -, raros foram os autores que sobreviveram, década após década, às metamorfoses exigidas ao leitor: o trabalho de Faulkner, nesse ambiente movediço, revelou-se polissêmico - reinvidicou pra si todos os sentidos possíveis, e disseminou energia criativa em poéticas de naturezas diversas, muitas vezes contraditórias entre si.

O gigante literário Faulkner foi moto contínuo tanto da França existencialista quanto da Argélia em independência - uma concordância possível entre rivais indispostos ao diálogo. De sua obra irradia sempre alguma substância que saciará os olhos de quem a lê; e para os mais diversos propósitos, Faulkner foi mestre. Visto da primeira década do novo milênio, e de uma posição estritamente latino-americana, não é impossível notar que seu trabalho é o mais influente da prosa de expressão inglesa do século passado: porque nele o melhor da prosa da tradição do grande romance francês, inglês e russo aflui e se mistura, reinventa-se, nas águas turvas do primeiro avançar modernista de Joyce, Woolf e Proust.

Aos olhos dos outros escritores a leitura regular de Faulkner possibilitou uma educação - experimentar em movimento um amálgama onde o núcleo duro do grande romance realista do século XIX se funde às técnicas modernistas e, principalmente, a uma sensibilidade modernista, sem que nesse processo o gosto das grandes narrativas, o exercício extremado da caracterização das personalidades e o sentido ético e político da análise social perdessem centralidade quando confrontadas ao exibicionismo formal vazio que praticamente se tornou o maior coronário do envelhecimento das vanguardas.

Se for procedente a afirmação de que nada envelhece mais rápido que uma novidade, a novidade faulkneriana ainda diz muito ao mundo de hoje; Faulkner é um mestre porque é ainda uma escola. Seja em Juan Benet, na Espanha, no francês Claude Simon, nos latino-americanos García Márquez, Juan Carlos Onetti e Juan Rulfo, ou no japonês Kenzaburo Oe, foi na escola faulkneriana que muitos alunos brilhantes se graduaram e encontraram os caminhos para desvendarem seus mundos particulares e os conflitos sociais que os cercam.

No entanto, se foi constante a recepção do escritor entre seus pares, a problemática da irregular procura do público geral por suas narrativas - seja em vida enquanto tinha dificuldades para vender relatos no mercado de contos, seja após seu falecimento quando sua obra cada vez mais se tornou alvo de leituras específicas do universo acadêmico, do público que lê a partir de uma lupa determinada, de um filtro teórico e ideológico que não é o filtro de leitor ingênuo - essa problemática talvez encontre seu motivo não na dificuldade da retórica do romance de Faulkner, mas possivelmente na percepção de que ele é um escritor mais literário do que à primeira vista pode-se notar.

Para quem leu Balzac, Conrad, Lawrence, para quem leu Flaubert, Cervantes, Mann, ou seja, para quem possuí na mente algo do funcionamento da tradição do romance, Faulkner não apresenta grandes dificuldades além do inicial contágio árido de seu universo muito próprio e singular, mas que pode ser vencido em algumas dezenas (talvez melhor: centenas) de páginas.

O Som e a Fúria pode ser um livro impossível para o leitor acidental, mas não o será para quem conhece a tragédia grega; Enquanto Agonizo pode assustar o ingênuo, mas é revelação para quem conhece o romance epistolar francês; Absalão, Absalão é um emaranhado confuso de vozes para o desavisado, mas para o leitor do Velho Testamento e da poesia metafísica inglesa e dos grandes romances tardios de Dostoievski será um exercício de reescritura lírica convulsiva.

Nesse sentido Faulkner é de dificuldade apenas relativa: como grande leitor ele escreve a partir da sua experiência de leitura, vasta e plural, mas o que ele escreve é o próximo passo do romance que já existia, que o precedeu, o romance realista político, o romance de denúncia da hipocrisia aristocrata, o romance da crise entre a cidade e o rural tão tipicamente inglês, ou seja, ele se torna mais fácil (ou menos complicado) de se ler e reconhecível a partir do momento que a experiência com livros se torna mais intensa, íntima, porque de certa forma Faulkner é um romancista do século XIX com uma sensibilidade modernista, um artista que evolui tecnicamente quase todos os processos que o precedeu; não inventa a roda - simplesmente lhe dá uma rotação de voltagem individual e singular.

Não é sem motivo que Faulkner considerava Thomas Mann o maior escritor europeu de seu tempo - os dois tinham o mesmo projeto e atitude em relação à tradição; no entanto, o que os diferia é que enquanto o patrono de um era Goethe, uma modernização arcaica fundada em valores que o romance burguês amenizou e ironizou, Faulkner insurgiu sua modernização na maré do contemporâneo, desmontando os procedimentos estilísticos de Joyce (contraponto, fluxo de pensamento, narrativa indireta subjetiva) e Proust (a frase que sustenta num mesmo tempo verbal passado e presente) e selecionando no mundo técnico nascente que o cercava apenas o que lhe interessaria para fazer pelo seu solo natal o que seu grande modelo, Balzac, fez pela Paris de seu tempo.

Nesse ponto a localização de Faulkner na vanguarda é instável, e pelos seguintes motivos. Toda vanguarda essencialmente é um movimento de 'ruptura' com o corpo central de determinada expressão artística, é uma tentativa de desestabilizar o modo habitual de um momento de ler, assistir, ver ou escutar. Apesar de sua aparência de avanço restrito ao campo das propostas formais e idéias e sensibilidade, a vanguarda tem mais relação com questões de política no campo da arte, de encontrar um espaço dentro do cenário já ocupado por uma geração anterior; sua estratégia é sempre denunciar o envelhecimento da retórica em vigência propondo em seu lugar algo que nasce, no entanto, geralmente mais do mero desejo de antagonismo do que de um desenvolvimento de necessidades expressivas.

Em primeira instância, ela é intelectual em suas soluções, propondo fórmulas gerais que condenam todo restante, e intelectual também ao público que se destina. Nesse ponto, apesar do ar sério que elas possuem, há algo de extremamente juvenil e superficial em toda vanguarda - ela é dada mais a grupos que poéticas singulares, e na ebulição de valores que provoca acaba por estabilizar não a raríssima proposta artística mais original dentro do movimento, mas sim institucionaliza o artista geralmente mais hábil no manejo político que expressivo. Uma vez que encontra um espaço onde não tinha, a vanguarda perde a força e a novidade logo envelhece e se estabiliza ao lado daquilo que antes combatia.

A maliciosa afirmação de que em arte onde há grupo há fraquezas individuais não fica tão improcedente assim - o manifesto irônico, o grito e o escândalo são as estratégias usuais da vanguarda quando tenta se colocar em evidência, e acaba propondo como música, ruído, como prosa, emaranhado, e o grito definha logo que os componentes anti-institucionais se institucionalizam.

Faulkner parece alheio à fome da novidade tão particular ao seu tempo (e que sobreviveu bem por quase todo século). Como todo grande inovador, Faulkner é conservador e tacanho e de curiosidade restrita. Não sistematizou seu pensamento, nem participou de manifestos: enquanto os outros escritores americanos gritavam em Paris e gravitavam ao redor de Gertrude Stein, Faulkner fazia o que o caminho árduo de todo escritor sério: lia a tradição, e aprendia com ela. Namorava o passado para encontrar nele a sempre difícil e arriscada aventura não da literatura radicalmente diferente do amanhã, com seu espantoso novo corpo textual e suas idéias cintilantes, mas sim encontrar o desenho tímido do próximo passo que a tradição permite e que, de certa forma, está já nela para ser dado. Longe de ser vanguarda, ou de se encaixar no sentido que essa palavra tem numa caracterização mais geral, Faulkner é mais um conservador que lê a tradição e se apropria dela de forma coerente ao universo que deseja expressar.

A continuar.

Vinicius Jatobá é jornalista cultural e mestre em Estudos de Literatura pela PUC-Rio. Colaborou em vários suplementos e revistas, e atualmente escreve sobre livros em jornais.

Fale com Vinicius Jatobá: vinicius_jatoba@terra.com.br

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Carl Van Vechten/Divulgação
William Faulkner: "Como todo inovador, é conservador e tacanho", opina Jatobá

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