Terra Magazine

› Terra Magazine › Colunistas › Francisco Viana

Sábado, 22 de agosto de 2009, 19h44

Surdez e cegueira

Raphael Falavigna/Terra
Aloizio Mercadante é apenas o rosto visível, nesse momento, da renúncia a utopia, diz jornalista
Aloizio Mercadante "é apenas o rosto visível, nesse momento, da renúncia a utopia", diz jornalista

Francisco Viana
De São Paulo

Quem deixa que o mundo, ou uma porção deste, escolha seu plano de vida não tem necessidade senão da faculdade de imitação dos símios. Quem escolhe para si mesmo o próprio plano emprega todas as suas faculdades. Necessariamente usa observação para ver, o raciocínio e o juízo para prever, a atividade para coletar materiais para a decisão, o discernimento para decidir e, uma vez que decide, a firmeza e o autocontrole para manter a decisão deliberada.
John Stuart Mill*

Ser ou não ser e, sendo, como ser? O drama do senador Aloizio Mercadante é hamletiano, embora ele esteja tão distante do príncipe Hamlet quanto um peixe acalenta o sonho de ser livre e voar. Ele preferiu não ser ao desistir da saída "irrevogável" da liderança do partido do governo no Senado, anunciada um dia antes de voltar atrás, na sexta-feira, 21 de agosto. E não sendo deixa de existir porque abre mão daquilo que é a essência da política: a utopia, a vontade de transformar a sociedade, de construir um mundo novo.

Esse o autêntico sentido da utopia não aquele apontado no passado pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso - a utopia possível. Toda utopia começa sendo impossível porque é o que impulsiona a ação transformadora. Utopia possível é a utopia liberal e assim é vista desde o fim da primeira metade do século XIX.

Mas não vamos fixar o drama de ser ou não apenas no senador Mercadante. Ele é apenas o rosto visível, nesse momento, da renúncia a utopia. Na realidade, a política brasileira perdeu essa perspectiva maior. Quando a burguesia no século XIX trabalha para minar a utopia tinha como alvo a utopia a esquerda. Ou as ideias revolucionárias daqueles que se guiavam pelo socialismo de Saint-Simon, Own, Fourier e Marx-Engels, que abalaram o mundo capitalista com o Manifesto de 1848 com uma perspectiva radicalmente (no sentido de raiz) nova de valorização do trabalho e de igualdade entre os seres humanos. Não deixou, porém, de acalentar sua própria utopia que se orientava pela igualdade de oportunidades e o culto ao progresso.

No Brasil nem isso tivemos. E hoje o que vemos é esquerda e direita, conservadores e liberais despojados de qualquer identidade de tão parecidos que ficaram. Partiram, todos, da utopia para o poder e não do poder para a utopia. Conquistado o poder o que interessa não é a mudança, mas a manutenção dos privilégios.

Triste país que nunca conheceu sequer a revolução burguesa. Triste país que carece de um Robespierre. Onde ele estará? Quando refiro-me a Robespierre, não penso no terror, mas na determinação de ampliar a base da sociedade com a ascensão dos pobres, dos oprimidos, dos trabalhadores, dos sem terras, dos pequenos proprietários.

Robespierre, como todos os líderes da Revolução Francesa, salvo Babeuf, nunca pensaram em destruir a propriedade privada. Ambicionava socializá-la, expandir a base de proprietários, prescrever as classes ociosas.

Entre nós, ficamos sempre no meio do caminho. Nos momentos decisivos faltou liderança, faltou pulso, faltou coragem. E, assim, desde a proclamação da república o que temos feito é acumular desigualdades, repetir a velha escravidão em novas formas, em novos trajes. O resultado é que hoje o país vive um regime policial de novo tipo. Em nome da segurança, abre-se mãos da ampliação dos espaços de liberdade. Em nome da segurança, todos tornam-se prisioneiros. Basta circular por qualquer das cidades brasileiras para sentir a tensão.

De um lado, o fascismo crasso proíbe que se fume, que se possa beber civilizadamente, há normas e proibições por toda parte. Vive-se o império da vigilância burocrática, da liberdade repressiva. De outro a violência que grassa como se vivêssemos uma guerra civil de novo tipo. Enquanto isso, o Congresso e os partidos perdem tempo precioso seduzidos que são pelo luxo exótico de desperdiçar o tempo.

O que deveria ser um rito sumário, o julgamento pelos crimes de perda de decoro e corrupção, transforma-se num teatro sem fim, com cada um buscando defender seus interesses particulares, esquecendo-se do interesse maior, o interesse público. Nada muda para que tudo fique pior do que já está.

E Mercadante. Diz hoje uma coisa, amanhã diz outra. Acusa Sarney de ser responsável pela crise por não ter a grandeza de renunciar, o que é de uma ingenuidade indescritível e ... Por quê? Não vamos discutir a questão da tibieza ou aquilo que os franceses chamam de "culotte de peau" (um caráter não particularmente sensível). Não são essas as questões.

Seduzem porque temos o hábito de falar das pessoas e não das coisas, deixar-se envolver pelas personalidades não pelas ideias, programas e prática. A questão é justamente o jogo de aparências. O culto ao irrealismo da irrealidade.

Uma aproximação maior do episódio Mercadante, no bojo da crise Sarney e do Senado, vai revelar que o senador ganhou os holofotes, o drama de ser ou não vivido no ambiente mediático atraiu as atenções para ele, jogou a questão principal - Sarney e o Congresso - para segundo plano.

Joga-se com o mito de que a memória do brasileiro é curta. Certamente não é. E as próximas eleições vão demonstrar o que é real e ou que é ficção. O tempo é o senhor da razão. Em todo caso, fica o registro. O que está em cena, não são indivíduos - Sarney, Mercadante e outros -, mas uma modo ultrapassado de fazer política.

Os indivíduos e os partidos certamente pagarão preço elevado pela corrosão da credibilidade e pelo rigor do julgamento nas urnas. Mas o drama é mesmo da esquerda que perdeu o rumo. No poder, comporta-se como Pilatos, em um dos romances de Anatole France (O procurador da Judéia), que , envelhecido, se revela incapaz de discernir as mudanças da história que se produz, com vivo dinamismo, diante dos seus olhos.

Essa a essência da questão hamletiana: ser ou não ser significa a capacidade de compreender os movimentos inescapáveis da História. Sob esse ângulo, a política tornou-se surda e cega em terras brasileiras. A esquerda brasileira, se é que ainda existe, necessita renascer, auto-criticar-se, reergue-se. É desesperante saber que tantos foram mortos, torturados, perseguidos e sacrificaram suas vidas para chegarmos do umbral de decadência onde agora estamos.

* MILL, John Stuart. A Liberdade utilitarismo. São Paulo: Martins Fontes, 2000, p. 90.


Francisco Viana é jornalista, consultor de empresas e autor do livro Hermes, a divina arte da comunicação. É diretor da Consultoria Hermes Comunicação estratégica (e-mail: viana@hermescomunicacao.com.br)


Fale com Francisco Viana: francisco_viana@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

Terra Magazine

 

Exibir mapa ampliado

Tags

O que Francisco Viana vê na Web

Favoritos

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol

Argentina Chile Colômbia Equador Estados Unidos México Peru Venezuela