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Sábado, 22 de agosto de 2009, 07h48

Os sabores de Tiradentes

Lecticia Cavalcanti
Do Recife (PE)

Tiradentes conserva ainda hoje as marcas de um passado feito de riquezas - sobrados coloniais, algumas pequenas igrejas de época, lampiões, um chafariz, calçamento em pedra capistrana, ponte (com arcadas romanas) sobre o riacho Santo Antônio. O tempo, ali, parece não ter passado.

Tudo começou quando João Siqueira Afonso descobriu em 1702, por acaso, grande quantidade de ouro. Para agradecer, ergueu capela em homenagem a Santo Antônio, decorada com 480 kg daquele ouro. Em volta desse núcleo, aos poucos, foi se formando um povoado conhecido como Arraial de Santo Antônio - graças a tanta opulência, pelo Conde de Assumar logo elevado (1718) a Vila de São José del Rei - em homenagem ao então futuro rei de Portugal, D. José I.

Até que afinal, em 6 de dezembro de 1889, ganhou nome definitivo, Tiradentes - por ali ter nascido (em 1746), na fazendo do Pombal, seu filho mais ilustre, Joaquim José da Silva Xavier. Em 1938, por fim, foi tombada pelo IPHAN, como patrimônio nacional.

Mas a cidade é famosa, hoje, também por suas muitas pousadas e pela qualidade de sua cozinha. A quem ande por aquelas bandas, sugiro se hospedar no Solar da Ponte, e provar do chá que lá se serve, segundo a tradição, sempre às cinco horas - com chocolate, pães, geléias e bolos especiais.

Já nos sabores, bom lembrar que todos os anos, por essa época, acontece Festival Gastronômico com a participação de grandes chefs nacionais e internacionais. Andando por suas ruas de pedras irregulares, encontramos restaurantes para todos os gostos e nacionalidades - Santíssima Gula, Tragaluz, Teatro da Vila, Via Destra. E, mais, uma infinidade de pequenos lugares servindo uma culinária típica mineira que remonta ao Ciclo do Ouro (séc. XVII e XVIII).

Para quem aceite sugestão, lembro o Virada's do Largo, da chef Beth Beltrão - que, ainda bem, largou a informática para se dedicar às panelas. Não por acaso recebeu vários prêmios, inclusive o de melhor restaurante de comida regional mineira (Guia Quatro Rodas), representando o Brasil no Festival Cores e Sabores em Freswl (Suíça).

O sucesso do restaurante se deve a seu ambiente acolhedor, claro; mas sobretudo, à qualidade de sua cozinha - simples, generosa e muito saborosa. Os ingredientes são cuidadosamente escolhidos. Verduras, legumes e frutas cultivados em horta própria, sem agrotóxicos ou adubo químico. As carnes vêm de produtores que não usam hormônios, tão comuns em animais que engordam rápido.

"A galinha caipira leva seis meses para ir à panela, aqui não temos pressa", diz Beth orgulhosa. Tudo preparado em fogão à lenha, e a vista de todos. Como entrada bom provar pastel de angu, lingüiça caseira, torresmo, bolinho de mandioca. Pratos principais são muitos - frango com açafrão e ora-pro-nóbis (folhas que deve o nome, dizem, ao fato de serem colhidas no quintal de um padre, enquanto ele rezava "ora pro nobis"), frango com quiabo, tutu com lombo grelhado e costelinha, feijão tropeiro com lombo e costelinha, mexidão Viradas (arroz, couve, ovo, bacon, cebola, milho verde, passas e filé), viradinho da cozinheira (arroz, ovo, bacon, cebola feijão, carne serenada), trem bão (carne serenada na manteiga, arroz, feijão batido mandioca, farofa), arrumadim (filé, ovo, arroz com alho e fritas), lombo ocupado (arroz com alho, tutu, couve rasgada, ovo e lombo).

E, de sobremesa, doces (de leite, laranja, abóbora, goiaba, banana) com queijo de minas e um Romeu e Julieta diferente - sorvete de queijo com calda de goiaba.

Mas nesse restaurante se pratica, especialmente, a bem conhecida hospitalidade mineira. A começar pela poesia - como "A Tecnologia Mineira do Abraço" dita por um matuto e impressa em serviços americanos, postos nas mesas: "Das invenção dos hómi a que mais tem sentido é o abraço./ Aqui ta a chave do maior segredo de tudo:/ É qui, quandu abraçamo argúem, nóis fiquemo tudo é com dois coração no peito". Agora falta só aproveitar e mandar para você, Beth, um abraço bem pernambucano.

RECEITA: VIRADINHO DA COZINHEIRA
(receita servida no Virada's do Largo)

INGREDIENTES:
4 copos de arroz cozido
200 g de carne serenada (o mesmo que carne de sol)
1 cebola média cortada picada
2 colheres de alho triturado
2 xícaras de feijão cozido e lavado
4 ovos mexidos
100 g de bacon em cubinhos fritos
1 molho de salsinha e cebolinha picadas
1 colher de manteiga de garrafa
1 colher de farinha torrada de milho
1 pouco de couve cortada fininha
30 g de castanha de caju triturada

PREPARO:
- Coloque em frigideira três colheres de sopa de óleo de girassol (ou milho) e o alho. Deixe dourar. Em seguida, junte cebola, feijão, cheiro verde, ovos mexidos, bacon e arroz.
- Em outra frigideira coloque manteiga de garrafa e frite a carne serenada - sem fritar por muito tempo, que isso endurece a carne. Junte à mistura anterior. Por fim, junte farinha, couve e a castanha passada na manteiga, para dourar.


Lecticia Cavalcanti coordena o caderno Sabores da Folha de Pernambuco, escreve na Revista Continente Multicultural e no site pe.360graus.

Fale com Lecticia Cavalcanti: lecticia.cavalcanti@terra.com.br

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