
Amilcar Bettega
De Paris
Havia muita água por todos os lados. A chuva não cessara nos últimos dias e a ilha se tornava cada vez menor. As casas mais à beira já estavam submersas e várias famílias haviam partido em busca de terra firme. O noticiário do rádio, entrecortado pelas descargas incessantes, dava conta de que rio acima o nível subira treze metros e as águas invadiam metade de Barro Verde, falava-se de cinquenta e três anos desde a última enchente daquele porte.
A mãe acendeu a vela diante da imagem de Nossa Senhora e fez uma breve oração. Cobriu a filha que dormia no berço e dirigiu-se ao menino junto à mesa de fórmica no meio da sala. O barulho da chuva sobre a coberta de zinco era assustador, como se o céu estivesse despencando. Ela não disse nada, apenas segurou as mãos do filho e ajoelhou-se. Acariciava-lhe o rosto quando o pai entrou. Ela se ergueu depressa e correu ao marido, indagando-o com o olhar.
- A gente sai amanhã cedo - disse o pai, com a voz grave e sonora, mais alto que o barulho da chuva sobre o zinco.
Mãe e filho se olharam. Sabiam que a retirada era inevitável mas era como se o inevitável ainda estivesse a uma distância segura. O pai também relutara e adiara muito a decisão, talvez até demais. Partir era uma questão de sobrevivência, estavam isolados. Talvez fossem as últimas pessoas na ilha, talvez fosse tarde demais.
A menina acordara e chorava, mais um barulho nervoso juntando-se ao da chuva. A febre não cedera e há dois dias ela só calava quando adormecia pelo cansaço. A mãe foi até a caminha de grades altas, tomou a filha ao colo e, balançando-a, sussurrou uma canção.
- Pegue só o mais importante, nada de muito peso. - O pai falava sob o umbral, o cigarro queimando no canto da boca.
A mãe não respondeu. Com a criança no colo, andava de um canto a outro da sala, sempre embalando-a e cantando. O menino permanecia sentado, as mãos entre o assento da cadeira e as coxas, batendo os joelhos um no outro. O pai retirou-se para a outra peça. Já havia verificado o bote, tentaria descansar um pouco.
A chuva continuou caindo sem trégua na noite, e o menino não conseguia dormir. O rio se enfurecia no costado da casa, se agigantava num murmúrio grave, tocado a laçaços de vento. Dali a pouco, teriam de enfrentá-lo. A travessia nunca fora fácil para ninguém, ouviam-se histórias de gente que se perdera nas águas mesmo em época de estiagem - os corpos inchados a boiar entre os aguapés, o rio devolvendo à terra quem não sabia caminhá-lo. Êta correnteza traiçoeira...
A claridade quase nula denunciou a iminência do dia. A mãe veio à cama do filho, mas a penumbra impedia que ele visse seu rosto. Sentindo a mão dela deslizar sobre o peito, o menino experimentava a presença boa da mãe. Mas não conseguiu esconder:
- Tenho medo.
Apesar do escuro, ele podia jurar: ela sorria.
Quando a mãe recostou a cabeça no travesseiro, ele percebeu o cheiro da sua respiração, a voz ao ouvido:
- Não precisa ter medo. Tu já é grande, tem que enfrentar como todo o mundo.
A voz do marido, à porta, a fez levantar e dirigir-se à cama da menina. Não tinha bem amanhecido mas era hora. A água subira uns dez centímetros na cozinha e começava a invadir a sala. O pai ainda colocou uma cama, a mesa de jantar e o colchão sobre o telhado, na esperança de que o rio não subisse até a cumeeira. No barco carregaram roupas e alimentos. Já era peso demais.
A família ia dentro do bote, protegida da chuva por uma lona de plástico. O pai empurrava o bote, e a casa, aos poucos, ia se afastando. Quando a água bateu na cintura do pai, ele saltou para dentro do barco, apanhou os remos e os fez estalarem na superfície líquida. Colocara-se no centro, de costas para eles na proa. Lentamente o rio foi se tornando mais rio e a correnteza exigindo dos músculos daquele homem.
O pai era enorme, o pescoço grosso atravancado entre os ombros distantes. Ao puxar os remos contra o peito, sua camisa encharcada deixava transparecer as contrações da musculatura das costas. A chuva parecia ainda mais forte ao repicar sobre seus ombros. Era impossível avistar a margem distante, embora todos soubessem que ela estava lá. E o que sobrava da ilha diminuía a cada olhada. A mãe tinha a filha nos braços e tentava inutilmente abrigá-la da chuva com o corpo. O menino, ao lado, trazia uma espécie de soluço preso no peito. Não era choro, talvez não fosse só angústia. Era pior. A casa da infância ia ficando longe. O rio, barrento, lambia as bordas do bote e a correnteza era uma serpente que assoviava junto a madeira.
Aos poucos, os movimentos do pai foram ficando mais lentos. A força da corredeira ia vencendo os braços e a sua energia escapava sem que se notasse avanço. Pelo peso excessivo, a linha de flutuação estava à altura da borda, e a água que vinha das maretas já formava uma camada de alguns centímetros no fundo do bote. O menino ajoelhou-se e com as mãos em concha tentava tirar o acúmulo.
- Pega a lata embaixo do banco, guri - ordenou o pai.
Ele buscou o balde. A mãe continuava agarrada à filha envolvendo-a com suas roupas, com os braços, com seu corpo. Ele retirava a água e sentia o olhar da mãe. O pai ofegava, o dorso crescia a cada puxada dos remos, mas a embarcação não avançava. As forças eram inúteis frente à distância que os separava da margem. O menino levantou para aliviar a água da popa. Cruzava o banco do centro quando se desequilibrou e caiu sobre o corpo do pai. Sentiu os músculos quentes e inchados em contato com sua pele, o ar morno expulso pela boca num ritmo acelerado. Por um quase nada de tempo, o menino deixou-se ficar sobre o corpo do pai, como que esperando que ele o tirasse de si.
Impedido de remar, o pai acabou recuperando um pouco das forças, mas agora o barco descia o rio solto, entregue à correnteza, e ganhava velocidade perigosamente. Da ilha para frente o leito estreitava sem ganhar em profundidade, havia um grande número de rochas no fundo e o fluxo da água se fazia mais rápido. Àquela velocidade, se a embarcação roçasse o casco num calhau, com certeza emborcaria. Mesmo os declives no plano d¿água, formados pela correnteza através das pedras do fundo, causariam o acidente. O pai, cansado, já não conseguia domar o barco sozinho.
Embora fosse um bote de dois remos somente, na véspera, por precaução, o pai carregara outro par. Dois tacos de madeira pregados na borda serviriam para apoiá-los.
- Pega os remos embaixo dessa lona, guri - ele gritou.
O menino atendeu e, meio sem jeito, ergueu os remos e os enfiou na água. Sentara atrás do pai, de costas para a mãe, mas adivinhava a expressão de ambos. Com os braços magros, lutava para manter as hastes sob controle. No primeiro movimento, o remo escapou da mão e estourou-lhe no peito com um baque surdo. Doía as mãos, doía os braços, mas ele se sentia diferente com a água soqueando as pás e lhe chamando no muque daquele jeito. A camada de água no fundo do bote aumentava, se fazia necessário continuar retirando.
- Senta aqui no meu lugar, guri. - O pai começou a baldear o excesso.
O menino postado no centro levava, a seu modo, o barco rio abaixo. Com o peso sendo aliviado rapidamente, o bote ganhou estabilidade. Daquele ponto do rio em diante diminuía a quantidade de rochas no fundo e, apesar de o leito ter-se alargado, ainda era possível alcançar a margem. Talvez nem precisassem os quatro braços, era só jogar com a correnteza, que por si só os levaria ao destino. Duzentos metros adiante, o rio espraiava num arenal livre de vegetação e barranqueiras. Não ficava longe de São Miguel. O aguaceiro impedia a visão precisa mas era provável que a aldeia estivesse bem próxima. O lugar era ideal para o aportamento, e a corrente, enviesada pelo nordeste, empurrava o bote à margem.
Os remos já haviam esfrangalhado as mãos do menino, que não mais as sentia, nem os braços, nem mesmo o corpo. Apenas a água, cada vez mais água estalando na sua cabeça. À frente, um cinza de chumbo emendava o rio com o céu, mas não tão longe, ainda que quase imperceptível, um pequeno ponto escuro era o sinal que faltava: a margem, a terra firme. Era só jogar com a correnteza, que a margem se oferecia. Só querer.
Cinqüenta metros. O corpo magro do menino no comando do barco que se acavalava nas maretas. A paisagem ribeira já desenhada contra o aguaceiro: um espraiado largo e sem aguapés. Trinta metros. O menino puxou forte em remadas seguidas com o braço esquerdo e o barco contornou o arenal lentamente, deixando-o para trás. A mãe tinha os olhos perdidos na praia que ia ficando. Adiante, e para sempre, o rio mais e mais caudaloso. O rio, imprevisível, que vai e vai, o rio.
O bote ainda deu uma balançada forte mas o menino o sustentou como que num jogo de corpo, prosseguindo sua longa travessia. De joelhos, o pai retirava a água com o balde. O menino, à frente, não via seu rosto, mas tinha certeza que ele sorria.
Terra Magazine