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Sábado, 15 de agosto de 2009, 08h37

Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica: 2008

Roberto de Sousa Causo
De São Paulo

Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica 2008, Cesar Silva & Marcello Simão Branco, eds. São Paulo: Tarja Editorial, 2009, 166 páginas. Capa de Verena Peres.

O Anuário 2008 foi lançado em 21 de julho deste ano, juntamente com a antologia Paradigmas 3, ambas publicações da Tarja Editorial (http://www.tarjaeditorial.com.br/site)

Veja também:
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Temos acompanhado a trajetória do Anuário desde 2005, quando a iniciativa foi lançada pela dupla Cesar Silva & Marcello Branco, ainda num formato de livro amador. Agora, encampada pela dinâmica Tarja Editorial, o Anuário comparece como um livro de impressão e acabamento profissionais.

Os seus objetivos são múltiplos: fornecer uma análise do comportamento do mercado para ficção científica, fantasia e horror no Brasil; promover a memória desses gêneros e o seu estudo; destacar uma personalidade de maior relevo no ano analisado; resenhar obras selecionadas.

Em tudo, os editores (ou autores, como preferem ser chamados agora), são bem-sucedidos, embora eles tenham desenvolvido, na sua crítica literária, uma retórica rebuscada e às vezes obscura, que não cabe bem na agilidade e na objetividade que uma publicação como esta precisa ter.

O levantamento do desempenho do campo em 2008 mantém o otimismo dos números: "o levantamento do comportamento do mercado em 2008 é o que apresenta as maiores mudanças de um ano para o outro. O que não mudou - felizmente - é que o grande número de títulos de 2007 em relação aos anos anteriores, aumentou ainda mais, sinal de que o boom do mercado que parecia ter chegado ao topo tinha um espaço para crescer no ano de 2008." As mudanças de que Branco trata na sua avaliação incluem o fato de que "pela primeira vez, em 2008 os autores brasileiros superaram os estrangeiros nos lançamentos - inéditos e relançamentos - em 173 para 155, 18 livros a mais". Mas eu faço a ressalva costumeira de que o Anuário coloca na mesma sacola e-books e edições do autor, de modo que a sua avaliação de que "o mercado cresceu 123,77% em cinco anos" não está livre de ambiguidades quanto à definição desse "mercado". Branco também observa que é a fantasia o gênero que tem "puxado a carroça", embora o horror tenha crescido expressivamente em 2008. Quem fecha a retaguarda são os autores de ficção científica. Entre os brasileiros - que dominaram 52,74 % do "mercado" em 2008 -, o gênero dominante é, sem surpresas, o horror.

Para colocar as coisas realmente em perspectiva, gostaria de ver alguma estatística quanto ao número de escritores brasileiros lançando um novo livro de sua autoria, em comparação com os estrangeiros. O que parece evidente é que há um número de escritores iniciantes dando seus primeiros passos, estimulados pela presença avassaladora dos estrangeiros. Sem falar em uma estatística das vendas - o que provavelmente estaria fora do alcance de qualquer pesquisa.

Os livros resenhados nesta edição do Anuário foram Amor Vampiro, Ednei Procópio, ed.; Areia nos Dentes, de Antônio Xerxenesky; O Caminho do Poço das Lágrimas, de André Vianco; Fábulas do Tempo e da Eternidade, de Cristina Lasaitis; FCdoB: Ficção Científica Brasileira, Panorama 2006/2007, de Fernando Murillo Bettencourt & Maria S. Cavalcante, eds.; Fome, de Tibor Moricz; O Par: Uma Novela Amazônica, de Roberto de Sousa Causo; A Pulp Fiction de Guimarães Rosa, de Braulio Tavares; Coisas Frágeis, de Neil Gaiman; Nevasca, de Neil Stephenson; e Tempo Fechado, de Bruce Sterling. São novelas, romances, antologias e coletâneas de contos, e até um livro de não-ficção. É um bom apanhado, especialmente entre os estrangeiros. Mas eu ainda gostaria de uma seção de resenhas um pouco maior (ha muito espaço sobrando se as resenhas forem enxugadas), mas não é tão fácil para Silva e Branco terem acesso aos lançamentos para multiplicar mais as resenhas.

Um terceiro par de mãos cairia bem nesse esforço, mas a dupla manteve desde o início que o Anuário é um trabalho autoral, dividido apenas parcimoniosamente com um convidado por edição, que se encarrega de escrever um ensaio de feitio acadêmico sobre um assunto de sua escolha. Neste ano o convidado foi Ramiro Giroldo, com "As Utopias de André Carneiro: Prazer, Desprazer e Subversão", que demonstra o potencial de um estudo psicanalítico da obra de Carneiro - que foi assunto da dissertação de mestrado de Giroldo na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul. Não é a primeira vez que os editores abrem as suas páginas para um acadêmico (a brasilianista M. Elizabeth Ginway, autora de Ficção Científica Brasileira: Mitos Culturais e Nacionalidade no País do Futuro), mas é a primeira vez que esse acadêmico é um representante da "nova guarda" - aquele grupo de jovens que entraram nos programas de pós-graduação com um interesse por FC e fantasia, nos últimos cinco anos ou seis anos. Giroldo atualmente faz o seu doutorado na Faculdade de Letras da USP.

O material investigado por Giroldo são os romances Piscina Livre (1980) e Amorquia (1991), e uma seqüência de contos que pertencem ao mesmo universo utópico/distópico, indo de 1963 até 1997.

Carneiro foi a "Personalidade do Ano" de 2007, uma honraria que os editores conferem a alguém, anualmente. Em 2008 esse alguém foi o escritor André Vianco, que é entrevistado longamente por Silva & Branco, nesta edição. Vianco, claro, é o maior best-seller brasileiro do campo, um homem que vendeu mais de 80 mil exemplares do seu romance de vampiros Os Sete, e que tem quase todos os seus dez ou doze livros disponíveis nas livrarias. A entrevista é divertida e define a postura literária de Vianco, além de corrigir alguns aspectos da lenda em torno de como ele saiu de anônimo escritor autopublicado, para um fenômeno nacional de vendas, com leitores dos 8 aos 80 anos.

Para a edição do ano que vem, Silva & Branco vão cancelar a seção "Periódicos" e mudar a seção "Efemérides", a fim de racionalizar os espaços e o tempo de elaboração do Anuário.

Essa publicação prossegue sendo absolutamente necessária para quem quer enxergar a ficção científica, a fantasia e o horror no Brasil de uma maneira sistematizada e inteligente, que supera a maneira balcanizada e tribalista com que o campo tem sido visto pelas diversas comunidades e grupos que o compõem. Profissionais do meio editorial também devem se beneficiar, assim como escritores (novatos ou não), que desejem tomar contato com as editoras e os colegas que estão configurando esse desempenho anual.

Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance A Corrida do Rinoceronte.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

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