Terra Magazine

 

Segunda, 10 de agosto de 2009, 08h07

O diamante marciano Charlotte Gainsbourg

Fernando Eichenberg
De Paris

Gosto da história de como a atriz Charlotte Gainsbourg veio ao mundo. O acaso quis que essa exceção francesa nascesse em solo britânico, em circunstâncias dignas de um roteiro escrito a quatro mãos por Woody Allen e Pedro Almodóvar, com pitadas de David Lynch. Em 21 de julho de 1971, em uma clínica privada de Londres, enquanto Jane Birkin, a mãe, dava a luz, Serge Gainsbourg, o pai, se embriagava com licor de banana do outro lado da rua - como contou a própria Jane em depoimento a Gilles Verlant, autor da biografia-referência "Gainsbourg" (ed. Albin Michel, 763 pág., 2000).

A cada 45 minutos, o ansioso e nervoso futuro papai subia até a sala de parto e, com um estetoscópio colado à porta, tentava auscultar algum choro de bebê. No quarto ou quinto dia de vida, sofrendo de icterícia neonatal (doença comum em recém-nascidos), Charlotte foi transferida para um hospital e não pôde ser visitada por seu padrinho, o ator americano Yul Brynner (famoso por sua luzidia careca e pela atuação em filmes de sucesso como "Os Dez Mandamentos", "Sete Homens e um Destino" ou "Os Irmãos Karamazov"). Jane também estava doente, com um vírus que pegara na Iugoslávia. Para dar ainda mais ação ao cenário, os jornais alertavam sobre um louco que atacava bebês nos hospitais.

Desesperado, imaginando as maiores tragédias, Serge não obtinha permissão para ver sua filha, porque Charlotte fora internada sob o nome materno. Quando, na madrugada, finalmente conseguiu vencer a burocracia hospitalar e ver seu bebê, retornou à pé do hospital para casa, sob a chuva. "Devo ter caminhado por quase duas horas. Atravessei toda a Londres. Nunca fiz um passeio mais feliz na minha vida. Naquela noite, toquei a felicidade com o dedo", revelou, depois, emocionado.

O curioso nascimento prenunciava uma trajetória singular. Atriz precoce, cantora cult, ícone contra a sua vontade e tímida por natureza, Charlotte Gainsbourg cresceu alentada por incertezas e movida por desafios. Pelo mais recente deles, o polêmico filme "Antichrist", uma aterrorizante e tórrida trama dirigida pelo dinamarquês Lars von Trier, foi recompensada com a cobiçada Palma de Ouro do prêmio de melhor atriz do último Festival Internacional de Cinema de Cannes.

Mais de duas décadas se passaram desde que, aos 14 anos, recebeu às lágrimas, no Palco do Palais des Congrès, em Paris, o troféu de melhor promessa feminina do prêmio César (o Oscar francês), por "l'Effrontée" (1985), do cineasta francês Claude Miller. Charlotte mantém seu eterno ar adolescente, mas se tornou mulher.

Sobre "Antichrist", disse numa entrevista à imprensa francesa: "O filme não é nada comportado. Tudo é extremo, quase 'gore', quase pornô. Filmamos muitas cenas de sexo e esquecia o pudor. Eu não tinha mais nenhuma barreira". Barreiras, internas ou externas, são onipresentes em sua vida, mas, hoje, não mais intransponíveis. Pudica? Já com a Palma de Ouro guardada em casa, confessou à revista Psychologies: "Tenho esse problema de duas caras próprio a muitas pessoas tímidas. É como a síndrome do exibicionismo: nos detestamos e nos adoramos. Tenho a impressão de flutuar entre esses dois estados. O que nos empurra é a vontade de agradar, e ficamos sempre decepcionados. É engraçado, isso deveria dar vontade de parar, mas incita o contrário, a tentar mais uma vez".

Casada com o ator e diretor israelense Yvan Attal, mãe de Ben (12) e Alice (6), Charlotte Gainsbourg, 38 anos recém-completados, é uma atriz de reconhecido talento, uma cantora de musicalidade incomum e uma mulher cultuada pela fragilidade de sua beleza. Charlotte é a jovem que, aos 13 anos, interpreta a filha de Catherine Deneuve no filme "Paroles et Musique" (1984), do diretor francês Elie Chouraqui. "Eu não tinha seios, ainda estava com dentes de leite, devia aparentar uns oito anos", disse certa vez. Aos 19 anos, com "Merci la Vie", de Bertrand Blier, decidiu abandonar os estudos e assumir a profissão de atriz.

Em sua filmografia mais recente, se destacam papéis em "21 Gramas" (2004), de Alejandro González Inárritu; em "Sonhando Acordado" (2006), de Michel Gondry, e em "I'm not there", filme de Todd Haynes sobre Bob Dylan. Em breve, estará nas telas no retorno de Patrice Chéreau ao cinema, em "Persécution", com lançamento previsto no final do ano. Até outubro, passará a maior parte do tempo na Austrália, para as filmagens de "L'Arbre", segundo longa-metragem de Julie Bertucelli.

Charlotte é a voz que abre a canção What it Feels Like for a Girl, do CD "Music" (2001), de Madonna, pela inserção de algumas palavras pronunciadas pela atriz no filme "The Cement Garden" (1993), dirigido por seu tio Andrew Birkin. A inusitada participação de apenas três segundos a encorajou a gravar, em 2006, "5:55" (mais de 500 mil cópias vendidas no mundo), álbum de delicada melancolia elaborado com a preciosa colaboração de nomes como Air, Neil Hammon (The Divine Comedy), Jarvis Cocker e Nigel Godrich (produtor de Radiohead). De Cannes, a premiada atriz voou quase sem escalas para Los Angeles (EUA), para finalizar seu próximo CD, que será lançado em novembro. No novo trabalho musical, desta vez seu parceiro é o celebrado músico americano Beck.

Charlotte é a musa da marca Gérard Darel, exibida em imagens sensuais sob o epíteto "uma nova elegância sem artifício". A revista americana "Vanity Fair" foi igualmente seduzida pelo charme insolente da atriz francesa. Em 2007, a publicação a elegeu, pelo voto de um júri internacional, como a mulher mais elegante do planeta, tanto por seus jeans boca de sino como por seus trenchcoats Burberry e seus vestidos Balenciaga.

Mas, para alcançar a liberdade reivindicada, foi preciso superar o peso da incontornável e explosiva celebridade dos pais. Sua mãe é a inglesa Jane Birkin, 62, alçada à fama ao interpretar em versos de sensualismo explícito e gemidos lúbricos a canção "Je T'Aime Moi Non Plus", furor erótico de 1969 composto pelo pai, Serge Gainsbourg (1928-1991), poeta maldito e músico irreverente catapultado ao status de mito francês. Antes mesmo de vir ao mundo, ainda no ventre, Charlotte frequentava capas de revistas em fotos posadas de sua mãe nua e grávida. Na escola, era comum ouvir de seus colegas que seu pai era um drogado e, sua mãe, uma puta. A tradição de irreverência se perpetua. Importunado no colégio por causa de "Antichrist", seu filho Ben havia pedido à mãe que fosse cortada a cena de sexo do trailer do filme. "Mas ao saber que ganhei o prêmio, ele disse que isso apagava tudo, que não era importante", contou ela na rádio Europe 1.

Pai e filha viveram uma relação efervescente e indissolúvel. Em 1984, causaram polêmica com a canção Lemon Incest, interpretada em duo. No videoclipe, Serge Gainsbourg aparece estendido em uma cama redonda, torso nu, vestindo a parte inferior do pijama, e Charlotte, ajoelhada ao seu lado, com a parte de cima. "A crítica me demoliu, disseram que era incesto. Mas não, era a vertigem do incesto", tentou explicar ele, poeticamente, mais tarde. Em 1986, a filha foi ainda protagonista de "Charlotte for ever", filme dirigido pelo pai, depreciado pela crítica e posteriormente elogiado por Jean-Luc Godard. "Charlotte é um diamante perfeito anichado na fenda de um rochedo", disse Serge Gainsbourg.

Não por acaso, ela recordou o pai nos agradecimentos pelo prêmio em Cannes, obtido pelo ousado papel no filme de Lars Von Trier: "Espero que ele esteja orgulhoso de mim, orgulhoso e muito chocado". Reverberada pela mídia, a frase foi, depois, explicada por ela: "Foi uma piada, e todo mundo a destacou. Meu pai era percebido como um provocador, o que, creio eu, ele não era. Era um artista livre que por vezes chocava. E o filme de Lars chocou pessoas em Cannes. É tudo".

Para o cineasta Bertrand Blier, Charlotte impressiona porque seu semblante é uma mescla de Serge e Jane: "Seu rosto é uma história de amor", definiu. Segundo ele, Charlotte é gainsbouriana, ambígua, no limite da provocação. "Quando se é a filha de Jane Birkin e de Serge Gainsbourg, não se tem medo de nada. Com um pai desses, ela não pode se parecer aos outros: Serge era um OVNI, ela é uma marciana", resumiu.

A extraterrestre Charlotte Gainsbourg acredita que há uma irresponsabilidade nas atrizes por elas nutrirem muitas esperanças, mas não saberem realmente para onde vão: "O perigo e o imprevisto me interessam cada vez mais. Não tenho nunca certeza alguma. Sou muitas vezes tomada por um medo paralisante, mas ao mesmo tempo não dou as costas a nenhum personagem. Há sempre essa vontade de me jogar e descobrir", disse, em 2005.

Moramos no mesmo bairro em Paris e por vezes avisto nos arredores sua inconfundível silhueta e sua aura de menina ingênua enfeitiçada por um carisma selvagem. São inúteis as tentativas de defini-la, a exemplo da alcunha de "Sofia Coppola francesa". Charlotte Gainsbourg se mantém inclassificável. Resta esperar que continue irresponsável e destruindo suas barreiras.

E, claro, que não retorne para Marte.


Fernando Eichenberg, jornalista, vive há doze anos em Paris, de onde colabora para diversos veículos jornalísticos brasileiros, e é autor do livro "Entre Aspas - diálogos contemporâneos", uma coletânea de entrevistas com 27 personalidades européias.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 
Reprodução
A atriz Charlotte Gainsbourg

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