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Sexta, 28 de agosto de 2009, 08h07

Antes de twittar, que tal pensar?

Marcelo Carneiro da Cunha
De São Paulo

Rimas, como diria Drummond, não são soluções, mas apenas bons títulos, quem sabe? Na outra semana rimei "Record", com "pior" e um tsunami de e-mails se abateu sobre as minhas praias e eu gostei. Daqui pra frente, tudo vai ser diferente, e rimado, vocês vão ver.

E, cá estava eu, na tranqüilidade da Mansão Carneiro da Cunha, rererererelembrando um delicioso conto (acho que) de Tchecov, sobre um marido traído que resolve, naturalmente, em sendo um conto russo do século 19, matar a mulher e seu amante. Ele então vai até uma loja de armas e explica o seu drama para o vendedor, que começa a descrever com muito entusiasmo as virtudes de cada revólver, pistola, bazuca, AR-15 e similares, disponíveis no arsenal da loja. O marido, um sujeito do bem, apenas com a dor da traição ardendo nas têmporas, vai se apavorando mais e mais com as conseqüências do seu ato desejado na teoria, mas inviável na prática. Ao final da conversa, ele compra uma rede de pesca e volta ao mundo.

Penso nisso porque penso nas consequências dos usos do Twitter, recém chegado ao maravilhoso mundo da rede mundial de computadores e já provocando confusão. Na confusão da semana, temos uma redefinição da palavra irrevogável, por conta do Twitter do senador Mercadante, com consequências bastante duras, para quem pensou com o dedo e twittou antes do tempo certo, que deveria ser nunca.

E, pensando com alguma calma, aqui na distância que minha luxuosa laje em Pinheiros me dá em relação ao mundano e efêmero do mundo lá em baixo, acho que o problema é terem inventado um modo fácil demais de materializar os nossos impulsos.

Não era melhor antes, quando a gente brigava com a namorada e resolvia terminar tudo, e aí tinha que escrever uma carta, arrumar envelope, selo, ir até os Correios - para então enfrentar a fila de gente comprando Tele Sena? Por essas horas, nossa raiva já estava derretida há tempos e a gente podia deixar pra lá, jogar a carta no lixo juntamente com nossas piores intenções e pronto, tudo seguia calminho e igual, para o nosso bem. Se o marido do conto de Tchecov tivesse à mão um meio de materializar o seu pior impulso, teríamos uma mulher e seu amante mortos, de susto ou de bala, um marido preso, e, talvez pior, nenhum conto.

Eu creio que meus leitores, eu, o senhor aqui ao lado, todos nós sabemos o que acontece se seguimos o impulso e o momento. Podemos revelar às nossas mulheres ou maridos algo que ficaria muito melhor debaixo de metros de entulho e esquecimento. Podemos teclar algo para a nossa namorada que vamos lamentar pro resto de nossas vidas. Podemos twittar para o nosso chefe o que pensamos dele ou dela, no meio da balada, cheios vodca e heroísmo, cometendo o erro de compartilhar de algo que ficaria muito, mas muito melhor na nossa cabecinha e de mais ninguém. Podemos revelar fragilidades desconhecidas, de nossas ideias ou de nosso conhecimento gramatical. Podemos estragar uma amizade de décadas com um algo twittado sobre algo que podemos ou não ter feito e que envolve alguém muito querido de nosso melhor amigo e que acordou ao nosso lado, para espanto mútuo.

Porque, estimados leitores, sofremos de algo chamado angústia continente, ou algo assim, em linguagem psicanalítica. Não nos aguentamos em nós mesmos. Nossas emoções vão se represando, o nível subindo, atingindo a garganta, e aí um detalhe, um empurrãozinho ou um golezinho a mais no Pernod ali no Lago do Arouche e pronto, passamos do ponto e lá vamos, falando o que não devíamos, para quem não precisava saber, e que é melhor ter memória seletiva ou o dia seguinte vai ser esquisito para todos os envolvidos.

Por sermos assim, o twitter nas mãos erradas - nas nossas - é um perigo, por transformar um constrangimento entre poucos num possível mico entre milhares. Por isso mesmo, por ainda lembrar dos conselhos sábios da minha querida avó Jovita é que eu não twitto, por mais que me peçam e mandem. Eu conheço os meus impulsos, e eles merecem um caixão trancado e uma estaca no coração, nunca um sistema instantâneo e mundial de distribuição.

E, sendo justo para com o tadinho do seu Twitter, quero compartilhar com os leitores mais uma inquietude: leio que, nos Estados Unidos, filmes bombados na mídia terminaram em desastre de público, simplesmente porque o público chamou para si a responsabilidade de achar alguma coisa sobre o filme, e, em não gostando do que viu, mandou bala no twitter, avisando o mundo lá fora e aguardando na fila para economizar no ingresso e usar a pipoca em outra sala.

O Twitter se torna assim num espinho no dedo dos marqueteiros, incapazes de controlar o que todo mundo vai achar do que eles embrulharam bonitinho e venderam como o que poderia ser, talvez não exatamente o que era.

E assim talvez sejam essas inovações do século 21, em sua capacidade de nos libertar da mídia tradicional, mas também em sua capacidade de nos fazer dar tiros no próprio pé para uma plateia enorme, de maneira tão instantânea quanto irrevogável. Assim, que tal colocarmos um band-aid de prevenção no dedo que twitta, antes de twittarmos qualquer coisa? Quem sabe esse não é o caminho para a salvação?

Para o senador Mercadante, essa singela contribuição pode ter vindo tarde demais. Mas para os meus queridos, estimados e multiplicados leitores, ainda há tempo. Sintam, pensem, esperem, esperem de novo, tesconjuro, cruz credo treiz veiz, e então, e somente então teclem, nessa ordem. O casamento, o namoro, o emprego, as amizades, as mães, a imagem de vocês, lá do cantinho onde vivem e esperam receber o que você tem pra dar, agradecem.


Marcelo Carneiro da Cunha é escritor e jornalista. Escreveu o argumento do curta-metragem "O Branco", premiado em Berlim e outros importantes festivais. Entre outros, publicou o livro de contos "Simples" e o romance "O Nosso Juiz", pela editora Record. Acaba de escrever o romance "Depois do Sexo", que foi publicado em junho pela Record. Dois longas-metragens estão sendo produzidos a partir de seus romances "Insônia" e "Antes que o Mundo Acabe".

Fale com Marcelo Carneiro da Cunha: marceloccunha@terra.com.br

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