
Atualizada às 09h42 André Setaro
De Salvador (BA)
Passado o tempo, que, muitas vezes, desfaz a mentira e a hipocrisia, e faz emergir a verdade dos fatos, é interessante observar como um homem da importância de Martim Gonçalves sofre, na velha província da Bahia dos anos 50, a mais severa perseguição e, até hoje, não fossem os esforços de Jussilene Santana, em sua pesquisa perfuratriz sobre o teatro baiano publicado no imprescindível livro "Impressões Modernas - Teatro e Jornalismo na Bahia", não se saberia de episódios que, antes de serem ilustrativos da efervescência criadora, mais servem para denegrir a imagem de certos "homens de cultura" que deram as cartas naquele cenário de "avant-garde" na feliz expressão do ensaísta Antonio Risério.

Peça na mostra no Solar Ferrão em Salvador
Foto: Ana Paula Sousa/Terra Magazine
Se todos os homens possuem acertos e desacertos, Martim Gonçalves tem mais os primeiros do que os segundos, pois criou uma mentalidade moderna, uma concepção madura, para um incipiente teatro que cresce e se estabelece sob as suas coordenadas. Alguns que o detestam, dizem-no um déspota ou até mesmo um ditador. Outros reconhecem a sua lúcida percepção da literatura dramática e sua perfeita inclusão numa província acanhada, como a da Bahia, que, por causa dele, e de muitos outros, faz surgir, nas décadas de 50 e 60, um movimento cultural e erudito de insólita importância no panorama das artes nacionais.
Convidado pelo reitor Edgard Santos (outro que tem opositores radicais, mas que consegue dar uma transformação radical no direcionamento da Universidade Federal da Bahia para as artes com a criação não somente da Escola de Teatro, mas do Seminário de Música, Museu de Arte Moderna etc), Martim Gonçalves, de origem pernambucana, com residências de estudo no exterior e no sul do país, toma a frente da Escola de Teatro desde o seu nascedouro. Com o passar do tempo, no entanto, uma dissidência dá origem ao Teatro dos Novos (liderado por João Augusto) que tem como sede o Vila Velha.
Mas não estamos aqui para contar a história do magnífico teatro que se estabelece na Bahia nos anos 50. O "móvel" do artigo é denunciar uma omissão que muito esclarece o preconceito vazio, a hipocrisia e a mentira em torno do nome e da pessoa de Martim Gonçalves. O livro de Jussilene Santana vem ao encontro dos esclarecimentos necessários e, neste sentido, desmistifica fatos que se encontram assentados.
Conta a autora de "Impressões Modernas - Teatro e Jornalismo na Bahia", que o nome de Martim Gonçalves é omitido de importante exposição, embora tendo sido ele o principal autor da pesquisa. Segundo as palavras de Jussilene, "nas investigações para o livro, vasculhando aquela centena de jornais antigos, entre tantas coisas fascinantes, acabei por descobrir uma informação. A autoria do início do acervo "Nordeste de artefatos populares", exibido na V Bienal de SP (1959) e mais tarde desdobrado no famoso Museu de Arte Popular da Bahia, foi de Martim Gonçalves e não de Lina Bo Bardi como até hoje se acredita."
E é ainda Jussilene Santana quem diz: "O imaginário intelectual soteropolitano, após série de desavenças com o diretor Gonçalves, riscou seu nome do evento, atribuindo sua organização APENAS à arquiteta italiana. Curioso é que tal procedimento teria começado já em 1961, quando a própria Lina então vem à público defender Martim, em carta fotografada e já anexada em meu livro e transcrita logo abaixo para você".
Mais: Tudo isso poderia ser apenas águas passadas de um tempo confuso, mas o equívoco persiste, com gravidade para a escrita de nossa memória. Neste primeiro semestre de 2009, a Exposição "Fragmentos: Artefatos populares, o olhar de Lina Bo Bardi", ainda em exibição no Solar do Ferrão, está sendo divulgada nos jornais como o "acervo garimpado por Lina Bo no NE e cuja mostra foi exibida pela primeira vez no evento Bahia no Ibirapuera, durante a 5a Bienal Internacional de São Paulo", como atestam várias reportagens, em especial as dos jornais 'A Tarde', 'Folha' e 'Estadão'."
A própria Lina Bo Bardi, num gesto de coerência, escreve uma carta para o jornal soteropolitano 'A Tarde' à procura de esclarecer as omissões em 6 de setembro de 1961. Que vai aqui, por histórica, na íntegra:
"Senhor Redator de UNIDADE numa nota da edição de 04 do corrente dessa página universitária, assinada por R.Andrade, houve a afirmativa de que Lina Bardi "planejara e preparara" a Exposição Bahia na 2ª Bienal de São Paulo.
A nota, por seu caráter pessoal não mereceria retificação se UNIDADE não fosse um órgão dos estudantes que de mim tem toda amizade.
Creio ser meu dever, assim, procurar desfazer graves equívocos que informações mal recolhidas podem causar no desenvolvimento dos legítimos valores que atuam na luta pela cultura na Bahia.
A Exposição Bahia apresentada na V Bienal de São Paulo (e não na 2ª, como disse o articulista) e que tanto despertou o interesse dos meios artísticos e sociais do Brasil e do estrangeiro foi pensada, planejada e realizada pelo diretor da Escola de Teatro da Universidade da Bahia, prof. Martim Gonçalves, que procurou revelar, com meios estéticos de uma apresentação "teatral" as raízes populares da cultura baiana, em contraste com as correntes de importação que caracterizam a grande manifestação paulista.
Minha colaboração foi especialmente na parte arquitetônica, estreitamente ligada ao conteúdo da Exposição. A descoberta daqueles elementos da cultura baiana, por mim antes desconhecidos, fora resultado de minha aceitação de dirigir o Museu de Arte Moderna da Bahia.
Solicito à consciência que tanto define as novas gerações intelectuais a publicação desta carta na página de UNIDADE onde a nota acima comentada foi publicada, porquanto esta retificação constitui para mim um ato de ética profissional, rigorosamente necessário.
Com agradecimentos
Arquiteta Lina Bardi"
"A verdade, toda a verdade"! (Diderot).
Fale com André Setaro: andre.setaro@terra.com.br
Terra Magazine