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Divulgação
Helena Ranaldi e Leonardo Medeiros em A Música Segunda
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Deolinda Vilhena
De Santos (SP)
Se o Ano da França no Brasil é pobre em espetáculos vindos da França, ele nos oferece, pelas mãos dos malucos nacionais de plantão, nesse caso uma maluca mais do que beleza que atende pelo nome de Maria Luíza Librandi, para os íntimos Lulu, algumas boas surpresas. Graças a ela, o Rio de Janeiro acaba de aplaudir a estreia de "A Música Segunda", texto de Marguerite Duras. Como toda a obra de Duras, "A Música Segunda" é imune à indiferença, afinal, Duras em cena divide opiniões, há os que a amam, e os que a odeiam.
Mas da peça, que retrata o reencontro de um casal, depois de três anos de separação, falaremos depois, quero falar de Lulu Librandi, produtora do espetáculo, mas produtora à moda antiga, posto que joga na sua empreitada a alma, a paixão, coisa rara nos dias de hoje.
Para quem não conhece Lulu Librandi, lembro que ela é produtora teatral e cultural, que foi gerente de Assuntos Institucionais do Memorial da América, Secretária internacional do Ministério da Cultura na gestão de Celso Furtado, durante a qual realizou a mostra "Modernidade Arte Brasileira do Século 20", no Museu de Arte Moderna de Paris (1986), quase 20 anos antes do Ano do Brasil na França, Lulu fez, sozinha, um trabalho superior ao feito em 2005. Foi, ainda, diretora da Funarte e do Centro Cultural São Paulo. Trabalhou junto a Raul Cortez, como co-produtora, nos espetáculos "Lobo de Ray-Ban", "Zoo Story" e "À Meia Noite, Um Solo de Sax na Minha Cabeça".
Mais recentemente, produziu "Pequenos Crimes Conjugais", do autor francês Eric-Emmanuel Schmitt, com direito a tradução de Paulo Autran e direção de Márcio Aurélio, com Maria Fernanda Cândido e Petrônio Gontijo no elenco.
"Pequenos crimes conjugais" foi bastante aplaudida nas temporadas de São Paulo e do Rio de Janeiro, fez uma turnê pelo sul do país e pelo interior paulista e, grande orgulho de Lulu, proporcionou ao público de baixo poder aquisitivo a oportunidade de assistir a um espetáculo de qualidade, com ingressos promocionais a R$ 6,00. Lulu acredita que a população não só gosta, como necessita e quer ver mais teatro. Não acredita na falta interesse ou gosto pela arte mas, na falta de oportunidade e/ou dinheiro para pagar o ingresso.
Agora ela investe a alma em "A Música Segunda", paixão antiga, nascida quando ela teve o privilégio de ver em Paris, no Teatro de La Gaieté, em Montparnasse com a deslumbrante interpretação da não menos deslumbrante Fanny Ardant. Vale lembrar que Lulu é membro de uma geração que estudou literatura no colégio e para a qual ler Marguerite Duras mais do que uma obrigação, era um prazer. Ao se apaixonar pelo texto Lulu se rendeu e, mesmo tendo que nadar contra a corrente, em tempos de teatro de riso fácil, de opulentas produções musicais, ou monólogos confessionais, ela optou pelo desafio da densidade. Queria mesmo produzir "A Música Segunda". Foram dez anos em busca da realização do sonho, sem que ela perdesse o pique e a esperança. Ela conta: "bloqueados por questões de herança, já que o único filho de Marguerite, que dizem ser de Mitterrand, brigava com Yanandrea, seu último companheiro, o processo se arrastava. E, resumindo a saga, após chegar aos agentes, através de amigos, acabei pagando, duplamente, pelos direitos de autor."
Só depois de muita batalha as coisas começaram a se encaixar: o patrocínio do Bradesco Prime, da Secretaria de Estado da Cultura, através da Sabesp e, finalmente, a Vivo, valendo-se Lei do ICMS paulista. Para assinar a obra ela encontrou "um homem de teatro completo": José Possi Neto. Lulu, conta entusiasmada que ele "dirige, coreografa, define elenco, equipe técnica e, ainda, assina a Direção de Arte. Além de coordenar tudo, o Possi até ajuda na produção. É um profissional sério, apaixonado pelo palco.Com ele, tudo se encaixou. Fechamos, finalmente, o elenco com dois excelentes atores: Helena Ranaldi e Leonardo Medeiros. Esse era o tempo, essas eram as pessoas, esse era o Ano da França no Brasil. E, por conta de tudo isso incorporou-se, a nossa equipe, o cenógrafo francês Jean Pierre Tortil e estreamos, a 5 de Agosto, no Teatro Maison de France, no Rio de Janeiro."
Marguerite Duras representa o nouveau Roman e podemos afirmar sem medo de errar que ela pertence à estirpe dos "escritores sob pressão", como Hemingway, Malraux e George Orwell, combinando a defesa de causas e liberdades a uma percepção absolutamente particular de suas experiências. Se Orwell anteviu um "futuro", no qual seríamos constantemente vigiados, Duras antecipou, nos anos 60, nossa angústia ante as dificuldades da comunicação afetiva e interpessoal. Vivemos tempos perversos, de deslumbramento com os prodígios do marketing viral e da internet. Mas, a cada dia, fica mais difícil a comunicação entre as pessoas, distanciadas pela concisão discreta e impessoal das mensagens eletrônicas.
"A Música Segunda" retrata o encontro de um casal depois de três anos de separação, viveram uma paixão fulminante, perigosa, destrutiva, doentia, ao longo de cinco anos de casamento. Separam-se não por falta de amor, mas por excesso. Segundo José Possi Neto o texto o interessou "pela sua sofisticada qualidade literária e por permitir um profundo trabalho de investigação emocional para os atores, bem como para os bailarinos. Quero construir, com eles, uma bela PARTITURA DE EMOÇÕES, digna do texto de Duras."
Lulu, tô torcendo pelo sucesso do espetáculo e não pude estar na estreia do Rio, espero não perder a estreia paulista...parabéns e vida longa à "Música segunda".
SERVIÇO
"A Música segunda"
Texto: Marguerite Duras
Direção: José Possi Neto
Com Helena Ranaldi e Leonardo Medeiros
Teatro Maison de France Psa Peugeot Citroën - Av. Pres. Antônio Carlos, 58
Informações: (21) 2544 2533
Quando: de quinta a domingo
Horário: quinta, sexta e sábado às 20h / domingo às 19h
Preços: quinta e sexta R$ 30,00 / R$ 15,00 / sábado e domingo R$ 60,00 / R$ 30,00

Apresentação das Guardas de Congo e de Moçambique
Fotos: Deolinda Vilhena
Quando Armindo Bião, nas águas do Porto da Barra me convidou para participar do VI Colóquio Internacional de Etnocenologia durante o verão passado, pensei que tal convite era resultado de uma caipirinha, e aceitei imediatamente, mesmo sem saber nada de etnocenologia, com certeza efeito também da caipirinha da D. Celina.
Confesso que quando me vi no teatro do Conservatório de Música da UFMG em meio a feras como Jean-Marie Pradier, Idelette Muzart e tantos outros, achei que essa caipirinha ia me custar caro...mas ao ver a apresentação das Guardas de Congo e de Moçambique da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário do Jatobá (Instituição tombada como Patrimônio Imaterial Cultural do Município de Belo Horizonte) resolvi que a hora era de relaxar e tomar como uma benção a possibilidade de estar ali.
O melhor desses encontros ditos científicos é o encontro com o outro, com o diferente, não por acaso a comunicação da Mônica Ribeiro - doutoranda da UFMG - me tocou tanto. Apresentada no painel, Diálogos: Etnocenologia, Etnomusicologia, Neurociências, que tinha por questão "o que as artes do espetáculo e outras áreas de conhecimento podem realizar juntas?"
Encontrei algumas respostas para minhas antigas perguntas, uma vez que desde que me entendo por gente sempre quis viver um dia que fosse a vida de um maestro ou de um bailarino para saber como o cérebro deles reage à música e à dança fiquei apaixonada pela pesquisa apresentada por ela, sem falar na pesquisa do Dr. Antônio Lúcio Teixeira, um médico num colóquio que para mim era de teatro...

Foto 1 - Dimitry Ovtchinnikoff, Sylvie Debs e Jean-Marie Pradier / Foto Cris Nery
Foto 2 - Armindo Bião, Teresa Fradique, Leda Martins e Idelette Muzzart / Foto Deolinda Vilhena
Para os que não sabem nada sobre a etnocenologia, eu mesma, por exemplo, descobri que podemos parafrasear Jean-Marie Pradier, criador da etnocenologia, para definir esta nova disciplina como "o estudo, nas diferentes culturas, das práticas e comportamentos humanos espetaculares organizados", quem quiser saber um pouco mais deve procurar ler o artigo de Cesar Huapaya (http://www.tempodecritica.com/link020110.htm).
Nesse artigo Huapaya explica que a etnocenologia tem o seu representante maior na França com Jean-Marie Pradier, que faz uma desconstrução dos termos, cultura, tradição identidade e teatro. Ligado à corrente contemporânea de antropologia, Pradier cita Jean Bazin e Marc Augé, antropólogos analíticos. Por outro lado, existe uma outra corrente ligada a Chérif Khaznadar da Maison des cultures du monde, também localizada em Paris, que estuda as práticas performativas do ponto de vista culturalista, buscando resgatar e manter o que existe de tradição na cultura. Ela estuda o teatro e as praticas performativas como metáfora da cultura, ou seja, um objeto que deve ser estudado e preservado.
Cesar continua e explica que "a etnocenologia de Jean-Marie Pradier, vai estudar as práticas performativas de diversos grupos e comunidades do mundo, tendo como objetivo principal combater o etnocentrismo, participando da construção progressiva de uma cenologia geral, que não se limita as análises dos espetáculos, mas trabalhando as questões: "Porque e como o homem pensa com seu corpo? Em quais condições um certo tipo de ação participa de uma estética? Fugindo do conceito europeu do termo "teatro", a etnocenologia vai se associar a diversas disciplinas: ciências humanas, neurociência, linguística, estética, estudos coreográficos, teatrais e as etnociências.
Enfim, o que pode parecer um papo-cabeça é na verdade um assunto mais do que interessante e só tenho a agradecer o convite que não apenas me abriu uma nova janela, mas serviu para que estabelecesse novos contatos, que já renderam frutos. Idelette Muzart me convidou para uma participação em um seminário na Universidade de Nanterre, onde falarei sobre a presença feminina no teatro brasileiro do século XX com destaque para Bibi Ferreira e Jean-Marie Pradier me ofereceu um "bureau" na Maison des Sciences de l'Homme Paris Nord, estrutura que acolhe pesquisadores em busca da promoção e difusão da pesquisa em ciências humanas e sociais instalada em Saint-Denis, subúrbio ao norte de Paris, quando dos meus estudos pós-doutorais na França. E, mesmo sem ter tomado uma caipirinha em BH aceitei os dois convites, afinal sempre acreditei no ditado "diz-me com quem andas e eu te direi quem és", andando com essas feras, um dia ainda serei uma...eu chego lá...
Obrigada Bião, obrigada Menca, obrigada Leda, obrigada Sérgio, obrigada Marcos Alexandre, obrigada Idelette, obrigada Jean-Marie, obrigada a cada um de vocês que nesses quatro dias contribuiu para fazer de mim um ser melhor, pois viver sem aprender não tem sentido...
Fale com Deolinda Vilhena: deolindavilhena@terra.com.br
Terra Magazine
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