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Quinta, 27 de agosto de 2009, 08h24

American Movie Critics, editada por Lopate

Vinicius Jatobá
Do Rio de Janeiro

Antologias, geralmente, são frustrantes. Exigem um filtro gigantesco do leitor - textos ruins convivem com pérolas. É a natureza da antologia: não haveria como ser diferente porque a excelência, em qualquer área, é alcançada por poucos. Excelência exige trabalho, reescritura, clareza de pensamento, dedicação; e a maior parte dos profissionais simplesmente se acomoda diante do primeiro reconhecimento. Perdem a curiosidade. Dessa forma, é surpreendente a altíssima qualidade da antologia American Movie Critics, editada por Phillip Lopate para excelente Library of America. Há textos estranhos, politizados em excesso; há textos descentrados, absurdos; há aqueles marcados excessivamente pela primeira pessoa. No entanto, não há nenhum texto decididamente ruim nas 750 páginas na antologia.

Para os amantes do cinema, é uma oportunidade de desbravar por uma série de nomes de diretores que jamais ouviram falar e valem a pena assistir. Percorrendo um arco que vem desde o cinema mudo até os dias de hoje, é uma maciça galeria de filmes - ampla, vasta, eclética. Os textos são tão bem escritos que tornam palatáveis qualquer filme obscuro; e o emburrado com sua locadora vai encontrar um novo fôlego. Para os iniciados, é a oportunidade de descobrir novos nomes para além dos papas da crítica de cinema estadunidense - Ferguson, Agee, Farber, Sarris e Kael.

O humor e o senso estético de Ferguson são de um frescor admirável mesmo quase setenta anos depois que foram escritos. Há, naturalmente, algumas escolhas que causam choque - sua resistência à Cidadão Kane, por exemplo -; mas ainda assim há uma razão fundamentada que nos faz pensar em seus argumentos. Ferguson é um crítico de verdade, e que seu pensamento ainda tenha o poder provocativo tantas décadas depois - em uma audiência para a qual não escreveu suas críticas - apenas atesta a qualidade de sua prosa. É uma tragédia que Ferguson tenha morrido tão jovem. Seu legado consta de apenas uma edição de 400 páginas. É ouro, por certo; vale outro; mas transtorna o desejo de leitor saber que poderia ser mais amplo.

Ao contrário de Ferguson, o que sobrevive em Agee é apenas sua prosa. É impressionante o enamoramento de um homem tão inteligente quanto Agee por filmes tão aberrantes (assim como a estreiteza provinciana de suas escolhas); ao mesmo tempo, Agee, em plena década de 1940, nem celebrou o nascimento do Noir quanto valorizou o canto do cisne dos musicais. Ao contrário, parece que sequer notou o que acontecia. A permanência de Agee entre os papas da crítica é tensa: ele faz um jornalismo cultural modelar - prosa enérgica, adjetivos bem escolhidos, retórica criativa e sedutora -, e está algumas milhas de distância do aborrecido jornalismo papai-e-mamãe feito hoje em dia; no entanto, e apesar de momentos brilhantes (como os ensaios sobre o cinema mudo e John Huston, que não estão na antologia), os textos de Agee escolhidos para antologia simplesmente o empalidece diante dos outros. Malícia do organizador?

Manny Farber é Manny Farber. Ponto final. É criativo, absurdamente sensorial; dotado de um impressionante senso de detalhe. É provocativo. Os textos da antologia são mais ensaios escritos para revistas especializadas; Farber, no entanto, também se dedicou ao jornalismo semanal. Ele possui uma prosa excepcional - muscular, excessiva, debochada -; e, como Agee e Ferguson, Farber pode ser considerado escritor. Sua prosa, inclusive, é um desafio para qualquer tradutor. O escopo de suas escolhas vai de Godard a Herzog, de Sturges a Fassbinder, de Ozu a Altman. E ele tem crédito por duas coisas - por ser uma voz resistente diante do poder da moda (a crítica, de modo geral, corre sempre o risco de ser guia de consumo); e por ser o defensor de um cinema médio diante da arte pretensiosa (não é apenas na literatura que escrever uma frase sem pé nem cabeça garante prêmios; no cinema, até hoje, tremer nervosamente a câmera e enquadrar encardidamente um ator conta pontos na escala de prestígio da Grande Arte). Hoje é fácil elevar a arte de Samuel Fuller, por exemplo. Mas Farber, sozinho, brigava por diretores marginalizados pela arte pretensiosa nas décadas de 1950-60.

O que o diferencia Farber de todos os outros críticos é a individualidade de seu pensamento. Ele tem essa qualidade: é um animal solitário. Sarris formou seu pensamento inspirado da escola crítica francesa; Kael formou seu pensamento, curiosamente, fazendo polêmicas com Sarris. Mas nem muito do que Sarris pensa tem verdadeiro frescor; e Kael é uma piada. Há muito do que gostar no que ela escreve, é certo; porém - um porém bem denso -, não há como levar Kael a sério. Sua resposta a Sarris pode ser interpretada da seguinte forma: ao criticar a teoria de autor ela se defendia de uma carga intelectual que ela mesma não dispunha para analisar filmes. O instrumento de Kael era o reflexo emocional: ver o filme e responder imediatamente a ele. Sarris queria uma teoria geral e ampla; Kael queria o gesto mínimo, improvisado. Só que Sarris escolheu bem seus instrumentos, e o registro de seus textos é saudável e pujante; por outro lado, Kael prega o sensualismo e improviso, mas se mostra encabulada. É de se pedir perdão, claro, mas pornógrafo encabulado não existe; e Kael apenas em trechos possui o despojamento em relação a sua prosa que ela pregava em relação aos filmes. Poucos críticos tiveram o privilégio de ter tanto espaço para desenvolver suas idéias - e a New Yorker, com inteligência, dá espaço aos seus críticos (e os paga bem, claro; não há como ter jornalismo de qualidade sem pagamento)-; no entanto, a impressão que se tem é que Kael renderia mais com menos.

Há outras surpresas e descobertas na antologia: Cecilia Ager, que na década de 1930 escrevia uma crítica inteligente que se focava na arte e cenários; Jonas Mekas, um cinesta alternativo, que traz um olhar de fora; Stanley Kauffmann, crítico egresso do teatro que tem um olhar preciso para interpretação e a relação entre plano e ator; Vincent Canby, um herói da qualidade que escreveu uma crítica por dia por mais de uma década; um ensaio maravilhoso sobre filme noir escrito por Paul Schrader, futuro roteirista de clássicos como Taxi Driver e Touro Indomável; textos dos brilhantes J Hoberman e Jonathan Rosenbaum, críticos que possuem livros densos sobre cinema; perfis do mestre dos perfis, David Thomson; e uma generosa aposta na nova geração, com críticas de Nathan Lee, Gilberto Perez e Stephanie Zacharek. American Movie Critics é uma antologia obrigatória para qualquer amante de cinema.

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Após quase um ano escrevendo semanalmente essa coluna, chegou o momento de dar uma pausa de pelo menos seis semanas. Gostaria de agradecer a leitura assídua de todas as pessoas que me escrevem com regularidade. Até a volta.

Vinicius Jatobá é jornalista cultural e mestre em Estudos de Literatura pela PUC-Rio. Colaborou em vários suplementos e revistas, e atualmente escreve sobre livros em jornais.

Fale com Vinicius Jatobá: vinicius_jatoba@terra.com.br

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Reprodução
American Movie Critics, editada por Phillip Lopate, coletânea de qualidade "surpreendente"

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