
Vera Gonçalves de Araújo
De Roma
Não o nosso jornal Pasquim, mas o autêntico e original Pasquino, a estátua "falante" que se encontra numa pracinha nos fundos da embaixada do Brasil em Roma. Uma estátua romana bastante feia, que desde 1500 foi usada para deixar mensagens anônimas contra os poderosos - imperadores, papas, reis, nobres que governaram a Cidade Eterna.
O Pasquim passou muito tempo calado, por culpa da internet, da TV e da globalização. Quem é que ia perder tempo escrevendo poesias, epitáfios, desabafos e trocadilhos para zombar da política italiana e romana?
Mas em tempos de crise econômica e com as últimas aventuras do presidente do conselho de ministros, Silvio Berlusconi, o Pasquim ganhou nova eloquência. O pedestal da estátua está coberto de páginas, folhetos, até guardanapos com poesia e prosa dedicadas às proezas sexuais de Berlusconi.
Outro que merece a atenção desaforada do Pasquim é o senador Umberto Bossi, líder da Liga do Norte, o partido separatista e xenófobo da Itália nortista. Bossi - que sofreu um derrame em 2004 e nunca recuperou direito a capacidade de falar e caminhar - neste verão não perdeu nenhuma ocasião para distribuir farpas e provocações. Começou atacando o hino italiano: ninguém sabe a letra, muito melhor escolher o "Va pensiero" de Giuseppe Verdi para representar a Itália, diz o senador. Atacou também a bandeira e a língua italiana, propondo a adoção das bandeiras regionais para representar o país, e a introdução de aulas de dialeto nas escolas "para redescobrir as raizes da nossa cultura".
Todas estas propostas não são novidade, já fazem parte dos lugares comuns sobre a atitude separatista e antitaliana da Liga. O que interessa realmente a Bossi é a proposta de instituir salários "estaduais" no país, diferenciando o que ganham os operários do norte e do sul. O custo de vida nas regiões meridionais é bem mais baixo do que no rico norte italiano, e portanto a Liga propõe uma proporcionalidade diferente para as categorias de trabalhadores: nortistas com salários mais altos, sulistas mais pobres.
A ofensiva de Bossi tem - é claro - um objetivo eleitoral. O objetivo da Liga para as eleições regionais de 2011 é a conquista de pelo menos dois governadores importantes, como o da Lombardia (a região de Milão) e o Veneto (capital Veneza). A briga não vai ser - pelo menos por enquanto assim parece - contra os candidados da esquerda, mas vai ser interna, dentro da coligação de direita que apoia Berlusconi. Contra o Povo das Liberdades, partido que une os berlusconianos de Forza Italia e os ex fascistas de Aliança Nacional, e que atualmente governa as duas regiões cobiçadas pela Liga do Norte.
O Pasquim que se prepare. A briga vai ser longa e feia.
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Pode sobrar para o Pasquino as ofensivas da direita de Berlusconi
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