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Segunda, 17 de agosto de 2009, 08h12

Século XX versus XXI: o direito de ver estrelas

Marcela Rocha/Terra Magazine
O acesso ao céu depende nos dias de hoje de menos poluição, diz Fabio Feldman
"O acesso ao céu depende nos dias de hoje de menos poluição", diz Fabio Feldman

Fabio Feldmann
De São Paulo

Esta semana vou escrever sobre algo aparentemente poético mas que merece uma profunda reflexão: "o direito à luz das estrelas e em defesa dos céus noturnos".

De acordo com matéria publicada no Estadão, astrônomos reunidos na 27ª Assembléia Geral da União Astronômica Internacional (IAU na sigla em inglês) resolveram defender o reconhecimento desse direito, lançando uma campanha de conscientização sobre o mesmo, o que para alguns poderia ser encarado como algo supérfluo, ornamental, despropositado.

Na minha opinião, essa campanha é absolutamente vital, uma vez que cada vez mais o mundo se torna urbano, de modo que perdemos completamente a possibilidade de usufruir de um prazer enorme revestido de absoluta simplicidade: olhar o céu, acompanhar as estrelas!

Alguns anos atrás me foi dito que quem olha para o próprio umbigo adquire a escala de um anão e quem olha para cima, a de um gigante. De fato muitas vezes, quando estamos angustiados pelos problemas do dia-a-dia, nos perdemos das questões essenciais, sendo que a energia se vai em coisas irrelevantes. Quando olhamos para cima e vemos a imensidão do céu os problemas se tornam menores.

Simples?

O acesso ao céu depende nos dias de hoje de menos poluição, valendo lembrar que na Ásia existe uma grande nuvem carregada de poluição tóxica que atinge milhares de quilômetros, e em muitas das cidades na China, a poluição do ar é tão grande que os dias são literalmente cinzentos.

No Brasil, infelizmente, vivemos situação parecida em muitas cidades grandes, o que os paulistanos conhecem bem. E aqui não estamos falando apenas da poluição luminosa. A título de exemplo, segundo o cientista Augusto Damineli, representante brasileiro do Ano Internacional da Astronomia (IYA 2009, siga em inglês), 30% da iluminação elétrica é jogada para o céu, ou seja, desperdiçada.

Se trinta anos atrás a polarização era exatamente entre esquerda e direita, hoje creio que estamos diante de dois pólos que se opõem, a visão de mundo do século XX versus do século XXI.

Não ver o céu no século passado não constituía nenhuma afronta aos nossos direitos, uma vez que a industrialização a qualquer preço era aceita como requisito para o progresso e crescimento econômico. Hoje é bem-vindo o movimento de reconhecimento de novos direitos, ainda que possa ser entendido no caso brasileiro que o mesmo está contemplado no artigo 225 da Constituição que diz que:

"Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações".

A pergunta que muitos fariam seria: é possível se assegurar o conforto dos habitantes das grandes cidades sem comprometer o direito de ver as estrelas?

Certamente é possível e até desejável. Na maioria das cidades do planeta há enorme desperdício de luz e novas tecnologias estão surgindo com melhores padrões de eficiência energética. Além disso, existe o desafio cultural de valorizar o céu e o direito de ver as estrelas, que uma vez colocado e reconhecido pela sociedade, levará a novas exigências em termos de planejamento urbano, infra-estrutura mais eficiente, enfim, temas do século XXI.

Quem sabe possamos pensar que uma das atividades de entretenimento noturno em São Paulo possa vir a ser novamente olhar o céu e as estrelas.

Fabio Feldmann é consultor, advogado, administrador de empresas, secretário executivo do Fórum Paulista de Mudanças Climáticas Globais e de Biodiversidade e fundador da Fundação SOS Mata Atlântica. Foi deputado federal, secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo. Dirige um escritório de consultoria, que trabalha com questões relacionadas ao desenvolvimento sustentável.

Fale com Fabio Feldmann: fabiofeldmann08@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.


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