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Terça, 25 de agosto de 2009, 10h59 Atualizada às 19h49

Os 20 momentos que coloriram um coração de verde

Alexandre Xavier
De São Paulo

O Palmeiras já me deu tantos presentes que perdi a conta. Destes 95 anos que o Verdão completa nesta quarta-feira, vivi uns 20. E em vez de recitar um simples "parabéns a você", listei abaixo o Top 20 das passagens mais marcantes, malucas e subjetivas destes 20 anos de "porquisse" intensa. (Não é um Top 20 só para deleite de palmeirenses porque, acho que todo fã de futebol sabe, a relação entre o torcedor e seu time do coração é universal e é daquelas coisas inefáveis da vida):

1) A primeira vez (circa 1989): O primeiro jogo de futebol que fui na vida foi no Pacaembu contra o Santo André. Meu pai deve ter escolhido esse jogo porque teoricamente era fácil e não causaria nenhum trauma às crianças. E foi fácil mesmo: 1x0 (esse placar para aquele time do Palmeiras era goleada). Não me lembro do gol porque eu era pequeno e o Pacaembu parecia maior que o Maracanã, o campo estava a uns 5km da arquibancada.

2) Título só no bafo (1990 e 1991): O time do começo da década de 90 era sofrível. Minhas únicas recordações dessa época são as figurinhas do Júnior (hoje técnico do Vasco) e do zagueiro Toninho Cecílio (hoje dirigente do Verdão).

3) O ano alvissareiro (1992): Quase saímos da fila que já durava 17 anos! Não vi o segundo jogo da final do Paulistão contra o São Paulo porque já havíamos levado de 4x2 na primeira partida e meu pai disse que o título ia ficar pro ano que vem. Havia descido pra jogar bola e lembro da minha mãe gritando da varanda do quarto andar: "Gol do Palmeiras! Mas tá 2x1 pro São Paulo, acho que já era". Em tempo, minha mãe nasceu são-paulina, mas hoje é mais alviverde que o Obina e Ortigoza juntos.

4) A fila anda (1993): Agora, sim, fim da fila!!! Da final do Paulistão de 93 lembro de tudo, tinha dez anos. Quando o Evair fez o gol do título, quase caí da varanda do quarto andar. Meu pai resolveu comemorar numa churrascaria da Pompéia e me tirar de perto da varanda. Acho que foi a primeira vez que saímos eu, meu pai, minha mãe e meu irmão para jantar fora.

5) Papa-tudo (1994): Verdão bi-campeão do Brasileiro e do Paulista. As primeiras finais contra o Corinthians a gente nunca esquece. Foi o time da era Parmalat que ganhava fácil e dava espetáculo.

6) Elivélton no ângulo (1995): Opa, primeira derrota para o Corinthians. E na prorrogação. Essa também a gente não esquece.

7) O mata-mata é uma merda (1996): O time dos 100 gols do Luxemburgo ganha o Paulistão, mas perde a final da Copa do Brasil em pleno Palestra Itália, no fim do jogo, para o Cruzeiro (2x1 com direito a falha do goleiro Veloso).

8) A tevê do azar (1997): Fase ruim da era Parmalat. Só lembro de ter levado de cinco do Corinthians (aquele time do Banco Excel). Achei que a tevê velha do meu quarto era a culpada pelo mau agouro e no mesmo ano ela, felizmente, pifou.

9) A Copa do Oséas (1998): Minha tevê nova presencia o primeiro título da Copa do Brasil. Foi o troco no Cruzeiro. Um emocionante 2x0 com um gol de Oséas aos 44 do segundo tempo.

10) Júnior Baiano no ângulo (1998): 98 foi o ano em que comecei a frequentar o estádio com os amigos. Um jogo me marcou: no Palestra lotado, o zagueiro Júnior Baiano toma distância pra bater uma falta de muito, mas muito longe. Era jogo de quarta-de-final do Brasileiro e a partida estava difícil. Na hora daquele silêncio que surge de repente do nada (maldita Lei de Murphy), gritei bem alto, involuntariamente: "Não vai chutar pro gol, hein, cabeção!!". O cara meteu a bola no ângulo. Direto e reto. Golaço. Engoli as palavras e as digeri com prazer.

11) A maior emoção do mundo (1999): Gol aos 44 do segundo é uma coisa. Mas virada aos 48 é outra coisa. Quartas-de-final da Copa do Brasil, Palmeiras x Flamengo. Euller, o filho do vento, marca um gol dramático aos 48 do segundo e faz o 4x2 que classifica, de virada, o Verdão para a próxima fase.

Quando sai o gol, um garotinho do meu lado na arquibancada desaba a chorar. O juiz apita e o moleque ainda está sentado aos prantos. Tentei consolá-lo, falei que o Felipão (o técnico) gosta de matar as pessoas do coração... Mas ele só parou de chorar quando a torcida começou a entoar o hino do clube. Mata-mata é uma delícia!

12) O maior ano de todos (1999): O ano de 1999 foi o mais glorioso dos 95 anos do Palmeiras. Foi o ano da Libertadores. Para ver a final contra o Deportivo Cali, paguei R$100 a um cambista. Tinha ido a todos os jogos do ano, não podia ficar de fora da festa-mor. Fiquei 2 minutos para conseguir colocar o ingresso na catraca. Minha mão tremia demais. E se o ingresso fosse falso e eu tivesse jogado R$100 no lixo?

O alívio que senti quando a catraca abriu foi indescritível. Não durou 20 minutos e a polícia barrou a entrada no estádio porque havia gente demais na rua Turiassu... Nunca vi o Palestra Itália tão lotado, mal dava para erguer os braços.

13) As loiras do pênalti (1999):As quartas-de-final da Libertadores de 99 foram contra o arquiinimigo. E foram para os pênaltis. Quando Zinho partiu para converter a cobrança decisiva, eu e meu amigo Carlos nos aproximamos de duas belas loiras que estavam na numerada amarela do Morumbi (atrás do gol). Zinho meteu lá dentro e não deu outra: elas nos abraçaram efusivamente.

14) Felicidade pode matar (1999): Após o gol do Zinho e os abraços nas moças, fomos pegar o carro que, sei lá por quê, estava do lado de onde saia a torcida do Corinthians. Como trajávamos o uniforme da escola, achei que não seríamos reconhecidos. Só não contava com um detalhe: a cara de satisfação. Olha, nós bem que tentamos, mas não teve jeito de tirar o sorriso Monalisa do rosto. Moral da história: alguns arruaceiros corintianos começaram a apontar e tivemos de ir ao estacionamento (que estava a uns 100 metros) escondidos no assoalho de um táxi.

15) Futebol é uma caixinha de injustiças (1999): Na final do Mundial Interclubes em Tóquio, o que era para ser festa logo de manhã cedo virou desgraça. O Palmeiras deu um banho de bola no Manchester United, mas numa falha de São Marcos tomou o 1x0 fatal e injusto. À tarde continuei andando pela cidade com a camisa do Palmeiras e, sem querer, acabei trocando palavras de conforto com todo desconhecido que cruzava por mim com a mesma camisa. E não foram poucos.

16) A virada das viradas (2000): Com a camisa mais feia dos 95 anos de história, o Palmeiras ganhava do Vasco na final da Mercosul por 3x0. No intervalo, os amigos todos compraram a faixa de campeão que um gaiato vendia na arquibancada do Palestra. Eu não comprei porque achei caro, não só pelo preço, mas porque ainda faltavam 45 minutos.

A cada gol que saia do Vasco eu punha a mão no bolso para lembrar: "não gastei dinheiro à toa". Com aquela camisa de pijama desbotado e aquele time da moribunda Parmalat não dava pra cantar vitória antes da hora. Final: Vascão 4x3 Palmeiras. Foi a maior virada que o Palestra Itália já viu e não acreditou.

17) O pênalti dos pênaltis (2000): Tinha sido um jogaço e àquela altura o clima de tensão era o maior da história do clássico. Mas quando o Marcelinho Carioca pegou a bola para bater o último pênalti da semi-final da Libertadores 2000, um monte de torcedor (eu inclusive) se alegrou do nada e começou a gritar em uníssono, com uma convicção assustadora: "É ele! É ele mesmo! Ele que vai perder!". Não deu outra. Marcos voou no canto e pegou o único pênalti daquela disputa. Foi uma premonição coletiva sem margem de erro. Vai explicar...

A massa corintiana no Morumbi virou estátua. Ninguém se mexia! E a porcada, que era apenas 1/3 dos corintianos, saiu do estádio comemorando sem pudor nenhum. Me lembro de estar na janela do carro girando a camisa do Palmeiras e pensando com meus botões: "olha só que curioso, se os corintianos estiverem na frente do Morumbi, vamos morrer todos... Dane-se, vou morrer com um sorriso de orelha a orelha". Mas não vi um corintiano sequer, eles tinham evaporado, todos os 50 mil, de uma vez só.

18) Gol de placa é pouco (2002): Com Kaká começando a brilhar no São Paulo, o Palmeiras batia o rival em pleno Morumbi por 2x0 no Rio-São Paulo de 2002. O jogo estava uma baba, aí o Alex recebe a bola e faz, ainda no primeiro tempo, um gol tão antológico que algo inédito acontece na arquibancada. Em vez de gritar gol, metade da torcida cai na gargalhada. Pelas circunstâncias do jogo, aquele gol alegre e lindo fez a torcida rir de alegria, espontaneamente. Não sabia que a beleza plástica do futebol podia ser tão emocionante.

19) Quem é quem? (2002): Futebol é momento e no semestre seguinte o time cai para a segunda divisão. Dessa campanha desastrosa, apenas uma passagem valeu a pena: num domingo (dia de almoço na casa da nonna), o Palmeiras apanhava feio do Paraná Clube. Lá pelas tantas, quando o placar da Globo mostrava no alto da tevê "Par 5x1 Pal", minha avó entra na sala. E exclama: "Que belezza, Parmera tá ganhando de 5! E quem é esse tal de Pal?". Foi o melhor momento do Brasileirão 2002, para você ver que tristezza...

20) Pimenta verde é refresco (2007): Última rodada do Brasileirão 2007, o Palmeiras precisa ganhar em casa do Atlético Mineiro para se classificar para a Libertadores. O jogo termina 3x1 para o Galo, mas a torcida alviverde era só alegria. Quando o juiz apitou o fim da partida, todo mundo correu para o saguão do setor Visa do Palestra Itália (onde tem algumas tevês na parede) para ver o Corinthians cair para a Segundona.

Metade dos palestrinos ficaram em frente à tevê que passava Grêmio 1x1 Timão. A outra metade ficou em frente à outra tevê torcendo para o Goiás manter o 2x1 contra o Internacional e derrubar de vez o Coringão. Os jogos acabam. Começa o carnaval no Palestra. Na saída do estádio, a festa era tanta que inclusive a torcida do Galo, que não tinha nada com o pato, entrou no clima e cantou junto com os palmeirenses. Foi uma tarde inédita no Palestra Itália.

p.s: Foram, sem dúvida, 95 anos bem vividos pelo Palmeiras e que, como dá para perceber um pouquinho acima, não teriam a menor graça sem a presença dos outros grandes clubes do futebol brasileiro.

Hoje o Palmeiras parece estar novamente na flor da idade, graças à renovação que está sendo posta em prática pelo presidente Belluzzo. Que venha a Arena para o centenário.

pp.s.: Como a porquisse na família é hereditária, dedico (e/ou culpo) a meu pai esses momentos listados no Top20.


Alexandre Xavier é jornalista, dirigiu o documentário premiado em Gramado "Do Horror à Memória" e se corresponde quinzenalmente direto das salas de cinema e das locadores de DVD.

Fale com Alexandre Xavier: alexandre_xavier@terra.com.br

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