Atualizada às 13h56 Hernán Reyes
Buenos Aires, Argentina
"O Comitê Executivo resolveu, por unanimidade, na presença de 102 pessoas, rescindir o contrato com a empresa TSC. A partir das 20h40, a AFA está aberta para futuras negociações para vender ao preço que o futebol vale os direitos que surjam dele. O motivo é a falta de cumprimento de contrato da TSC pelo desgaste no relacionamento". Com essas palavras, o porta-voz da Associação Argentina de Futebol (AFA), Ernesto Cherquis Bialo, pronunciou o primeiro discurso da nova era do futebol argentino.
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A rescisão do contrato que até ontem unia a AFA à empresa dona dos direitos até 2014 se converte no fato futebolístico mais importante dos últimos anos, a partir do mais que seguro acordo que alcançariam nos próximos dias o Estado argentino e a AFA. Um final inesperado há semanas, mas que foi tomando força com o passar dos dias, para um negócio de mais de US$ 200 milhões anuais. "Um futebol sem discriminação e, dentro do possível, absolutamente gratuito", a partir de agora, como foi definido na AFA.
No que se refere ao estritamente futebolístico, Cherquis afirmou que o campeonato começará no próximo dia 21 de agosto, uma semana depois do previsto, independentemente de que cheguem ou não as propostas pelos direitos de televisão. A AFA não só é proprietária dos direitos dos mais de 35 jogos disputados por fim de semana, nas divisões principais, mas também entram na rescisão os jogos da seleção argentina.
A partir da rescisão, a AFA "se responsabilizará pelas consequências desta ruptura de relacionamento contratual com a empresa que tem a licença dos direitos de televisão, TSC", explicou Cherquis Bialo. Assim, esclareceu uma das incógnitas que colocou em dúvida até o último momento a decisão de Julio Grondona, o manda-chuva do futebol argentino, que temia enfrentar questionamentos judiciais em virtude da decisão. De fato, nas palavras de Bialo se nota parte do que certamente será a estratégia legal da AFA: culpar a TSC pela rescisão do contrato.
O panorama futebolístico argentino começou a convulsionar há algumas semanas, quando os clubes, asfixiados pelas dívidas com jogadores (30 milhões de pesos, cerca de US$ 8 milhões) e pelo fisco (300 milhões de pesos, cerca de US$ 80 milhões), começaram a pedir mais dinheiro à AFA. De fato, o fator econômico também foi mencionado por Bialo. "O futebol está lutando por uma receita maior para hierarquizar os campeonatos", disse ontem à noite o chefe de Mídia da AFA.
Diante do pedido dos clubes, Grondona, exigiu então um aumento a Tele Red Imagen S. A. (TRISA) e Televisión Satelital Codificada (TSC), as empresas proprietárias dos direitos até ontem, ambas com participação do Grupo Clarín. As empresas tinham contrato até 2014 por cerca de 200 milhões de pesos anuais (cerca de US$ 50 milhões) e Grondona quis aumentar a cifra para 600 milhões de pesos (cerca de US$ 150 milhões). Mas do outro lado não deram o braço a torcer e então começou a surgir uma ideia que parecia distante, dias atrás, mas que já é uma realidade: rescindir o contrato e ceder ao estado a totalidade dos direitos.
Com o passar dos dias, a AFA colocou-se à frente e garantiu: "Chega de baixar a febre, é hora de curar o doente", decidida a tomar o problema das dívidas pelo colarinho. Conforme a Terra Magazine verificou, o dia D foi a segunda-feira passada, quando Grondona colocou em funcionamento a engenharia financeira para rescindir unilateralmente o contrato e reuniu-se, no seu apartamento em Puerto Madero, com os três advogados de peso da AFA. Ali preparou o terreno para enfrentar o maior temor dos clubes, instalado por rádios, jornais e canais do Grupo Clarín: os riscos de uma demanda judicial que custe ao futebol milhões e milhões de dólares pela decisão.
Em função do conhecido enfrentamento entre o governo argentino e o Grupo Clarín, as especulações foram aumentando. De fato, os rumores de encontros e ligações entre o manda-chuva do futebol e importantes funcionários do Governo kirchnerista passaram de leves a fatos concretos nos últimos dias. O último encontro teria sido semana passada, na Quinta de Olivos. Golpear o Grupo em um de seus principais negócios seria a jogada mais arriscada do Governo, que antes deve resolver um importantíssimo problema legal.
Agora, como foi aceito o vínculo entre Grondona e o Governo? Os laços entre Don Julio e o poder K foram amarrados por ativos dirigentes sindicais, que visitaram assiduamente a AFA nos últimos tempos. Eles teriam facilitado os diálogos entre a AFA e Olivos, que ultrapassaram as meras comunicações telefônicas.
De fato, o titular Central Geral dos Trabalhadores da Argentina, Hugo Moyano, próximo do governo e do Clube Independiente, assinou há alguns dias um comunicado com o título "O futebol é para todos", no qual "a CGT apoia a decisão de que a transmissão dos jogos dos torneios da AFA chegue gratuitamente a todos os lares argentinos". Finaliza o texto dizendo: "Se para isso é necessária a ação reguladora do Estado, seja bem-vinda".
O futuro. Conforme a Terra Magazine verificou, enquanto a AFA espera a chegada das novas ofertas, a primeira medida seria criar uma empresa mista entre o Estado e a AFA para a comercialização dos direitos durante 10 anos e o Governo daria 6 bilhões de pesos na próxima década. Nessa empresa a AFA e o Governo compartilhariam a diretoria e os lucros. Os 600 milhões de pesos por ano são o piso que o Estado garante.
No entanto, Cherquis Bialo garantiu ontem à noite que não existe nenhum acordo entre a associação e o Canal 7 para televisionar os jogos dos torneios argentinos de agora em diante. "Desminto qualquer acordo entre a AFA e o Canal 7", manifestou o porta-voz, esclarecendo que o novo vínculo para televisionar os torneios argentinos se fará "com quem mais dinheiro oferecer de acordo com o que o futebol precisa".
Parte do aporte do Estado poderia chegar pelo perdão da dívida que o futebol mantém com a AFIP, que chega aos 300 milhões de pesos.
Nesse esquema, o espectador futebolístico poderá ver os jogos pela televisão sem pagar um centavo. Coincidentemente, o golpe político mais forte que Néstor Kirchner deu com esta jogada. Desaparece, assim, o sistema de "gols cativos" (atualmente não podem passar os gols dos jogos antes que passem no Canal 13 em Fútbol de Primera) e o Pay per View do sistema de TV paga, que tem pouco mais de 800.000 clientes.
De forma imediata, se no dia 21 de agosto voltar o futebol, os primeiros seis jogos da data serão transmitidos pelo Canal 7 e os outros quatro pelo canal estatal de TV a cabo Encuentro. Seja qual for a proposta escolhida, a ideia que predomina a estas horas, tanto na AFA quanto no Governo, é a de que os jogos do Boca e do River, os dois clubes com mais seguidores, sejam transmitidos por um canal aberto.
Como era o negócio até hoje? Em termos específicos, cada empresa televisiva conta com uma função: Torneos y Competencias produz os jogos (provê os caminhões satélites e se encarrega da direção de câmeras, entre outras questões), enquanto a comercialização, a cargo da TSC, se reparte entre ambas as empresas.
O produto terminado - os jogos de futebol que o telespectador assiste - chega através do TyC Sports, o canal esportivo de propriedade da TyC e do Grupo Clarín, e do TyC Max, o sinal codificado que comercializa a TSC e vende aos canais de TV a cabo, como CableVisión, Multicanal, DirecTV ou Telecentro. Acontece algo curioso no caso de CableVisión ou Multicanal: se vende e se paga a operação no mesmo escritório. O Grupo Clarín, dono da metade da TSC, entrega os cinco jogos de cada data ao... Grupo Clarín.
Por este motivo, a Comissão Nacional de Defesa da Concorrência (CNDC) recebeu várias denúncias contra a TRISA e a TSC porque, supostamente, se negavam a vender os seus serviços aos diferentes operadores de TV a cabo em benefício de CableVisión e Multicanal.
Debates de um negócio que embolsava cerca de 750 milhões de pesos por ano, sem contar extras por publicidade e repetições, mas que seguiam gerando clubes pobres e empresas ricas.
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