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Sábado, 29 de agosto de 2009, 08h08

Cinema: A Onda

Roberto de Sousa Causo
De São Paulo

A Onda (Die Welle). Dirigido por Dennis Gansel. Alemanha, 2009, 101 minutos. Produzido por Christian Becker, Nina Maag e Anita Schneider. Distribuição MovieMobz. Com Jürgen Vogel, Max Riemelt, Christiane Paul, Jennifer Ulrich, Jacob Matschenz, Frederick Lau e Cristina do Rego.

Há muito tempo atrás, provavelmente em um domingo da década de 1980, enquanto eu me arrumava para ir a uma das discoteques da cidade de Sumaré, São Paulo, em que eu vivia, liguei a televisão e fui retido por um filme que começava.

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Naquela época a estética do filme independente ainda não havia se estabelecido, mas alguns filmes feitos para a TV usavam um tipo de videotape que os marcava de imediato como tendo menos recursos técnicos do que a maioria. Esse filme era um deles, e é curioso que ele tenha me segurado em casa. Havia algo de naturalista nele, como se fosse um semidocumentário - narrando uma espécie de experimento realizado em classe de aula, em uma high school americana.

Esse filme se chamou A Onda (The Wave), produzido em 1981 e dirigido por Alex Grasshoff, e ganhou um Prêmio Emmy. Apesar da qualidade tosca da produção e de ser um curta metragem de apenas 44 minutos, ele teve um profundo e duradouro impacto em mim.

O que se sabe sobre o experimento que deu origem a ele é que o professor de história Ron Jones (interpretado por Bruce Davison, o senador antimutantes de X-Men), da Cubberley High School em Palo Alto, Califórnia, ao dar um curso sobre a Alemanha nazista, teria envolvido os alunos em um movimento chamado "Terceira Onda" (como em o Terceiro Reich). O movimento cresceu espontaneamente até o ponto de obrigar Jones a encerrá-lo e a expor as suas intenções didáticas, nisso causando um choque tremendo em seus alunos. E em mim, depois de ver o filme.

O que A Onda fez foi me inocular contra o que chamo de "euforia revolucionária". Não me entenda mal: algumas revoluções são absolutamente positivas, especialmente aquelas realizadas contra um tirano - cuja única "utilidade", a meu ver, é ser encostado ao paredão quando seu regime é posto abaixo. A necessidade de mudar e de reformar os setores problemáticos ou negativos da sociedade é uma constante humana, mas o que a euforia revolucionária pode fazer é arrastar o seu impulso utópico para situações distópicas. Já vimos isso com o regime de terror que se seguiu à Revolução Francesa, com o stalinismo seguindo a Revolução Russa, sem falar naqueles regimes que já nasceram tortos, como o nazismo e o fascismo. Uma vez eu tive chance de perguntar a Fernando Morais - que escreveu A Ilha (1976), reportagem sobre Cuba que se tornou ícone da esquerda brasileira, e Olga (1985), sobre o nazismo - se ele enxergava ligações entre o entusiasmo revolucionário que dava a Cuba ares utópicos, e o entusiasmo revolucionário nazista que levou à guerra e ao holocausto. Ele não respondeu.

Mas Jones também partiu de uma pergunta feita em classe que ele não conseguiu responder: "Como o povo alemão podia afirmar sua ignorância do massacre dos judeus?" A única resposta possível estava além - e provavelmente ainda está - de qualquer articulação intelectual: os alunos precisavam experimentar o que era viver em uma sociedade arregimentada. O que ele propôs - postura física correta, disciplina nas intervenções em classe, solidariedade de grupo - não são ruins em si; ao contrário, podem ser positivas e melhorar o rendimento ou levar à realização pessoal (não há atleta, artista ou acadêmico bem-sucedido sem disciplina).

Jones havia iniciado com o slogan "Força pela Disciplina", com resultado tão substancial que ele logo entrou num segundo estágio: "Força pela Comunidade." Sublinhando isso, uma saudação de grupo foi criada. Com isso, alunos de fora do curso se agregaram a ele. Jones então distribuiu carteiras de membro, antes de entrar no terceiro estágio: "Força pela Ação." E a primeira ação envolvia o proselitismo da Terceira Onda. A resposta foi estrondosa - duzentos novos convertidos em um dia. Mais tarde, Jones escreveria: "Eu me senti muito sozinho e um pouco assustado."

Não obstante, ele foi em frente e os próximos estágios chamaram-se "Força pelo Orgulho" e "Força pela Ação". Orgulho os levaria a tornar a Onda em um projeto nacional de mudança. Uma reunião foi marcada para a comunicação dos primeiros passos no cenário nacional. Nesse momento, o dramático, chocante dénouement.

Quando eu digo que esse filme inoculou em mim a vacina contra o entusiasmo revolucionário, há mais a respeito do que apenas os seus efeitos na minha cabeça adolescente. Somei a isso a minha própria análise de momentos infantis e juvenis de minha vida em que havia perigosamente me curvado à insidiosa dinâmica da aceitação e rejeição pelo grupo. E o fato é que passei por reuniões do PT ou festas do PC (eu tinha um amigo da UJS), cultos evangélicos e as marchas cadenciadas do quartel, e participei de atividades sociais, mas tentando ao máximo vigiar aquela semente interior do seguidor das disposições descerebradas do grupo.

E como depois de uma certa idade tudo parece descrever um círculo, nos últimos anos A Onda refluiu, a começar do meu encontro fortuito em um sebo com a novelização do filme, dirigida ao público jovem, publicada também em 1981 e escrita por Todd Strasser sob o pseudônimo de "Morton Rhue". Consta que esse livro vendeu um milhão e meio de exemplares na Europa e teria sido leitura obrigatória em muitas escolas alemãs - distinção incomum para uma novelização.

E finalmente, agora em agosto estreou no Brasil a versão alemã de A Onda, dirigida por Dennis Gansel e distribuída nos cinemas. Quando eu soube do filme pela "Folha Ilustrada", gritei para a minha mulher: "A Onda voltou!" Ela, que também havia assistido ao filme original, me levou para vê-lo sábado passado, e não nos decepcionamos.

A Onda de Gansel tem a nova estética de cinema independente bem estabelecida - tanto que ele foi indicado para o 2008 Grand Jury Prize do Sundance Film Festival. Na versão alemã o "experimento" se dá em um belo e arejado, impecavelmente limpo colégio contemporâneo. O professor se chama Rainer Wenger (Jürgen Vogel) e é um simpatizante do anarquismo (quando o Ben Ross do primeiro filme parece a imagem cuspida do liberal da década de 1970) que é forçado a dar um curso sobre autocracia. (O curso sobre anarquismo ficou com um todo formal professor de tendências conservadoras.)

A atualização é mais sofisticada e inclui reflexões sobre a Alemanha unificada e globalizada e seus problemas. Há um jovem turco na turma, filho de imigrantes, e a atriz brasileira Cristina do Rego faz a garçonete Lisa, registro daqueles estudantes com dificuldades financeiras e que apreciaram a uniformização dos trajes entre os seguidores da Onda, para atenuar as diferenças sociais. A Onda permite que relacionamentos se estabeleçam independentemente de classe social, religião ou origem.

Até a saudação é atualizada com um fluído movimento de rapper.

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Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance A Corrida do Rinoceronte.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

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A Onda de Dennis Gansel "é mais sofisticada" do que a primeira versão, diz Causo

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