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Quinta, 27 de agosto de 2009, 08h22 Atualizada às 08h45

Conversando com os botões

Sírio Possenti
De Campinas (SP)

Não se pode deixar de comentar aspectos da cena política brasileira. Nem o comportamento da mídia. Por isso, a coluna de hoje é uma lista de observações sumárias. São apenas opiniões. Melhor, são reações. Pequenas frases que fui dizendo a meus botões.

Para nossa mídia e nossos políticos, um golpe em Honduras não parece tão grave quanto pareceria em outro país qualquer. Entende-se: é um golpe da direita.

A aprovação de um plebiscito para decidir se Uribe pode disputar um terceiro mandato não provocou nenhuma reação negativa, nem de políticos, nem da imprensa. Não houve nenhum editorial duro contra a quebra das regras democráticas na América Latina.

Ora, isso que se concede a Uribe era mais ou menos o que Zelaya queria em Honduras. E nem se tratava de um terceiro mandato, mas de um segundo - como o de FHC.

Pedro Simon é uma vestal em Brasília, o homem da ética. Mas ajuda a proteger a governadora do Rio Grande, lá no Sul. É uma moral cartesiana, isto é, com base nas coordenadas.

O PMDB é um partido adesista, suas lideranças são lastimáveis. Exceto em S. Paulo, dadas as alianças atuais de Quércia. Aliás, o PMDB é razoável também no RS e está ficando bom, cada dia melhor na Bahia. Talvez no Pará. O que se lê sobre as movimentações em direção a Jader Barbalho é surpreendente.

Para Renan e Sarney, só há uma saída: esperar as próximas eleições, torcer pela vitória da oposição e então aderir de novo. Afinal, Renan, se é sustentáculo suspeito de Lula no Senado, já foi Ministro da Justiça no governo do presidente anterior. De Sarney nem é preciso dizer mais nada: equilibra-se há quase cinquenta anos sobre a mesma corda.

Lula é maior do que o PT. Lula enquadra o PT. O PSDB tentou escolher o candidato a presidente em prévias feitas num restaurante. Eram quatro, é verdade...

Marina Silva vai para um partido cujo líder na Câmara é Zequinha Sarney, filho do homem.

Disso tiro enormes dúvidas. Suponhamos que eleitor decida só votar em candidatos sem mancha, absolutamente sem mancha: nenhum conchavo discutível, nenhuma passagem para filhos ou namorados, nenhum financiamento de campanha suspeito (nem mesmo decidido apenas pelo comando, do qual o candidato nem tomou conhecimento), nenhuma nota fiscal arredondada para cima. Acho que vou ter que votar sempre em branco ... ou ficar em casa.

E votar no menos pior, nariz tampado? Será realismo? Será cinismo? Tempos difíceis!

Suponhamos que tivesse que decidir hoje (é um dilema, não uma opção) entre Lula e FHC, isto é, entre o que um e outro representam. Teria que encontrar critérios mínimos. Uma hipótese: distribuição de renda. Poderia concluir que ambos fizeram alguma. O povo acha que Lula distribuiu mais, mas tenho direito de discordar, ou de achar que ele só fez isso porque recebeu um país mais estável.

Ética? Um privatizou, sabe Deus como. O fato de não haver condenações na Justiça quer dizer alguma coisa? Esperemos pelo caso Palocci...

FHC fez uma reforma política que aprovou sua própria reeleição. Lula não lutou por outro mandato por convicção ou por cálculo?

Base parlamentar? Ora...

Para mim, um possível desempate não tem a ver com economia, nem com governabilidade, nem mesmo com política universitária (embora a diferença seja brutal!). Todas essas diferenças podem ser atribuídas à conjuntura (mas à fortuna que à virtù).

A diferença está no trato com a Justiça. Mais precisamente, na indicação do Procurador Geral da República. Você lembra quem exerceu a função (por 8 anos!!) durante o governo FHC? Chamavam-no Engavetador Geral.

Lembra quem exerceu a mesma função durante os governos Lula? Dois anos de Fonteles, quatro de Antonio Fernando Barros e Silva de Souza, aquele que denunciou os implicados no mensalão, todos da base do governo.

Já imaginaram um Procurador assim quando a questão eram os porões das privatizações?

Vou votar. Nariz tampado, vou votar.


Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso e Questões para analistas de discurso.

Fale com Sírio Possenti: siriopossenti@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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"Moral de Simon é cartesiana, ou seja, com base nas coordenadas", diz colunista

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