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Sexta, 21 de agosto de 2009, 07h51 Atualizada às 10h13

Mentir é viver

Marcelo Carneiro da Cunha
De São Paulo

Estimados milhares de leitores, bom vê-los de novo. E cá estamos, semana nova, vida nova e eu pensando em uma fala do insuperável Grouxo Marx na qual ele afirma em alto e bom tom "não me importo em mentir, se isso me trouxer alguma coisa em troca". Ah, a sinceridade que só mesmo a comédia permite!

Porque mentimos, estimados leitores. Mentimos no atacado e no varejo, mentimos para nossos médicos para proteger a nossa imagem, para o analista para não pareceremos tão malucos, para as nossas amantíssimas namoradas e mulheres por puro instinto de sobrevivência. As mulheres, como todos sabem, jamais mentem.


Carneiro: "Imprensa acusa Dilma de algo que todos fazemos o tempo inteiro"

Os alemães, seres tão filosóficos que inventaram o alemão apenas para criar expressões perfeitas, dizem Lebenslüge, acho, que quer dizer mais ou menos "as mentirinhas que tornam a vida possível". Sem elas, goste você ou não, prezado leitor, estimada leitora, a vida é um inferno.

Eu sou uma gloriosa exceção. Influenciado pela minha avó Jovita, aprendi a seguir à risca os doze mandamentos e duzentos pecados capitais do Evangelho Segundo Jovita, que me foi implantado na mais tenra infância, impressionadíssimo com aquela imagem terrível do catolicismo, aquele quadro intitulado, "Jesus à espera de um transplante". Conhecem?

Ali aprendi a nunca mentir, ou, pelo menos, nunca roubar Bis nas Lojas Americanas, o que fez de mim uma criança única e um ser moralmente superior.

Agora, alguém aí acha MESMO que a melhor coisa a fazer é dizer com sinceridade o que pensamos do vizinho do 103, aquele que tem o cabelo de um carpete e que, curiosamente, coleciona armas de fogo? Você sai de casa e, primeira coisa da manhã, diz a sua mulher que o vestido que ela comprou com tanto prazer na C&A o faz lembrar de uma estação de bombeiros, mas pode ser apenas a cor? Você diz ao seu chefe o que pensa do sistema dele de planejamento? Você grita para o policial que acaba de ultrapassar o limite de velocidade por pelo menos cento e cinqüenta quilômetros por hora? Você acredita mesmo que deve sair por aí distribuindo sinceridade como quem distribui vírus H1A1? Você espera ser apreciado, admirado e amado por tornar todo mundo ao seu redor infeliz? Sinceridade, estimado leitor, é nitroglicerina, apenas mais destrutiva. Use com muita moderação, e apenas se você realmente estiver no ramo das demolições, dos seus relacionamentos, inclusive.

Um ser mentiroso se diz sincero. Um ser sincero admite que mente. Os paradoxos dessa vidinha sem a minha avó! Meu pai, juiz dedicado, me dizia que a parte mais difícil da profissão era ser confrontado por dois seres, acusador e acusado, ambos dizendo coisas opostas sobre o mesmo evento, e ambos certos.

Acho que um bom começo é nos livrarmos desse conceito moralmente insustentável, de que a verdade salva, e irmos para o conceito humanamente viável, de escolher qual a versão nos pareça mais razoável. Isso me parece importante no momento em que o país tenta decidir entre as verdades da Dilma e da Lina, nesse drama com poucas sílabas que se desenrola diante da gente.

A imprensa começou a construir uma imagem arriscada para todos nós, meus prezados e imprescindíveis leitores: a de que a Dilma mente, como se cada ser sobre o planeta, em línguas diferentes e por motivos que só eles conhecem, não mentissem a cada dia, a cada hora, a cada minuto! Isso é mais ou menos como acusar a Lina de respirar. Eu diria, sim, parece que a acusação procede. Aliás, pensando melhor no assunto, parece que eu também respiro. E, da ultima vez que prestei atenção, todo mundo respirava, ainda mais agora, sem cigarros por perto. Então, qual é o ponto?

Ah, político não pode mentir.

Um instante: alguém aí acha razoável que um político, colocado no meio do redemoinho que são os interesses de todo mundo, justamente ele ou ela, consiga o que ninguém mais, nem você que me lê, nem mesmo, suspeito, a minha avó Jovita, jamais conseguiu?

Políticos não podem ser mais humanos do que os humanos, e parte do tempo, precisam se tornar um tanto menos humanos, ou não conseguem realizar as suas funções. Alguém aí prefere ignorar isso e optar por viver sim, em um mundo de mentirinha? Eu, não. Quero o real, com os cheiros que acompanham a vida vindo junto.

Me preocupo com o que as pessoas fazem, mais do que com o que elas falam. Me preocupo com o que as pessoas acreditam, mais do que o que elas falam. Não sei ao certo em que a Dilma acredita, vou tentar saber mais nos próximos tempos, enquanto escolho em quem vou confiar o destino do país a partir de 2010. Sei que ela botou pra quebrar contra a ditadura, sei que ela não tem paciência para com as baboseiras de plantão, para com os bobos de plantão, o que talvez explique algumas coisas. Sei que ela, sob tortura, não falou verdades que não podia falar, naqueles tempos.

A Marina Silva, por exemplo, admirável por muitas coisas da trajetória dela, acredita em criacionismo, uma das mentiras mais particularmente sem noção que eu conheço. E, para governar um país, quero honestidade, o que é diferente de posar de santo, ou vestal. Quero humanos, defeituosos, mas com vontade de fazer um país funcionar. O que não dá pra ter são ingênuos, mais perigosos do que os mentirosos normais, por acharem que querem o nosso bem, por acreditarem num mundo de mentirinha, por quererem esse mundo para eles mesmos, e, pior, para todos nós.


Marcelo Carneiro da Cunha é escritor e jornalista. Escreveu o argumento do curta-metragem "O Branco", premiado em Berlim e outros importantes festivais. Entre outros, publicou o livro de contos "Simples" e o romance "O Nosso Juiz", pela editora Record. Acaba de escrever o romance "Depois do Sexo", que foi publicado em junho pela Record. Dois longas-metragens estão sendo produzidos a partir de seus romances "Insônia" e "Antes que o Mundo Acabe".

Fale com Marcelo Carneiro da Cunha: marceloccunha@terra.com.br

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