
Vitor Hugo Soares
De Salvador (BA)
Neste artigo se tratará de Senado e senadores. Digo: de cinco destes senhores do parlamento - quatro brasileiros (Zé, Heráclito, Aloizio e Eduardo) atores tragicômicos da trupe que encena crise ética infindável, e o norte-americano, Edward Kennedy. Este último, morto em combate de muitas batalhas contra um câncer. Deixa ao partir marcas simbólicas em seu país, onde Ted está sendo recordado como um dos políticos mais influentes e mais decisivos dos últimos 50 anos, até quando comparado com seus poderosos irmãos, John e Bob.
De uma forma ou de outra, para glória, humilhação ou desonra, os cinco foram destaques desta penúltima semana de agosto de 2009. No entanto, no começo destas linhas abre-se espaço para as palavras do deputado Ulysses Guimarães. Aquele que em seu Decálogo do político e do estadista estabeleceu a coragem como primeiro mandamento.
O pusilânime nunca será estadista, pregava Ulysses, invocando um mestre mundial na matéria: Winston Churchill. Para o líder britânico, das virtudes, a coragem é a primeira, porque sem ela, a fé, a caridade, o patriotismo, desaparecem na hora do perigo.
"Há momentos em que o homem público tem que decidir, mesmo com risco de sua vida, liberdade, impopularidade ou exílio. Sem coragem não o fará", escreveu o velho timoneiro no Decálogo publicado em "Rompendo o Cerco". "Homem público", no caso, tem aqui o significado clássico da expressão. Mas vale também para as mulheres da política e do poder: Dilma Rousseff, da Casa Civil; a senadora do Acre, Marina Silva (petista durante 30 anos e Verde a partir deste domingo); e a vereadora do PSOL de Alagoas, Heloisa Helena, por que não, em sua brava insubmissão?
Que conste também desta seleta relação o nome da ex-secretária da Receita Federal, Lina Vieira. Mesmo que esta mineira de nascimento com pegadas fortes de sua passagem em terras do Nordeste, pareça contentar-se com seu perfil profissional "dedicado exclusivamente a administração fazendária", conforme ela declarou no depoimento à CCJ do Senado, que segue causando abalos dentro e fora da Receita. A inclusão se dá pelo mérito do corajoso debate que ela suscitou sobre ética, verdade e mentira no exercício do poder e do serviço público, ao confrontar a poderosa comandante da Casa Civil do governo Lula, no caso do encontro particular das duas no Palácio do Planalto.
Este debate, se não perder seu essencial viés ético ao focar a questão da verdade e da mentira no exercício da atividade pública, para naufragar no terreno pantanoso das futricas partidárias, ideológicas e eleitorais, pode ser útil ao país.
E estamos de volta ao começo. Retomo então o rumo, quase perdido, a partir da morte do senador democrata dos Estados Unidos, Ted Kennedy, até esta semana, o último sobrevivente da chamada era de ouro do clã Kennedy, morto aos 77 anos, e que será enterrado neste sábado (29) em Massachussets, estado pelo qual se reelegeu sete vezes seguidas.
Há 40 anos, depois dos assassinatos dos irmãos John, em 63, e Bob, em 68, quase todos apostavam que seria Ted o próximo Kennedy na Casa Branca. Logo ele, que talvez por ser o caçula da família, se tomava menos a sério quanto ao seu futuro na política, e também quanto à sua respeitabilidade pessoal, como assinalam alguns dos que escrevem agora na mídia o obituário do único Kennedy metido na política que chegou à velhice, atuante senador, e com o máximo de respeitabilidade possível entre os homens públicos de seu país.
Quem diria, sobretudo ao olhar para o começo da história deste Kennedy quando jovem, e mesmo já adulto? Dado a meter os pés pelas mãos, como quando foi expulso da rígida e referencial Universidade de Harvard por ter copiado uma prova de Espanhol, como lembram os jornais agora. Ou quando - já casado com a modelo Joan Benett - viu-se, em 69, diante da estranha morte da jovem Mary Jô Kopeckne, na volta de uma festa. O carro dirigido por Ted caiu no lago e Mary morreu afogada. Edward escapou e levou mais de 10 horas para informar à polícia sobre o acidente.
Ted Kennedy morre reabilitado. Retomou o caminho da verdade e da coragem na atividade pública e na vida privada. Não chegou à presidência de seu país, é verdade, mas o senado na vaga do irmão morto, que parecia um prêmio de consolação, acabou possibilitando a ele "uma das caminhadas políticas mais fascinantes da história dos Estados Unidos". A ponto de o presidente Barack Obama ter suspendido suas férias para chorar a perda de Ted e exibir seu "coração partido" pela partida do "grande senador da América".
Que diferença para o que se viu esta semana no senado em Brasília, de tanto cinismo e comportamentos servis. Enfim, da ausência da coragem moral e política que separa o estadista do pusilânime.
Terra Magazine
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AP
Ted Kennedy, comparado aos mais influentes políticos americanos.
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