
Roberto de Sousa Causo
De São Paulo
Ao mesmo tempo que toca em questões macro-estruturais que preparam o terreno para as grandes revoluções - o desemprego, a inflação, o nacionalismo frustrado, a insegurança institucional -, o filme tem o cuidado, muito preciso e delicado, de mostrar os pequenos descontentamentos e fraquezas que cada um de nós carrega consigo: a família desagregada ou de pais ausentes, o tédio da classe alta, o ressentimento da classe baixa, as pequenas invejas de colegas e amigos, a rivalidade de outros grupos, o uso de drogas, a necessidade individual de brilhar e que paradoxalmente encontra apoio na cooperação do grupo.
O jovem elenco alemão é muito superior ao elenco de "adolescentes" americanos do telefilme, e Vogel faz um Rainer Wenger algo ridículo - ele é baixo, todo torto e muitas vezes parece desamparado -, como aliás, cabe à maioria dos ditadores da história. A nova produção trabalha mais a ambigüidade desse personagem, registrando o seu próprio ressentimento com relação à formação superior de sua mulher (que é até mais alta do que ele). O próprio Jones não esteve livre de ambigüidades, durante o experimento: "Eu agora agia instintivamente como um ditador", escreveu. "Oh, eu era benevolente. E todos os dias debatia comigo mesmo quanto aos benefícios da experiência de aprendizado. Por isso, no quarto dia do experimento eu começava a perder meus próprios argumentos. Conforme passava mais tempo interpretando o papel, menos tempo tinha para recordar as suas origens racionais e seu propósito. Eu me via deslizando para dentro do papel mesmo quando ele não era necessário. Eu me perguntava se isso não acontecia a muitas pessoas."
A versão de Gansel também é mais trágica do que o telefilme de Norman Lear. Afinal, este é um filme pós-Columbine e a Alemanha que retrata ainda tem de lutar contra a terrível memória do nazismo - tanto que agora a pergunta que dispara o projeto do professor é se a Alemanha teria deixado a ditadura hitlerista para trás, agora imune a qualquer projeto autocrático.
Quanto a Jones, dizem que teria sido chamado de comunista e perdido o emprego de educador. Hoje, dá palestras e oficinas (http://www.ronjoneswriter.com/). Em um ensaio disponível na Internet, ele afirma: "Não tenho orgulho da Onda, mas não posso escapar dela!... Para mim A Onda é uma história de fantasmas. O que podemos nos tornar. A atração do bem e do mal. Escolhas. Lamento, mas no fim não posso responder às suas perguntas sobre A Onda... Suspeito que as respostas que você busca estão mais próximas do que alguma batida de tambor distante. São as escolhas que você faz. A decisão que inclui ou exclui pessoas da sua vida. Caminhar por uma sala para conhecer um estranho. O estranho em você e em todos nós. Confiar em você mesmo e em outros. Lutar por justiça e igualdade na pulsão da sua vida... Organizar-se com um sentido de comunidade e para uma vida melhor para todos. Uma vida que não pode ser cedida a qualquer medo ou tirano. Uma vida que não pode ser planejada ou explicada, apenas apreciada." E finalmente: "Sim, existe o bem e o mal no que fazemos. O bem em mim anseia por liberdade. O mal existe na violência no trânsito ou na piada racial esperando para explodir sob a forma de um mundo de perfeição, respostas e ordem. Eu sou capaz das duas."
Não se trata, na visão dele, de um experimento que traga respostas definitivas nem que conduza a uma ideologia. O máximo que ele pode exigir é a atenção individual aos próprios impulsos e respostas. Ou o que Jones chamou, no ensaio "The Third Wave", de "Força pelo Entendimento" - o último estágio, aquele que vem para relativizar todos os anteriores, exigindo que disciplina, comunidade, orgulho e ação sejam abordados criticamente.
Este não é um filme de ficção científica, mas certamente explora os conteúdos do tipo de FC conhecida como distopia, e deveria ser visto por todo fã de FC - e por todo cidadão, em idade escolar ou não. O que ocorreu na Cubberley High School toca as pesquisas científicas atuais em torno do conceito da emergência (de "emergir" e não de "fugir-para-salvar-a-vida"), a idéia de que sistemas e padrões complexos surgem de interações relativamente simples. Uma teoria que tem entrado com força na ficção científica deste início de século 21.
Ela não deve, no caso dos exemplos de dinâmica social humana - como o famoso experimento de prisão de Stanford (1971) -, ser confundida com o discurso determinista do passado. Ao contrário, se certas dinâmicas podem levar a comportamentos problemáticos, é a vontade individual e a postura crítica que garantem que escaparemos delas.
O outro grande tema do filme é, obviamente, a educação. Como educar nossos filhos (e nós mesmos) para a democracia, para o comportamento ético e para o respeito à diferença? O que está claro é que, do jeito que vamos, com toda a sociedade parecendo querer educar apenas para o mercado e para o consumo, a semente da Onda continuará caindo em terreno fértil.
Terra Magazine
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Reprodução
A Onda novela, escrita por Todd Strasser
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