Terra Magazine

› Terra Magazine › Colunistas › Ronaldo Correia de Brito

Quarta, 12 de agosto de 2009, 07h37

Pobres todos nós

Ronaldo Correia de Brito
Do Recife (PE)

A quem interessa ouvir isso?

Paula Fox começa o romance de estréia com essa pergunta instigante, uma frase isolada, sem nexo aparente. Já que os leitores não respondem, é o personagem George Mecklin quem afirma para si mesmo que não interessa a ninguém. A pergunta se isola da narrativa, suspensa e injustificável, até que no final do livro George Mecklin se dispõe a narrar sua história a Harvey Walling, um professor de matemática, colega de trabalho. É como se o livro voltasse ao começo para responder o que fora perguntado. O leitor poderá retornar à primeira página ou simplesmente fechar os olhos e imaginar-se o professor de matemática Walling, dispondo-se a escutar George Mecklin. Não é preciso folhear páginas nem gastar os olhos, apenas rememorar o que acabou de ler.

Paula Fox não pergunta: A quem interessa ler isso? Ela e o seu personagem George carecem de ouvintes, um psicanalista, talvez. Eles querem falar, eles precisam ser ouvidos. A pergunta também questiona se vale a pena prosseguir a leitura ou se é bastante ficar na primeira frase do romance. A quem interessa ouvir isso? A você? A mim? Mesmo que se descubra que o livro não é um exercício prazeroso e divertido, segundo sugere Nick Hornby na campanha pela sobrevivência da leitura como forma de lazer, compensa ler Pobre George. Pelo menos não esbarramos nos experimentos literários que tanto apavora Hornby. Paula Fox refere-se à sua escrita, numa conversa com Ubiratan Brasil, como variação das próprias experiências, um saber sobre si mesmo.

Quando Pobre George foi publicado em 1967, fazia dois anos que os Estados Unidos haviam mandado tropas para a Guerra do Vietnã, de onde saíram derrotados em 1973, com a perda de cinqüenta mil soldados, o que é insignificante se comparamos com os seis milhões de vietnamitas e cambojanos mortos. A "Síndrome do Vietnã" refletiu-se na cultura, na política externa, nas pessoas comuns. Em 1967, o movimento de oposição à guerra dividia a sociedade americana. Ainda faltavam seis anos para a retirada vergonhosa das tropas, mas o vírus da "Síndrome" escapara da incubadora e contaminava escritores, cineastas, compositores, cantores, gente mais predisposta a sentir os efeitos das grandes crises.

Ainda em pleno movimento de contracultura, que pregava a mobilização e a contestação social, os artistas viviam a frustração de ficarem à margem de decisões como a de entrar ou não entrar na Guerra do Vietnã. Havia a consciência do poder limitado da arte, alternativa e marginal como pregavam os hippies. Explodiam protestos por todas as partes da América, mas nem os megahertz sonoros do Festival de Woodstock, em 1969, chegavam aos ouvidos da Casa Branca.

A América que Paula Fox retrata em Pobre George se insere nesse período de transformação. Ela já não possui a "juventude flamejante" nem o glamour da literatura de F. Scott Fitzgerald, na década de 1920. George Mecklin é um professor de inglês, casado há alguns anos com Emma. Eles se mudaram para uma minúscula e desconfortável casa de campo, nos arredores de Nova Iorque. Emma tem um emprego modesto e sempre viveu em cidades. Os dois sofrem de uma infelicidade crônica na relação sem sexo e sem filhos. Vez por outra uma nesga de luz incide sobre George e ele sente um impulso de mudar, de ser feliz, de viver diferente. Mas são ataques passageiros em meio ao desânimo crônico. George olhou para as janelas de seu quarto. Por trás delas começava o desmantelo de sua vida, no centro do qual respirava sua mulher, encolhida na cama do casal e cercada pela desordem de sua casa - uma carroça de ciganos, pensou. Era o que ele havia acumulado ao longo de sua vida, sua pilha de realizações. Ele mesmo havia feito sua pilha. Não era uma pilha de dinheiro. Na melhor das hipóteses, jamais receberia acima de 8 mil dólares por ano pelo resto da vida profissional.

Os visinhos de George e Emma são casais patológicos, mesmo os que aparentam normalidade como Minnie e Charlie Devlin, que possui bom faro para cultura e felicidade. Charlie é um típico americano paranóico, dos que falam: Nunca deixe a porta aberta. Nunca! Eu mantenho uma espingarda sempre ao alcance da mão. Limpo-a toda semana. Os Palladino são outros desgraçados: Marta vive embriagada, a casa no mais absoluto desmazelo, as duas filhas pequenas nuas e abandonadas; Joe, o marido, um ator fracassado e um conquistador barato. Lila, a irmã de George, é depressiva, não se ajusta aos empregos e se envolve com Joe Palladino. Bem Twerchy fala igual a uma locomotiva descarrilhada e oprime a esposa Maralin. Como observa George sobre si mesmo e as pessoas à sua volta: Todo mundo estava bêbado. Todo mundo que ele conhecia estava bêbado. Ele se sentia inválido e perguntava quando seria alimentado.

Surge Ernest nas vidas de George e Emma. George o encontra num dos quartos da casa, quando retorna do trabalho. Aparenta 18 ou 19 anos, usa um chapéu e afirma que não pratica roubos, apenas gosta de bisbilhotar os interiores das casas alheias. Após o terror inicial, George investiga a vida de Ernest, descobre que ele abandonou a escola, e se propõe a ajudá-lo. O leitor fantasia motivos para a atração de George por Ernest.

No romance, ninguém se interessa sinceramente pelo outro, os vínculos entre as pessoas são frágeis, não se sabe de que modo as relações se sustentam. Ernest passa a visitar a casa e recebe aulas de George. Emma não suporta o rapaz, sente medo dele. Um leve transtorno se opera na vida de George, desde a chegada de Ernest. Nada que sugira sentimentos elevados, um novo sentido para a existência do professor. Demora-se a compreender quem é Ernest, até que o próprio George confessa que na verdade ele tentara abraçar Ernest apenas para manter as mãos do rapaz longe de seu pescoço e que não havia sentido coisa alguma pelo rapaz a não ser medo.

Mas até que apareçam essas verdades, ocorre um assassinato por espancamento, um vizinho atira no outro e revela-se a fragilidade de um país que se imaginou perfeito. Quando os astros da música pop cantavam que o sonho acabou, Paula Fox prenunciava uma nova literatura. No rastro dela, um novo cinema. Em Pobre George também chovem rãs como no filme Magnólia e soam os mesmos estampidos de Beleza Americana.

Ronaldo Correia de Brito é médico e escritor. Escreveu Faca, Livro dos Homens e Galiléia.

Fale com Ronaldo Correia de Brito: ronaldo_correia@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

Terra Magazine

 
Divulgação
Pobre George, por Paula Fox, publicado em 1967

Exibir mapa ampliado

Tags

O que Ronaldo Correia de Brito vê na Web

Favoritos

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol

Argentina Chile Colômbia Equador Estados Unidos México Peru Venezuela