
Vinicius Jatobá
Do Rio de Janeiro
O legado de Faulkner é amplo, mas possui uma peculiaridade: tirando alguns poemas e artigos para jornais - escritos na urgência da luta pelos direitos civis, na década de 1950 -, toda obra de Faulkner é essencialmente narrativa. São 17 romances e quase seis dezenas de relatos. Não há ensaios que indiquem diretamente sua poética, nem comentários críticos (resenhas e artigos) sobre outros escritores que revelem, de forma tangencial, o que se passava na sua mente criativa. Sua correspondência mais farta é para sua mãe, escrita nos meses em que viajou pela Europa quando tinha 26 anos, e nessas cartas Faulkner ainda não sabia que era Faulkner. O restante de sua correspondência, mesmo no auge de sua fama, fala de seus assuntos prediletos: bebida e dinheiro. Não há nele cartas chorosas sobre crises criativas; quando muito, a única confissão que comete é financeira, geralmente tentando arrancar adiantamentos de agentes e editores. Sempre dinheiro, dinheiro, dinheiro; nisso também se assemelha a Balzac.
Dessa forma, tirando o interessante prefácio à segunda edição do romance O Som e a Fúria, onde ele praticamente faz um plágio criativo de um prefácio muito admirado de Conrad, são escassas as explicações de Faulkner ao seu próprio trabalho. E quando o explica, como na entrevista que deu a Paris Review, é jocoso e irônico, falando por meio de lugares-comuns e sempre levando para o mundo do trabalho manual e prático aquilo que outros autores explicam com afetação e enfado. Dessa forma, e ao contrário de outros grandes escritores, o contato com o mundo de Faulkner se dá direto pelo seu universo ficcional - não há atalhos, não há mapas, ensaios indicativos, pequenas piscadelas sugestivas: a missão do leitor é entrar na floresta indistinta e se emaranhar no seu material obsessivo e vigoroso. Aprende-se a ler Faulkner lendo-o: como ele mesmo afirmou certa vez, se não entendeu na primeira leitura, repita-a - está tudo ali.
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De uma forma geral, abrangente, o universo de Faulkner se desenha sobre temas sempre rematizados por caminhos distintos. Usando um artifício de Balzac, Faulkner cria um mundo ficcional onde as personagens transitam entre os livros. Determinada personagem pode ser narradora num trecho de um romance, surgir rapidamente num conto, para depois ser a ouvinte de uma estória qualquer numa taverna ou bar em uma novela. O condado de Yoknapatawpha é o cenário dessas estórias; a cidade do condado chama-se Jefferson, e todo esse mundo é alimentado pela mitologia do grande rio Mississipi. É uma metáfora vivaz do Sul Profundo - o espaço crivado pelas cicatrizes da grande guerra civil americana e que traz a marca dessa morte radical e abrupta de toda uma ordem vertical e bem-estabelecida: a humilhação de uma tropa militar que por um século foi o orgulho do país, a derrocada das famílias aristocratas que reuniam em suas mãos o poder econômico e político da região, e uma ordem agrária destroçada e desarticulada e se modificando numa América que de repente desejou esquecer muito rápido um sistema que por muito tempo a sustentou.
Como Balzac, Faulkner também se ocupa em criar as mais diversas personagens: em sua obra retrata todas as classes sociais, e há espaço tanto para os parias e mendigos como para os negros e os índios e antigos aristocratas e filhos de generais e pastores, políticos; tem a voz crianças, mulheres, loucos, tarados, maníacos, e bem-humorados comerciantes e caixeiros-viajantes, fazendeiros, mestiços, donos de vendas e quitandas, filhos bastardos. Seus temas são obsessivos, suas personagens neuróticas, seus narradores confusos e passionais: a casa desfeita pela guerra (The Unvanquished), a honra maculada pela covardia (The Bear; O Som e a Fúria), a perversão e violência sexual (Sartoris; Santuário), o drama da cor negra (Absalão, Absalão; Luz em Agosto); a modernização da economia e o poder que deixa de ser articulado pela terra ou posição militar e se organiza ao redor apenas do dinheiro (Absalão, Absalão; a trilogia Snopes); o choque cultural do elemento estrangeiro (Intruder in the Dust), a impossibilidade de diálogo entre as diversas classes sociais (a novela Palmeiras Selvagens), a dificuldade da aristocracia em lidar com seu novo lugar na sociedade (O Som e a Fúria); a mitologia do Mississipi (The Reivers), a força da natureza (a novela O Velho, em Palmeiras Selvagens); a hipocrisia e moralismo (Requien for a Nun); a imensa autoridade da religião (Luz em Agosto); a impossibilidade dos negros (e índios) em se reintegrar à sociedade após da abolição (Go Down, Moses); e o conflito entre os valores aristocráticos rurais e aqueles professados pelo norte liberal e democrático (Absalão, Absalão; O Som e a Fúria). A ruptura abrupta e violenta da ordem militar e latifundiária e seus coronários que se manifestam até mesmo décadas após o fim da guerra civil - esse é o conflito motor de todo panorama social que Faulkner criou.
A publicação de Luz em Agosto cria uma nova oportunidade para a aproximação dos leitores. É provável que não seja seu melhor livro, pódio esse ocupado pelo selvagem, contagiante e desesperante Absalão, Absalão, o livro mais obsessivo do mundo. Porém, é certo que junto de Enquanto Agonizo, Luz em Agosto é a melhor porta de entrada para o árido universo da obra de Faulkner. É um romance eminentemente político (Faulkner é um escritor engajado) - um olhar demorado e amplo sobre o racismo e preconceito na sociedade sulista americana. Não é ingênua a introdução nesse mundo romanesco pelos olhos esperançosos de uma menina grávida - Lena Grove. Ela vem de muito longe, desconhece a história da cidade, seu olhar será o mais próximo ao do leitor quando as coisas mais horríveis começarem a acontecer após as primeiras duas centenas de páginas dimensionarem a mente e passado de todas as principais personagens da trama. O tema do romance pode ser a impossibilidade de escapar do seu passado; como ele o encontrará não importa para onde se escape. Quando o motor do romance parece ser a busca de Lena ao pai de seu filho, que a leva até a cidade de Jefferson, percebe-se que a energia do livro virá do solitário e misterioso Joe Chistmas, outro forasteiro cuja vida pretérita ocupará uma parcela significativa do romance: sua vida no orfanato, o desconhecimento de sua origem e a tortura mental de não saber se é verdadeiramente negro, se possui sangue negro.
Ele vive com uma mulher mais velha que ele, Joanna Burden, neta de abolicionistas, o que a faz odiada pela cidade; Joe Chistmas, de certa forma, pagará na carne o preço desse ódio e preconceito quando Joanna é assassinada, logo no início do romance - o crime não será resolvido, e de certa forma o importante é o que ele revelará de mesquinho e selvagem no coração da população da cidade: a cor negra só pode ser a única culpada, sempre. Byron Bunch, um homem que logo se apaixona por Lena Grove, é outro olhar importante do romance, já que é ele que lhe apresenta a cidade e cuida dela; e é ele que tentará poupar a menina do espetáculo cruel do mundo ao seu redor. Outra personagem central é Gail Hightower, reverendo marginalizado pela cidade e expulso da igreja em decorrência de um escândalo envolvendo sua esposa. Ele vive na cidade, apesar de ser ignorado por seus habitantes; é um homem amargo e sem esperanças, descrente de sua fé e que vê a vida passando sem de certa forma participar dela. É ele que será o elo entre as duas outras personagens principais, o homem que poderá agir para ajudá-las, e será por suas mãos que o filho de Lena virá ao mundo.
Há em Faulkner uma dívida evidente à tragédia grega e a retórica bíblica: destino, fatalidade, fortuna - o narrador faulkneriano se assemelha em muito ao coral da tragédia: são os olhos que sabem o que acontecerá, que narram com a energia focada em um desfecho que se torna logo, para apreensão do leitor, evidente demais. Ninguém escapa de seu passado; ninguém escapa do seu sangue; os filhos pagam os erros dos pais; só a dor gera lucidez e sabedoria. Muitas das técnicas de Faulkner estão nesse romance, destiladas numa retórica que mistura tanto o gênero da narrativa de formação (a peregrinação de Joe Chistmas e sua educação) como certas convenções do romance policial (o acumulo de tensão, a omissão de certas informações, o mistério da trama). Se o leitor em Enquanto Agonizo terá contato com as potências na narrativa em primeira pessoa (cada capítulo é narrado por uma personagem), Luz em Agosto é o apogeu da narrativa em terceira.
É impressionante a técnica de Faulkner: cada capítulo se inicia com um corte abrupto do anterior e o narrador, apesar de conhecer tudo que ocorre, sempre se aproxima da mente de uma personagem e filtra o mundo que lhe cerca a partir de sua perspectiva e experiência particular: uma narrativa em terceira pessoa com interiorização mental. Muitas vezes, quando narra o passado de determinada personagem (como no brilhante capítulo 3, que conta a vida do reverendo Hightower pelo que Byron Bunch escutou dos outros, uma estupenda aula de literatura), Faulkner opta pelo relato indireto de uma pessoa que presenciou aquela vida, e que de certa forma a narra também de sua experiência - seus valores, aquilo que crê, seus preconceitos e expectativas. Esse acúmulo de diversos olhares e modos de viver é que cria a riqueza das personagens - nunca temos qualquer afirmativa sobre o que ela é já que as fontes podem, simplesmente, estar mentindo (algo que ocorre muito no mundo de Faulkner); também o que sente é dúbio já que sempre se escuta a interpretação do narrador ou de alguma testemunha que imagina os pensamentos que chegam ao leitor apenas por retalhos, frases em itálico soltas e rápidas, sem pontuação. Um terreno movediço onde o leitor nunca está numa posição confortável - ele também busca na trama tênue a verdade, ele monta o romance, junta as pistas que o narrador vai expondo de forma desordenada. Não apenas os livros de Faulkner são diferentes entre si; no corpo de um romance, geralmente, a retórica muda de capítulo em capítulo: é como se cada personagem demandasse uma abordagem diferente, não apenas na técnica como no vocabulário e ritmo de pensamento.
Faulkner não apenas eleva a potência dessas vozes; ele as faz ter coerência, reconhece seus limites, vê nelas o que do mundo lhes importaria realmente, e lhes dá algo fascinante: a impressão que aprendem conforme vivem a estória, porque é muito visível a maneira como vão mudando ao longo do romance. Nenhuma dessas personagens de Luz em Agosto termina da mesma forma que iniciou o livro - a maternidade transforma a menina Lena em mulher; o amor de Byron Bunch retira de seu coração o peso do egoísmo, ter vidas tão frágeis em suas mãos fazem que o reverendo Hightower reencontre sua fé, e até o pobre e macerado e devastado Joe Chistmas encontra na dor uma redenção que dá sentido à sua vida repleta de buscas frustradas. De certa maneira, o leitor também muda ao ler Faulkner - a relação que se estabelece com as personagens é inusual: pelo acúmulo, pela convulsão, o leitor em retrospecto acaba por ver que todos os nós se reúnem; afinal, ler Faulkner é conhecer a dor do próximo, e se ver nela. Uma experiência de leitura muito diferente da convencional - o melhor da tradição realista deformada pela urgência visceral dos sentidos.
Terra Magazine