
Sírio Possenti
De Campinas (SP)
Minha já longa experiência de colunista me mostrou que há dois temas que provocam reações mais numerosas, quando se trata de linguagem: questões de história da língua (parece que não estamos muito dispostos a aceitar que as línguas são em boa medida arbitrárias,queremos "explicações") e comentários sobre textos que tratam de temas socialmente sensíveis.
A coluna da semana passada era do segundo tipo: eu dizia que um texto de Gentili debatido na mídia não era racista. Eu não dizia nada (o que certamente foi um problema, reconheço) sobre outras intervenções dele, na sequência do "debate", sejam essas intervenções sobre o texto em questão, sejam outras, que têm a ver com sua atuação no mercado.
O resultado foi um número relativamente grande de reações de leitores. Alguns concordaram comigo. Outros discordaram, de diversas maneiras e em tons variados. Uns perguntaram qual é a cor de minha pele, outros já apostaram que sou branco, outros perguntaram como é que eu não via racismo em um texto que dizia que os jogadores de futebol são negros, outros, finalmente (os que, a meu ver, apontaram o principal problema de meu texto), perguntaram o que eu pensava do que Gentili tinha escrito na continuação do "debate", especialmente quando, respondendo a Hélio de La Peña, Gentili perguntava por que se pode chamar gordo de baleia, gay de veado, caras altos de girafa e não se pode chamar negro de macaco.
Minha resposta era: eu me ative a um texto, aquele que provocou o debate. E quase prometia voltar ao tema. É o que estou fazendo.
Antes de mais nada, vou repetir sumariamente a tese que defendi na semana passada: aquele texto não contém nenhum elemento que permita qualificá-lo como racista. Mantenho essa análise, mesmo que outros textos de Gentili contenham, tenham contido ou venham a conter ingredientes de racismo. Minhas posições sobre o sentido dos textos e sobre leitura não incluem a hipótese de que todos os textos do mesmo autor precisam ter o mesmo sentido ou veicular a mesma posição ideológica ou filosófica. Nem acredito que o que dá sentido ao texto seja a intenção do autor. Até porque essa tese tornaria todos os textos racistas inocentes, bastando para isso que o autor dissesse que não teve a intenção de dizer o que o texto disse...
Dito isso, vou ao ponto seguinte: sobre a passagem de outro texto de Gentili citada acima (por que se pode... etc.), creio que a melhor resposta que eu poderia dar é citar um texto de Millôr Fernandes que mencionei em meu Os humores da língua e em relação ao qual eu dizia que este é um bom e novo problema para os estudiosos do humor. O texto é o seguinte:
Inextirpável no ser humano, mesmo o mais sensível, o gosto perverso de contar piadas sobre minorias (no Brasil, negros, judeus, portugueses, bichas), grupos já discriminados pela natureza (anões, aleijados), pessoas marcadas por características dramáticas (caolhos, capengas, manetas), ou com defeitos ridicularizáveis (gago, fanho, surdo) etc.
Quanto aos grupos étnicos, as piadas no Brasil se referem desprimorosamente a argentinos (que por sua vez nos chamam de macaquitos), franceses, alemães, porém, preferivelmente, detratam judeus, portugueses e negros.
Mas, reparem bem, vocês já viram portugueses contando piadas de português, é comuníssimo judeu contar piada de judeu, mas eu, pelo menos, não me recordo de negro contanto piada de negro. A explicação me parece simples: a piada sobre português (burrice) ou sobre judeu (principalmente argentarismo) é perfeitamente assimilável. A sobre negro (vagabundo, ladrão, primata) é dolorosamente ofensiva, humilhante, não assimilável pelos, sem trocadilho, alvos. Com a palavra teólogos, psicólogos, antropólogos e demais ociólogos (Diário da Nova República (volume 3, Editora LP&M, p. 171).
Eis aí, Gentili, a razão pela qual não se pode chamar negro de macaco, mesmo que se pudesse (mas pode?) chamar gay de veado.
Definitivamente, não é a mesma coisa.
Terra Magazine
|
Reprodução
Resposta do humorista Gentili (foto) à De La Peña é analisada por Possenti
|