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Sexta, 14 de agosto de 2009, 07h58

A garota de programa mais famosa da Itália

Vera Gonçalves de Araújo
De Roma

Até alguns anos atrás, o clube dos correspondentes estrangeiros em Roma era lugar fundamental para saber de notícias, fofocas, bastidores e códigos secretos sobre a vida política italiana. Hoje em dia, em tempos de internet, twitter, friendfeed, blogues e facebook, o clube está quase deserto. Os jornalistas são raros. O que não falta é uma estranha fauna de "procuradores": fotos, entrevistas "exclusivas", furos. Tudo à venda, naturalmente.

O assunto é um só: a vida sexual do presidente do conselho Silvio Berlusconi. Tem muita gente faturando com as revelações das garotas de programa contratadas para animar as festinhas do chefe de governo. Como os jornais italianos estão muito cautelosos, com medo de processos por calunia e - principalmente - de falsas revelações bombasticas, a imprensa estrangeira é o alvo privilegiado das ofertas dos "procuradores". Acham que os jornais estrangeiros têm menos escrúpulos, menos tabus, maior liberdade de expressão nesse caso.

Um deles me ofereceu uma entrevista "exclusiva" com a senhora Patrizia D'Addario. Foi a moça (42 anos) que levantou a tampa do panelão, contando as duas noites que passou na casa do chefe do governo italiano. Dona Patrizia gravou e fotografou tudo, já pensando no futuro. Disse que não ganhou dinheiro, mas "só" uma promessa de candidatura nas eleições, nacionais ou européias. Acabou candidata para o conselho municipal de Bari, ganhou seis votos e não foi eleita.

Explico ao "procurador" que os jornais brasileiros não têm o costume de pagar por entrevistas. Mesmo "exclusivas". Só nas últimas duas semanas, já li umas dez entrevistas "exclusivas" da dona Patrizia, em vários jornais europeus. Em todas, repete as mesmas coisas que já disse à imprensa nacional e aos magistrados que investigam sobre o caso das festinhas de Berlusconi. Que o presidente tomou umas cinco duchas frias durante a famosa noite de 4 de novembro que passaram juntos. Que lhe deu alguns conselhos sobre sexo. Que não quis usar camisinha, e assim por diante.

Eu entendo porque a dona Patrizia recorre aos correspondentes estrangeiros na Itália. Ela mesma explicou: "são a minha garantia de não ser assassinada ou sequestrada". Sua porta já foi arrombada duas vezes. No primeiro furto, roubaram calcinhas e sutiãs. No segundo, cds e dvds. Ela denunciou também um acidente de automóvel provocado por um carro que estava seguindo o seu. Tem boas razões para ter medo. E ótimas razões para que a sua história seja publicada em todo o mundo. Muita gente, na Itália, está interessada em calar sua boca.

Assim, escrevo o décimo primeiro artigo da semana sobre Patrizia D'Addario. Torcendo para que ela não cale a boca, e que ninguém cale sua boca. Mas pagar por entrevista, nem com o papa.

Vera Gonçalves de Araújo jornalista, nasceu no Rio, vive em Roma e trabalha para jornais brasileiros e italianos.


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La Repubblica/Reprodução
Patrizia D'Addario diz ter recebido 2 mil euros para manter relações sexuais com o primeiro-ministro italian

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