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Reprodução
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Paulo Costa Lima
De Salvador (BA)
A frase foi 'imortalizada' por Chacrinha, que num gesto performático bastante esdrúxulo jogava bacalhau para a platéia - na época, bem mais barato. Ao admitir que queria bacalhau, o público confessava sua raiz povão - ir a um auditório famoso participar de um programa musical e levar bacalhau pra casa: tudo a ver!
A imagem vai convocada nessa crônica para colocar em discussão a questão da qualidade em música. Uma questão espinhosa, porque para chegar a alguma decisão aceitável será sempre necessário apresentar os critérios utilizados. Não vale simplesmente dizer, 'eu gosto mais dessa!', porque aí não precisa nem começar a discutir.
Se houvesse um programa de auditório globalizado - como esses que às vezes assistimos no YouTube - e fosse necessário escolher a música que apresentasse maior qualidade, o que fariam os jurados se as candidatas fossem: a) Mozart (quarteto de cordas); b) Beattles (Abbey Road) ; c) uma bateria de Escola de Samba do Rio; d) Ravi Shankar, e) Stravinsky; f) Roberto Carlos; g) Hip Hop?
Não sei dizer o que esse jurado hipotético faria. Nesse ponto, talvez alguns de vocês leitores já estejam convencidos de que trata-se de um tema impossível. Nem deveria ser abordado. Afinal: gosto não se discute, diz a velha máxima. Mas, infelizmente, não é possível fazer isso.
Pensem nos gestores de cultura espalhados pelo mundo afora. Eles têm que destinar dinheiro público para a produção e difusão da arte musical. Como escolherão o que deve ser apoiado e o que não deve? E o que dizer dos que trabalham com currículo, que músicas devem compor o currículo dos brasileiros?
Isso sem falar em todos os criadores de música do mundo, que, a cada vez que se defrontam com suas criaturas em formação, esperam, sinceramente, estar dando passos de qualidade. Se ao menos soubessem o que é isso! Decisões sobre qualidade de música são tomadas milhares de vezes todos os dias em todo o planeta.
Vale lembrar um dos grandes paradoxos do nosso tempo: quando todas as músicas se tornam igualmente aceitáveis - todos os critérios se tornam igualmente irrelevantes.
Estamos vivendo uma época em que um número bem maior de alternativas musicais passou a circular e ser aceitável. Mas essa mesma época busca homogeneizar ao máximo os mercados, e obter lucros astronômicos com a venda de produtos musicais. Mas também inventa mecanismos de burlar tudo isso pela rede de computadores...
A visão de cunho antropológico foi crescendo ao longo do século XX, especialmente nas últimas décadas, junto com a florescência dos estudos culturais - todos os processos humanos de simbolização merecem atenção e estudo, do funk ao bolero.
Mas, lembra aquele velho vanguardista: onde fica a responsabilidade artística (social, epistemológica) com a produção de novas conquistas sonoras? Coisas difíceis, que sem estímulo e redoma não vão brotar por aí como capim... Talvez essa aceitabilidade universal seja uma ilusão, levando a uma adesão ainda mais cega ao mercado. Sem critérios, vale somente a força da grana.
Por outro lado, a grande diversidade musical revelada em centenas de culturas, muda radicalmente a concepção anterior sobre qualidade em música. Exige uma outra cabeça, sem dourar paraísos teleológicos, sem imaginar historicidades forçadas. E vale observar, que essa diversidade existia muito antes do capitalismo. Não têm culpa pela ganância da industria cultural.
Algumas vezes o problema é resolvido pela decisão de incentivar a diversidade - já que esta contrapõe-se à homogeneização. Tem sido uma meia sola deveras importante. Mas a questão permanece mais aberta do que nunca: vocês querem bacalhau?!?
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