
Marcelo Carneiro da Cunha
De São Paulo

Estimados milhões de leitores dessa coluna! Alvíssaras! Vocês despertaram hoje para um mundo um pouco menos torto, mesmo que ainda não tão perfeito - pelo que eu saiba, o lamentável trio formado por Sarney, Renan Calheiros e Fernando Collor segue enlameando o Congresso e tanto sertanejo como axé seguem sendo vendidos como música. Mas, aos pouquinhos, o mundo melhora e desde a meia-noite passada você, eu e o garçom aqui ao lado podemos respirar aliviados, porque o cigarro agora não pode!
Finalmente, cento e vinte e um anos depois que a Lei Áurea libertou parte da população de um jugo atroz, uma lei vem pra libertar o resto do povo da opressão made by Souza Cruz. Aleluia, irmãos!
Eu já andava preocupado. Nos últimos tempos desenvolvi a primeira bronquite da minha longa existência, e ir a bares e restaurantes se transformava, mais e mais, numa descida ao inferno, com a sensação de estar participando de uma intervenção artística criada para nos lembrar de Auschwitz.
Eu sou totalmente a favor de jamais esquecermos Auschwitz, apenas proponho que isso seja feito pelos meios convencionais, tais como exposições de fotos e depoimentos de quem viveu aquela forma de horror criado por monstros. Não preciso do horror criado por fumantes para pensar no Holocausto, gracias.
Recentemente fui conhecer o Jazz nos Fundos, um dos locais mais interessantes de São Paulo, com o prazer adicional de poder apreciar um quarteto sensacional e nada, NADA de fumaça! Assim, irmãos e irmãs, ouvindo jazz de alta qualidade e sem precisar respirar o que o rapaz ou a mocinha com o cigarro aceso e a mãozinha pra cima - como se aquele gesto fizesse qualquer diferença - tenha para me oferecer, filtro ou sem, mentolado ou não. A vida, pode ser bela. Mais: ela pode ser respirável e isso é o que vamos descobrir a partir de hoje. Aleluia!
Eu vi a mudança acontecer no Uruguai, que teve a sorte de eleger um especialista em câncer, Tabaré Vasquez, cujo primeiro ato como presidente foi, provavelmente, falar algo de ruim sobre os argentinos, e, na sequência, proibir o cigarro. E eles pararam assim, num átimo, e olhem que o que aquele povo fumava não era moleza. O Uruguai passou a ser, para mim, um paraíso onde encontramos praias lindas no verão; melancolia, carnes maravilhosas e doce de leite - além de ótimos restaurantes com ar puro -, o ano inteiro.
Agora, aqui também passa a ser assim.
Eu creio que muito em breve a gente vai olhar pra trás e achar o ato de fumar em público algo tão maluco quanto ter um escravo; tão sem sentido quanto as mulheres não poderem votar, ou crianças apanharem dos pais num clima de normalidade pedagógica. O mundo, de um jeito muito humano e próprio, evolui, mesmo que nem sempre isso fique muito evidente.
Eu acho que o cigarro é um raro caso de unanimidade em um mundo tão diverso que parte dele consegue apreciar o reggae. Cigarro não tem pró-indicação e isso é impressionante. Engraçado pensar que no tempo dos nossos pais e avós as pessoas achavam que cigarro fazia bem, além de ser charmoso pacas, e você via até médicos fumando em hospitais. Isso hoje parece tão esquisito quanto andar de carro sem cinto de segurança ou com um bebê no assento dianteiro. Tudo muda, e, incrivelmente, por vezes, pra melhor.
Vamos agora torcer para o resto do Brasil aderir a esse movimento e parar com essa coisa estúpida de todo mundo sofrer para que uns possam ter prazer e doenças cardio-respiratórias graças a um bom Roliú. E vamos todos para as ruas assegurar que a coisa dê certo e os movimentos de sabotagem ao plano não saiam vencedores. A civilização é sempre ótima, mas frágil. Precisamos fazer a nossa parte e garantir essa vitória, para nós, e, em especial para os fumantes, que assim vão poder fumar um pouco menos ou terem ainda mais apoio para fazer o que sabem que precisam, muito, fazer, que é, óbviamente, se livrar desse exu-caveira que tanto os maltrata, nos maltrata.
Claro que algumas coisas continuam, tais como a igreja do bispo, o uso de brócolis para o consumo humano, a existência da Nova Schin na categoria "cerveja". Mas a paciência faz parte do pacote que torna a vida possível. Ela, mais a perseverança dos justos, é uma combinação imbatível e, portanto, tudo, mas tudo mesmo, vai dar certo. Aleluia, irmãos!
Terra Magazine