Paulo Costa Lima
De Salvador (BA)
Qual a emoção veiculada por aquela tradicional canção infantil 'atirei o pau no gato'? Podemos mesmo falar de uma emoção, ou seriam várias? Devemos aderir à antiga noção de que a cada música corresponde um determinado afeto?

O hino de Senna: Da euforia à tragédia
Na verdade, música não tem emoção - nós humanos é que as temos, na presença de acontecimentos sonoros. O fenômeno é complexo, envolvendo uma negociação entre o repertório de referência de quem ouve e aquilo que está sendo ouvido.
Algumas vezes tudo depende do receptor. Lembro que o famoso tema de Ayrton Sena expressava a alegria da vitória, a euforia de ter vencido um enorme desafio. Mas, depois de sua morte, o tema passou a evocar uma dimensão trágica, que certamente não existia antes.
Não é que tenha surgido do nada. Nas próprias inflexões da euforia de antes, a nossa releitura encontrou respaldo para fincar a percepção da tristeza e da tragédia. Hoje ouvimos tudo misturado. A música em si não mudou - mudamos nós.
Portanto, músicas são verdadeiros novelos de emoção, guardando toda a história do envolvimento do ouvinte com o objeto sonoro. Não existiria, dessa forma, alegria ou tristeza puras, são muitas emoções, e olhe que nem estou citando o Roberto.
Voltemos ao gato. Sendo canção de roda, deveria traduzir emoções simples. As crianças se identificam de imediato com ela, desde o primeiro gesto. Aliás, está justamente nesse primeiro gesto uma alegria cinética especial. A alegria de ser capaz de atirar um pedaço de pau pra longe - coisa que as crianças pequenas adoram. É o único lugar da canção que flexibiliza a presença do tempo forte (no segundo tempo).

Trata-se, diria Freud, do impulso sádico como energia constitutiva do eu infantil - e a morte do gato como uma fantasia de onipotência, negada pela realidade. É a única explicação para a formulação adversativa 'mas o gato, não morreu'. Para o personagem infantil, atirar um pau pra longe tem essa potência presumida.
Porém, logo depois dessa flexibilização ocorre uma fixação excessiva do tempo forte, que parece garantir adesão total dos pequenos, uma verdadeira aula de marcação: ga-to-tô / rêu-rêu-rêu / chi-ca-cá...
Mas qual o papel de Dona Chica? Aparece de repente na canção como se fosse conhecida de todos. Obviamente seu papel é admirar-se. Ou melhor, assustar-se com o ocorrido. Seu nome tem o peso de uma testemunha acima de qualquer suspeita.
Mas a verdade é que acaba introduzindo a diferença (o espanto) no discurso musical: surge com um salto melódico de sexta, algo muito diferente da orientação anterior, toda por grau conjunto. Também interrompe a descida gradual (schenkeriana) que teve início na nota sol (sol / fa / mi...), levando a melodia a subir antes de sua conclusão em dó.
A melodia vai migrando da familiaridade do início para uma representação do espanto que domina o final. Trata-se, dessa forma, da construção sorrateira no ouvinte-cantante do mesmo susto que apavora o gato.
Esse final escandaloso domina emocionalmente a canção, pois é o ponto para o qual todo o discurso converge (inclusive o musical). Afirma e nega simultaneamente a onipresença do tempo forte, dá conseqüência ao espanto anunciador de Dona Chica, e libera a adrenalina do berro final (numa espécie de contratempo).
Se o início da canção está focado na força ativa, de dentro para fora, o final faz o percurso contrário, desemboca na recepção. De todas as emoções possíveis, fico com a mais correta politicamente: a descoberta fascinante de que aquilo que afeta o gato também me afeta.