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Sexta, 28 de agosto de 2009, 08h00

Não é a produção que se deve amar, mas o teatro...

Deolinda Vilhena
De Santos (SP)

Ariane Mnouchkine em uma de suas entrevistas à Fabienne Pascaud, falando de Pierre Salesne - administrador do Théâtre du Soleil - depois de muito elogiá-lo por sua maneira de trabalhar numa profissão que lida com "o pior lado das pessoas, pois desde que se trata de dinheiro, todo mundo mostra-se complicado", concluiu ser uma pessoa de sorte por ter em sua companhia alguém que "ama, não a administração mas o teatro". Há anos vivo dizendo que não é a produção que se deve amar, mas o teatro...

Hoje vou contar para vocês um pouco do momento que estou vivendo, um momento que já dura um bom momento e que nasceu da minha vontade de transformar a produção, essência da prática, em teoria.

Tudo começou em dezembro de 1976, quando de mudança para o Rio de Janeiro, onde faria vestibular para jornalismo, comecei a trabalhar como assistente de produção de Sandro Polloni, companheiro de Maria Della Costa que generosamente havia prometido um ano antes abrir as portas do mundo do teatro para essazinha que vos escreve. Durante 21 anos trabalhei como assistente de produção, produtora executiva, diretora de produção, produtora, sem falar nos "bicos" como administradora teatral, secretária de frente - como se chamavam os responsáveis pelas turnês nos meus tempos de mambembe - e last but not least assessora de imprensa.

Tenho um elenco nas costas, da companhia Maria Della Costa fui trabalhar com Rosamaria Murtinho, numa produção de Beyla Genauer, depois fiquei como agregada das produções de Cecil Thiré e companhia no Teatro Gláucio Gill, fazia de tudo um pouco mas oficialmente vendia os programas dos espetáculos - era uma excelente vendedora e Norminha Thiré está aí para não me deixar mentir...depois trabalhei com Clara Nunes, Bibi Ferreira, Tônia Carrero, Nathalia Timberg, Nicette Bruno, Paulo Goulart, Dias Gomes, Paulo Gracindo, Gracindo Júnior, Italo Rossi, Miguel Falabella, José Wilker, Mauro Mendonça, Osmar Prado, Claúdia Raia, Carlos Augusto Strazzer, Wolf Maia, Claúdia Jimenez, Maitê Proença, Marisa Orth, Luiz Mendonça, Alice Viveiros de Castro, Angela Leal, Djenane Machado, fazia projeto-escola (vendia espetáculos para escolas e universidades) da Fernanda Montenegro quando ela fazia Dona Doida da Adélia Prado...fui bilheteira do Teatro Rival nos velhos e bons tempos do "seu" Américo Leal - pai da Angela e avô da Leandra...fiz de tudo um pouco, varri palcos de muitos teatros nesse Brasil numa eterna demonstração da minha paixão pela profissão que escolhi... Nunca quis ser atriz, nunca quis estar num palco...dizem meus amigos mais chegados que sequer gosto de teatro, que gosto mesmo é de produzir teatro. Mas eles sabem que só gosto de produzir teatro porque amo o dito cujo, dele não só tirei o meu sustento - e viver de teatro no Brasil é uma guerra diária - como, por causa dele, me fiz Doutora - quase Pós-Doutora. Eu, que um dia, escrevi um poema dizendo que, tudo o que queria era "ser doutora na arte de viver".

Mas depois de 21 anos de profissão comecei a achar que era pouco produzir, não queria chegar aos 50 - que comemoro daqui a dois meses - fazendo apenas produção. Sentia que estava emburrecendo, queria mais, queria dividir tudo o que tinha aprendido até então e aprender mais, muito mais.

Foi assim que cheguei à Universidade de São Paulo querendo fazer um Mestrado para depois partir para a França fazer um Doutorado. Demorei dez anos para colocar em prática meu sonho, mas semana passada ele se tornou realidade: dei a primeira aula da disciplina Produção teatral no Departamento de Teatro da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Ainda como professora convidada, bolsista de pós-doutorado da FAPESP, ainda com uma disciplina optativa, mas que a partir do próximo ano será obrigatória. A primeira batalha foi vencida, outras tantas hão de surgir, assim como os obstáculos, os empurrões - para frente, mas também para trás - mas lancei a primeira semente para formar um dia, talvez, quem sabe, produtores que amem não a produção, mas o teatro.

Em muitas universidades existe a disciplina - e mesmo a habilitação - Produção cultural, nada contra...mas teatro é teatro e quero produtores de teatro e não produtores de evento. Produtores que conheçam a história do teatro, a teoria teatral, que saibam a diferença entre "côté cour" e "côté jardin", que conheçam Antonin Artaud, André Antoine e Aurélien Lugné-Poe...que saibam apreciar um bom texto, que saibam aplaudir um momento verdadeiro de teatro, que saibam diferenciar o Théâtre du Soleil do Cirque du Soleil, logo Ariane Mnouchkine de Guy La Liberté, que saibam quem foi Abigail Maia e Oduvaldo Vianna (pai e filho!), Itália Fausta e Procópio Ferreira, Dulcina e Odilon mas também Jean-Louis e Madeleine Barrault, Louis Jouvet, Jacques Copeau, Jean Vilar e vai por aí.

Por tudo isso, comprei uma luta para incluir a disciplina Produção teatral nos cursos de Artes cênicas naquela que é a mãe de todas as universidades brasileiras, a USP. Para minha felicidade o projeto foi "comprado" pelo atual diretor do departamento Felisberto Sabino da Costa e pelo coordenador pedagógico da Graduação em Artes cênicas, José Batista Dal Farra Martins, ou simplesmente Zebba. No meio do caminho encontrei pedras mas, também o apoio de amigos/colegas ou de colegas/amigos, como Antônio Araújo, Cibele Forjaz, Maria Thaís e minha tutora de post-doc Sílvia Fernandes, sem falar do apoio dos mestres como Sábato Magaldi e José Eduardo Vendramini. A responsabilidade é enorme. Com a obrigatoriedade da disciplina na grade curricular do curso poderei dar continuidade ao meu sonho: criar um Centro de Produções no mesmo departamento e lá formar mais do que atores, cenógrafos, figurinistas, diretores, mas produtores/gestores capazes de mudar, um dia, o panorama do teatro nesse país, para que deixemos de ser o "primo pobre" e possamos assumir nossa nobreza.

É necessário que se crie o reinado do verdadeiro produtor, não esse produtor misto de captador de recursos que só visa os 10/20% da captação, e quer apenas produzir sem pensar em formação de platéias, sem amar o teatro, sem plantar frutos para que possamos, todos, colher depois. Mas o produtor apaixonado, que saiba que administrar é bem mais que fazer dinheiro, não que não precisemos do dinheiro, claro que precisamos, até porque produzir é um ofício e deve ser remunerado, mas produzir pode - e deve - ser muito mais.

Lembro de uma entrevista do Bernard Faivre d'Arcier - diretor do Festival de Avignon entre 1980 e 1984 e entre 1992 e 2003, uma das pessoas que mais entende de produção nesse planeta - ao L'Express na qual ele falava da importância da produção e da influência que ela exerce na estética teatral dos países, ele dizia assim:

"Tomemos o caso da Europa. Porque os autores ingleses escrevem peças com quatro personagens? Porque é o que corresponde às condições econômicas do teatro inglês. Porque, na França, temos pequenas companhias sem grandes atores? Porque as subvenções são salpicadas entre muitas companhias. Porque, no entanto, na Polônia, você pode montar uma peça com 30 atores em cena? Porque lá os atores não custam caro e são permanentes."

Temos muito o quê aprender e discutir nessa área. Pesquisas poderão explicar o fenômeno do teatro de grupo, os coletivos, os colaborativos...tudo passa pelo modelo de produção. Anos e anos de trabalho pela frente.

Sem falar na importância de formar produtores/gestores/administradores capacitados num departamento de teatro, que fará com o teatro não seja olhado nem como o "primo pobre" nem como um simples galho da grande e poderosa árvore da economia. E só gente de teatro pode produzir teatro. Precisamos dizer não aos oportunistas, aos aventureiros...eles serão bem-vindos com a condição de amar o teatro sobre todas as coisas, mesmo sobre o capital.

Tudo o que espero é não decepcionar quem apostou em mim e acima de tudo os que se inscreveram no curso. Quero dividir com eles o que aprendi em quase 36 anos de profissão e em dez anos de estudo entre França e Brasil. Mas o que quero mesmo é contaminá-los com a paixão que me une ao meu trabalho, para que possam buscar a estética de uma ética num país onde há muito essa palavra perdeu o sentido.

Hoje à noite darei minha primeira aula, para uma turma de 23 pessoas compostas de funcionários/colaboradores do Teatro da Universidade de São Paulo, um curso que se chama Produção teatral, arte e ofício, atendendo a um convite da diretora da casa, Maria Thaís. Mais do que meus primeiros alunos, nessas turmas estão na verdade os meus professores pois, com eles, espero aprender a dar aulas, a transformar em teoria aquilo que aprendi na prática com Sandro Polloni, Pedro Rovai, Bibi Ferreira e tantos outros.

Fecho a coluna de hoje com uma frase do Sandro Polloni, modesta homenagem a quem forjou a profissional que sou na esperança de ter sempre em minha vida profissional a postura pioneira e a ética da Companhia Maria Della Costa:

"nunca abrimos o pano de boca de nosso teatro para um fracasso. E, no entanto, eles vieram. E ainda aí, na solidão que nos foi reservada, encontramos forças para reagir. E reagimos. Estamos sempre começando. E participando do jogo. Assim é !!! E assim será. Porque essa é a nossa profissão. Porque essa é a nossa vida!"


A Cinética do invisível, de Matteo Bonfitto
Foto: Divulgação

PS - Dica da semana: estão todos convidados para o lançamento do mais recente livro de Matteo Bonfitto, editora Perspectiva, que acontece na próxima quinta, dia 3 de setembro na Livraria da Vila, na Alameda Lorena.

Para os que ainda não conhecem o trabalho de Matteo Bonfitto, saibam que ele é ator, diretor e pesquisador teatral, tendo atuado em vários espetáculos no Brasil e no exterior. Publicou artigos sobre os processos de atuação e é autor de O Ator-compositor (Perspectiva, 2002). Fundador do Performa - Núcleo de Pesquisa e Criação Cênica

Cassiano Sydow Quilici apresenta assim o livro "o impacto sutil provocado pela Tempestade, encenada por Peter Brook em 1991, foi o estímulo deflagrador para que Matteo Bonfitto desenvolvesse sua pesquisa de doutorado, que aqui se apresenta. Além de ocupar-se de uma lacuna na bibliografia brasileira sobre o diretor inglês, em A Cinética do Invisível, Bonfitto nos propõe uma singular abordagem da sua obra. Apoiado em amplo estudo da prolífica produção de Brook, o autor nos conduz a uma estimulante sondagem das "bases invisíveis" do seu trabalho. Percorrendo o período que vai das experimentações da década de 60, até as investigações desenvolvidas no CICT, o que sobressai nesse estudo é um Brook articulador e inventor de processos de criação, homem profundamente interessado na arte do ator e na exploração de possibilidades do ser humano."

Deolinda Vilhena é jornalista, produtora, Doutora em Estudos teatrais pela Sorbonne, pós-doutoranda em Teatro na ECA/USP com bolsa da FAPESP.

Fale com Deolinda Vilhena: deolindavilhena@terra.com.br

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Acervo-Idart/Reprodução
Sandro Polloni, meu grande professor

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